15.10.10

CURSO E CONFERÊNCIA SOBRE LLANSOL NO BRASIL


A nossa associada Celina Martins, professora de Literatura Comparada na Universidade da Madeira, fará uma conferência e um curso intensivo centrados n'O Livro das Comunidades, nas Universidades de São Paulo (USP) e Brasília, ao abrigo do programa de intercâmbio entre estas Universidades.
Em São Paulo, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, dia 19 de Outubro:
Conferência sobre «A travessia de São João da Cruz e Nietzsche em O Livro das Comunidades, de M. G. Llansol».
Em Brasília, no Departamento de Teoria Literária e Literaturas, dias 21 e 22 de Outubro:
Curso intensivo sobre «Poéticas de Maria Gabriela Llansol e Ana de Miranda (Desmundo)» (mais informações em: http://www.telunb.com.br/index.php).

12.10.10

AS SEGUNDAS JORNADAS DE SINTRA... E O QUE SE SEGUE

Passaram mais umas Jornadas Llansolianas de Sintra. É tempo de balanço rápido, antes da publicação do volume que documentará o que se disse e viu. Este ano quisémos pôr à prova o texto de Maria Gabriela Llansol, submetendo-o a olhares novos, de leitores não muito iniciados, alguns quase virgens deste vício de ler Llansol como quem a lê sempre pela primeira vez. O resultado correspondeu às expectativas – como teria de ser com os leitores de excepção que este ano aceitaram o convite – e o desafio – de mergulhar nos labirintos da alma e nos arcanos da escrita de M. G. Llansol.



Eduardo Lourenço abriu com algumas intuições certeiras e, como é seu apanágio, fulgurantes na formulação encontrada, ao referir a «condição pré-metafísica» deste Texto, o paradoxo da sua «simplicidade-obscuridade», a sua capacidade de «tomar o dom textual da realidade à letra», permitindo assim ao leitor/legente «estar no texto» (não haverá fórmula mais adequada para o modo de ler pedido pela escrita de Llansol).
Depois, O Jogo da Liberdade da Alma e outros livros foram sendo iluminados por múltiplos olhares que viram neles uma «topologia quântica textual» e um rasto «medusiano/penelopiano» (Carlos Couto Sequeira Costa), ou o cruzamento do «sexo de ler» e da paisagem no espaço de um «puro sim» (Blanchot) proporcionado pela «desmemória» (Lúcia Castello Branco). Despiram-se dos seus sentidos mais correntes os termos-chave de Jogo, Liberdade e Alma em Llansol, inserindo-os em linhagens que vão dos pré-socráticos a Espinosa e Schiller (João Barrento); falou-se da «mestiçagem», do «funambulismo mágico» e da «explosão vertiginosa e meteórica do inédito» (o poeta francês Yves Peyré), trouxeram-se testemunhos de leitores franceses abismados com a subtileza e a pluralidade da «cena viva» e da dramaticidade da escrita de LLansol (Muriel Bonicel, livreira como as já não há em Portugal). Trouxe-se para o texto llansoliano o processo da colagem, com a sua «harmonia difícil» e o seu espaço vibrante de «correspondências» (Matteo Bianchi e Carolina Leite, editores de M. G. Llansol em francês e italiano); traçaram-se paralelos entre a escrita da palavra e a da música, com as suas «polifonias atonais» (Gilda Oswaldo Cruz, antes do recital de piano com obras de Bach, Messiaen, Schoenberg e Cláudio Santoro); e analisaram-se processos («a metabolização do real», o recurso ao «sarcasmo subterrâneo») e os fundos imemoriais, radicados nos «atributos variáveis dos mitos», desta escrita e do seu universo (António Vieira). E por fim veio aquele extraordinário momento em que Hélia Correia, colocando a questão da relação com o texto de Llansol em termos de dom e aprendizagem, de entrega, mas não de profecia, o apresentou em paralelo, óbvio e irrecusável, com a sua relação com os gatos e o gesto de «fazer festas na barriga» de ambos, seres de fascínio e «corpo vivo de leitura».






Também as apresentações de novos livros – Um Arco Singular. Livro de Horas II (Assírio & Alvim), por José Manuel de Vasconcelos, e «Nada ainda modificou o mundo...». Actualidade de Llansol (Mariposa Azual), por Maria João Reynaud – foram muito além do que é mais habitual nestas circunstâncias, em lucidez, profundidade e sensibilidade à matéria viva destas duas novas publicações.



E a exposição Rara & Curiosa. Os papéis avulsos de Llansol deu a ver uma parte ínfima, mas representativa, do universo manuscrito deste espólio. A encerrar, a voz forte e modulada de Diogo Dória, dando corpo a três fragmentos de escrita dos cadernos inéditos, da fase de elaboração de O Jogo da Liberdade da Alma (1998-99), testemunhou de forma impressionante a capacidade de iluminação do real e de penetração de si próprio desse «ser de escrita» que dá pelo nome de Maria Gabriela Llansol.


Em suma, pode dizer-se que as Jornadas deste ano constituiram dois dias plenamente conseguidos. Mas que não nos levam a descansar à sombra do já feito. Retomámos já o trabalho com vista à próxima grande iniciativa do Espaço Llansol, a exposição sobre Llansol e a Europa, a inaugurar em 27 de Março de 2011 no Centro Cultural de Belém, com o título «Sobreimpressões».
Damos a seguir uma primeira ideia dos objectivos desse grande evento, da sua estrutura e do que esperamos que possa acontecer em seu redor.


«SOBREIMPRESSÕES»
A dimensão europeia da Obra de Maria Gabriela Llansol
Exposição e Dia Llansol no Centro Cultural de Belém
27 de Março de 2011

A exposição e o Dia Llansol pretendem assinalar o significado e a dimensão da história política, espiritual e cultural da Europa na Obra da escritora MARIA GABRIELA LLANSOL (1931-2008) desde a publicação do primeiro volume da sua primeira trilogia, O Livro das Comunidades (= Geografia de Rebeldes. 1), em 1977. Foi com esse «livro-fonte», escrito nos anos do exílio na Bélgica, que começou a aventura, única na literatura portuguesa contemporânea, da busca de um sentido para a história da Europa através da recuperação de algumas das suas figuras maiores do pensamento, da acção política, da arte, da literatrura, da espiritualidade – portuguesas, espanholas, francesas, belgas, holandesas, alemãs, polacas, italianas, dinamarquesas (vd. Mapa com Figuras).
É a própria autora quem, num dos seus livros, traça nos seguintes termos a genealogia deste projecto do humano para a Europa, que prosseguirá até ao fim sob diversas formas:
Há muitos anos, quando comecei a viver na Bélgica, sem presssentir que seria por tantos, esta nossa longa ausência fez-me uma profunda impressão. Estava eu no béguinage de Bruges, com o sentimento fortíssimo de que já ali teríamos estado. Nós, não era eu. Já ali tínhamos sido alguém, alguém daquele lugar, e agora, inexplicavelmente, não havia ali, excepto na minha impressão, nenhuma memória de nós. Nem sequer o esquecimento. Data de então a presença constante, invasora e quase exclusiva, de certas figuras europeias nos meus livros […]
Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto. Comecei nas beguinas; destas, passei a Hadewijch, a Ruysbroeck. Destes, a João da Cruz e a Ana de Peñalosa. Fui conduzida por todos eles a Müntzer, à batalha de Frankenhausen e à cidade utópica de Münster, na Vestefália. Nos restos fracassados destes homens encontrei Eckhart, Suso, Espinosa, Camões e Isabel de Portugal. E foi por sua mão que fui até Copérnico, Giordano Bruno, Hölderlin, que todos eles anunciavam Bach, Nietzsche, Pessoa, e outros que a nossa memória ora esquece, ora lembra tão intensamente que me parece outra forma de os esquecer. De esquecer tudo isso.

(Lisboaleipzig 1, pp. 88-89)

A exposição organiza-se em seis lugares, a saber:

LUGAR 1:

A comunidade sem regra: Beguinas e místicos
a) Beguinas e místicos flamengos/renanos (Hadewijch de Antuérpia e Eckhart)
b) O misticismo ibérico: Ibn Arabi e João da Cruz (e Ana de Peñalosa)

LUGAR 2:
O nascimento da liberdade de consciência: Rebeldes e iconoclastas
Thomas Müntzer e a batalha de Frankenhausen; Münster e a experiência anabaptista; Nietzsche e a visão de um novo homem

LUGAR 3:
O litoral do mundo e o caminho da água
Portugal e a Europa na Idade Moderna
Luís M./Comuns / Camões ; D. Sebastião

LUGAR 4:
A geografia imaterial por vir: Dos poetas
Hölderlin

LUGAR 5:
O que pode um corpo: Em busca das fontes da alegria
Espinosa

LUGAR 6:
O caminho do dom poético: Lisboaleipzig
Aossê/Fernando Pessoa e J. S. Bach


Para além da exposição, que se orientará por princípios interactivos e dinâmicos, correspondendo ao próprio espírito da Obra de Llansol, haverá no Centro Cultural de Belém, no «Dia Llansol», e noutros lugares, nos dias que se seguem, vários eventos dedicados à escritora e a este tema, em que prevemos os seguintes:
Abertura oficial pelo Dr. José Manuel Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, membro do Espaço Llansol e grande admirador da obra de Llansol (sujeito a confirmação).

– Painel em que especialistas nacionais e estrangeiros debaterão a Obra de Llansol e o tema da exposição.

– «Ervilhas e Bach: Um concerto para Maria Gabriela Llansol», com peças da sua predilecção (em particular de J. S. Bach) e uma peça original do compositor português João Madureira.

– «Escritores lêem Llansol»: Leituras de textos de Llansol e testemunhos, por escritores portugueses.

– Apresentação de um documentário sobre as Figuras europeias da exposição e respectivos lugares de origem e actuação (em Portugal, Espanha, Bélgica, Holanda e Alemanha).

- Projecção de filmes disponíveis sobre algumas das Figuras europeias presentes na exposição, com discussão.
– Edição de um caderno que acompanha o «Dia Llansol», com documentação e iconografia sobre as Figuras europeias e respectivos lugares (pelo CCB).
– Edição de um livro-catálogo com textos das principais figuras europeias presentes na exposição, ensaios sobre elas, textos éditos e inéditos de M. G. Llansol e iconografia histórica e original.

4.10.10

O LIVRO DE HORAS I NA COLÓQUIO-LETRAS

O último número da revista Colóquio-Letrras (o 175, Setembro-Dezembro 2010), inclui uma longa, minuciosa e muito atenta nota crítica de Isabel Cristina Mateus, professora e investigadora da Universidade do Minho, sobre o primeiro dos «Livros de Horas», Uma Data em Cada Mão, saído o ano passado na Assírio & Alvim.
A autora, que faz uma excelente leitura contextualizadora dos diários inéditos de Llansol, escreve, por exemplo:

«Aparentemente, Uma Data em Cada Mão não vem acrescentar nada de substancialmente novo ao projecto de escrita llansoliano construído (ou melhor, em construção) ao longo dos cerca de trinta volumes publicados em vida da escritora... [...] E, no entanto, Uma Data em Cada Mão vem trazer tudo de novo àquilo que já conhecíamos desse projecto: um olhar diferente, mais próximo, mais íntimo, sobre este universo, uma porta entreaberta a cujo limiar assoma, com mais nitidez do que nunca, uma figura desenhando com a mão um gesto que nos convida a entrar.»
E, a concluir, lemos ainda:
«... Comentário a uma observação (provocadora) do diário: 'Os bons escritores fazem os maus diários. Aceito fazer um mau diário' (p. 61). Não é certo que estejamos perante um 'mau diário'; mas estamos, seguramente, perante uma 'grande escritora.»


18.9.10

NOVA EDIÇÃO: LLANSOL EM ITALIANO

Está pronto para distribuição em Itália e na Suíça italiana o novo livro da editora suíça Pagine d'Arte, que inclui O Jogo da Liberdade da Alma, a grande entrevista «O Espaço Edénico» e um dossier Llansol com textos inéditos dos cadernos e ensaios de João Barrento («A ataraxia activa do olhar») e Maria Etelvina Santos («A geometria da imagem nua»). Na edição figura ainda um desenho original do pintor Alexandre Holan e fotografias da casa de Sintra.
As edições italiana e francesa de O Jogo da Liberdade da Alma e O Espaço Edénico estarão à venda durante as próximas Jornadas Llansolianas de Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval (sábado 25 de Setembro, a partir das 14 horas, e domingo 26, todo o dia).


JORNADAS LLANSOLIANAS:
OS TEXTOS DE 2009 EM VOLUME


Vai ser lançado e posto à venda durante as Jornadas deste ano, no próximo dia 25 à tarde, um novo volume da colecção «Rio da Escrita», editada pela Mariposa Azual, que reune as intervenções das Jornadas de 2009, subordinadas ao tema «Llansol: O novo, o Vivo, o actual».
Fica aqui a capa do novo livro e excertos do «Pórtico» que o abre:

Os textos que aqui se publicam põem claramente em evidência, na diversidade de perspectivas que lhes é própria e faz jus ao objecto de que se ocupam, que os conceitos do novo e do actual se abrem a tudo aquilo que, no contexto literário, cultural e civilizacional contemporâneo, pode ser visto na Obra de Maria Gabriela Llansol como actuante, singular e vivo.
«Actuais» serão, assim, neste Texto, tanto os caminhos que ele partilha com o pensamento e alguma praxis deste nosso tempo, como os valores que ele propõe e que hoje foram secundarizados ou soterrados. A escrita de Maria Gabriela Llansol pontua também este livro, completando os textos das intervenções com excertos inéditos dos cadernos do espólio, na medida do possível próximos da temática das Jornadas e dos seus tópicos condutores. Esses fragmentos inserem-se em extratexto, em cor diferente e em itálico, apresentando-se no seu conjunto como um percurso da autora através das suas próprias noções do novo, do Vivo e do actual, por vezes com surpreendentes derivas e amplificações.

16.9.10

NOVO VOLUME DE INÉDITOS A LANÇAR NAS JORNADAS

No domingo, 26 de Setembro, à tarde, apresentaremos durante as Segundas Jornadas Llansolianas de Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval, o segundo colume do «Livro de Horas» de M. G. Llansol, que será comentado por José Manuel de Vasconcelos.
Mostramos já o que vai ser a capa desse novo livro, e antecipamos alguns aspectos marcantes da matéria extraída dos cadernos manuscritos de Llansol, nos anos de 1977 a 1979 do exílio da Bélgica (da introdução de João Barrento e Maria Etelvina Santos).

Neste segundo volume do Livro de Horas evidenciam-se essencial mente duas vertentes. Por um lado, predominam registos tendencialmente bastante mais pessoais (por vezes mesmo íntimos) do que no primeiro volume. A matéria biográfica, as evocações da infância, as crises de relacionamento na vida social, as tensões entre indivíduo de escrita e grupos profissionais, ocupam grande parte da escrita diarística destes anos de 1977-1978 (correspondentes aos cadernos nº 3 a 6 da primeira série do espólio), uma época em que a escrita tem de alternar com o trabalho, e se vê, por isso, frequentemente atravessada por tensões e nostalgias. Por outro lado, põe-se mais à vista a oficina de Llansol, sobretudo no que se refere ao trabalho de pesquisa e de entrosamento da experiência com a narração e a escrita, particularmente do segundo e terceiro livros da primeira trilogia, A Restante Vida e Na Casa de Julho e Agosto.
[...]

Uma palavra sobre o título encontrado para este segundo volume: o «arco singular» que nele se traça (sugerido pela leitura de Rilke) é múltiplo, e será decisivo para o resto da vida e da escrita de Maria Gabriela Llansol. Esse arco vai do entusiasmo inicial da experiência cooperativa de trabalho e ensino à desilusão final dessa vivência, tão típica de uma época de ideais alternativos e de contradições. É o arco da tensão crescente entre as imposições da sobrevivência e a «sobrevida» que só a escrita de mais dois livros pode trazer, os que ocupam grande parte destes cadernos e deste período... É o arco que vai da matéria medieval, e fascinante, do universo de beguinas, cátaros, gnósticos e alquimistas à descoberta da escrita e da existência de outras mulheres, escritoras do mesmo século XX, e grandes revelações, como Virginia Woolf e Katherine Mansfield. É, em termos de quotidiano estrito, o arco que vai da saída de Lovaina e do seu mundo mais cosmopolita à aparente felicidade da vida mais tranquila na casa de Jodoigne (que evoca vagamente a da infância, e por isso é objecto de tanta atenção) e ao anúncio da saída para o isolamento ainda maior de Herbais, que proporcionará finalmente uma existência quase exclusivamente preenchida pela escrita. O «arco singular» que este livro dá a ver é, enfim, o de uma linha parabólica sempre bidireccional e tensa, com um vórtice em cima e outro em baixo, entre os quais se desenrola o percurso de um ser de escrita que, como dirão mais tarde as últimas palavras de O Senhor de Herbais, sendo como poucos singular, nunca seria «uma singularidade vã».


10.9.10

AVULSOS DE LLANSOL EM EXPOSIÇÃO NAS JORNADAS


As próximas Jornadas Llansolianas de Sintra, de que já aqui divulgámos o programa, (e agora mostramos o cartaz) terão, entre outos momentos singulares, uma exposição de algumas dezenas de papéis avulsos com escrita de Maria Gabriela Llansol (uma ínfima parte dos que temos no espólio), que intitulámos Rara & Curiosa. Do que se poderá ver em 25 e 26 de Setembro no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, dá conta o início do caderno-catálogo dessa exposição (disponível durante as Jornadas), um texto de João Barrento intitulado
A palavra imediata

O «avulso» é a expressão acabada da escrita que ainda o não é, e já vai a caminho, já nasceu, começa a germinar, para crescer ou se mostrar no esplendor já maduro de uma frase, na janela semi-aberta de um enigma que o texto desdobrará. Fragmentário, e aquém do fragmento, escrita esburacada, impulsiva mas muitas vezes logo incisiva e luminosa, o papel avulso que não tem lugar (por vezes nem data) de nascimento certo, é mais filho da visão do que da ideia, é o prolongamento espontâneo dos sentidos, sobretudo do olhar. Num dos cadernos manuscritos de Maria Gabriela Llansol, em 16 de Maio de 1998, lê-se: «Observar é o primeiro modo de escrever; o primeiro entre outros igualmente principais. Mas o que eu não quis ver – não escrevi.»

Esta forma particular de infância da escrita, frágil, informe, desapoiada, acomoda-se a qualquer lugar. Na sua incontida urgência, ou também no vagar que a viu nascer à mesa do café, num momento de espera, em viagem, qualquer suporte lhe serve, pede abrigo a fichas, folhas soltas de vários formatos, com uma única frase ou com vários tufos de escrita em labirinto, já usadas ou impressas de um dos lados, a envelopes que denunciam ligações, guardanapos de mesa de café ou restaurante, jornais, programas de espectáculos, plantas de cidades, postais, marcadores de livros; e usa até, no início, as bases dos copos de cerveja que, na Bélgica (em Lovaina ou Bruxelas), albergam fragmentos de diálogos amorosos... – para não falar já das páginas dos próprios livros, no caso das
marginalia, a perder de vista, que recolheremos um dia dos cerca de 2.500 volumes da biblioteca pessoal de Llansol.
Tudo isto se encontra no imenso conjunto de papéis avulsos que foram surgindo no espólio de Maria Gabriela Llansol – quase dois mil, entre os que fomos descobrindo em todos os lugares da casa que foi a sua, em gavetas, em livros, misturados com correspondência, e aqueles, cerca de mil, que ela deixara disseminados pelos cadernos manuscritos, onde ficaram depois de classificados... [...]
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3.9.10

LLANSOL E O ESPAÇO LLANSOL NA REVISTA «LER»

O número de Setembro da revista LER-Livros & Leitores, posto à venda hoje, traz uma reportagem de Filipa Melo sobre a escrita de M. G. Llansol e o trabalho que, no Espaço Llansol, vimos desenvolvendo com o tratamento do seu espólio.

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2.9.10

SEGUNDAS JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA

Está pronto o Programa das Segundas Jornadas de Sintra, este ano centradas no livro O Jogo da Liberdade da Alma, com participações de França, da Suíça, do Brasil e de Portugal, lançamento de dois novos livros, projecção de um documentário, um recital comentado, exposição de manuscritos e desenhos de Maria Gabriela Llansol e leitura de inéditos pelo actor Diogo Dória.
A entrada para o palco do Grande Auditório do Centro Cultural Olga Cadaval, onde tudo se desenrolará, é livre. Esperamos por todos os interessados, legentes e curiosos, no sábado, 25 (à tarde) e no domingo 26 de Setembro (todo o dia).
Todos os pormenores no programa que se reproduz abaixo (para ler, clique nas imagens).


17.8.10

«O MEU GUIA É O FALCOEIRO...»

A dada altura do longo período da génese dos dois volumes de Lisboaleipzig (publicado em 1994), corria o ano de 1987, Maria Gabriela Llansol começa a anotar num dos cadernos (o número 1.25) o resultado das suas pesquisas sobre falcões. O falcão, que já dera título ao primeiro dos Diários – Um Falcão no Punho, de 1985 –, sem que, no entanto, esta ave de reis aí desempenhasse algum papel particular, haveria de tornar-se figura de relevo em Lisboaleipzig:
– na figuração metafórica da relação entre escrevente e texto, entre o punho que lança o voo e o pulso de onde nasce a escrita: «Nevava em Lovaina, de encontro aos cafés que eu abrangia como comunidades de peregrinos, e suspeitei que um falcão voava para o meu trabalho — com uma aura de terra, e vindo de uma coutada. Não pousou no meu pulso, entrou no meu pulso. E são-me entregues os seus olhos redondos, duas vezes maiores, entre mim e a neve. Aossê
era a transparência excessiva que chegava finalmente...» (Lisboaleipzig 2, 101).
– e sobretudo na ligação explícita ao renascimento de F. Pessoa/Aossê, transmutado em matéria «bi-humana» e em «homem livre – o que nunca foi em vida». (Lisboaleipzig 2, 70), e ganhando novo corpo a partir do ovo de falcão que lhe é trazido por Elisabeth, filha de Bach, e que ele próprio choca:
«Aossê
nu
sobre o chão
chocava no calor do seu ventre
o ovo do falcão que a fêmea lhe trouxera.
Ninguém podia entrar
no quarto fechado do horizonte que continha o poeta, e que o ia guardar naquele primeiro momento da novíssima arquitectura.» (Lisboaleipzig 2, 122).
E naquele caderno preparatório, em 1987, lê-se já: «Voou o falcão, ou Aossê feito ave» (Cad. 1.25, p. 34).
Tendo em vista projectos que hão-de concretizar-se em 2011, fomos recentemente, alguns dos colaboradores do Espaço Llansol, filmar e fotografar na falcoaria da Coudelaria de Alter do Chão. Centrámo-nos em particular num falcão peregrino (falco peregrinus) e num falcão branco (falco rusticolus), também conhecido por «gerifalte» ou «falcão letrado» (devido ao padrão da suas penas). E percebemos melhor, no convívio com estas aves extraordinárias, de vontade forte e soberanas, o fascínio de Llansol por elas.
Na sua biblioteca encontram-se livros e algumas outras fontes de informação sobre falcões, nomeadamente a sua representação na arte. Algumas das suas anotações sobre o falcão em 1987, e imagens da nossa breve expedição, podem ver-se no documento que se segue.