17.12.09

LLANSOL E O «GRANDE MAIOR»

No próximo dia 21 de Dezembro, às 10h30, a Câmara Municipal de Sintra, pela mão do seu Presidente, descerrará uma placa evocativa da ligação de Maria Gabriela Llansol a Sintra, junto da árvore que dá pelo nome de «Grande Maior» no livro Parasceve. Puzzles e ironias (Relógio d'Água, 2001).
Fica aqui o convite
(Clique na imagem para aumentar)

e algumas passagens do livro em que esta portentosa árvore – um grande plátano – tem lugar de destaque:


II - O Vaso Quebrado e o Grande Maior
ergo os olhos para a cúpula da árvore. Próximo, há uma fonte, a fonte do Plátano, e o que me atraiu foi a humidade do lugar, e a anfractuosidade da pedra para apoiar as costas. Mas, já sentada, apoiei a nuca sobre a rocha e principiei a ver que, por cima da minha cabeça, seguindo os raios de luz que desejavam partir, havia ruas extensas e elípticas, orifícios ou vazios entre as folhas, que correspondiam a praças verdes, que acolhiam um lugar habitado, elevado à potência da copa de uma árvore. O meu corpo sentado perdeu-se, e fiquei visível e invisível. Dois cães não tiveram medo da minha imobilidade, e o meu encontro com eles foi breve, pois estavam de passagem. Tinha o sentimento de que, com um simples olhar, eu própria deslocara o meu corpo. E o corpo estava onde estava o meu olhar, às portas de uma cidade-árvore que eu intitulara o Grande Maior. Nesse lugar, eu não devia preocupar-me com a credibilidade do meu testemunho, pois seria dito, de uma vez para sempre, que era uma cidade invisível e que só eu via. A árvore, essa, poderia ser vista por toda a gente. (p. 11) […] Descrever um lugar indescritível é torná-lo inamovível para o resto da minha vida, que certamente decorrerá ao lado da árvore, como sempre tem decorrido no jardim que o pensamento permite. O jardim não é criado pelo pensamento, o jardim permite pensar, tem a sua própria forma de pensar o pensamento. O Grande Maior tem as mesmas propriedades. Apenas não pensa do mesmo modo. Na verdade, aprofundar a intensidade de viver e deixá-la à natureza, é morrer menos. Falo do meu ponto de vista de visitante, porque ali não havia morte… (p. 12) […]
– É doloroso dar vida ao espírito bravio, e não lembrar... – Acho que ter um tronco e equilibrá-lo é preferível a ter memória. – Também é verdade que, com algum treino, o dentro e o fora se tornam reversíveis, quase sem dor. – Nascer e renascer. Dar botões e ramos. Deixar cair as folhas e torná-las matéria nossa... – É a tua travessura de árvore. A tua pujança não recorda. Mas eu não sou árvore. – Por que hei-de fazer como tu? – Haverá uma outra maneira efectiva de procurar? Se viver fosse recordar, uma semente sonhante seria o seu perfeito equivalente. Olha, seríamos cristais... (p. 131) […]
Explicitar medo pode escrever-se dentro, a partir de fora, como faz o realismo. A estaca apoia a árvore. A árvore cresce, a estaca apodrece. É mais prático escrever dentro, de dentro. É o ponto de vista da seiva. Nem sempre é possível, é a arte de jardinar. A mulher ouvia a voz, era a sua estaca. O grão corria pela voz, a seiva. Alguém-infância cantava. No jardim onde está, neste momento, ela ouve um ruah nos ares. (p. 151) […] … Na minha procura de ritmo, cheguei à seguinte conclusão: «a causa que é totalmente diferente de outra causa mas produz um efeito semelhante e muito próximo, deve ter tido, embora muito longe, um encontro fulgurante com essa causa». Não cheguei lá sozinho, fui muito ajudado pelo Grande Maior. O que é o Grande Maior? Um ser que certamente acharias muito estranho. O Alguém-vegetal que, num momento extremo, salvou uma criança humana de perder o seu ruah. Ruah? A parte mais íntima e activa do som. De um som que podes chamar ar ou vento. Somos suas causas longínquas, sem que ela seja, no entanto, nosso efeito… (p. 177)

Cartazes do Espaço Llansol e da Associação para a Defesa do Património de Sintra, colocados no Grande Maior no Dia Mundial da Árvore em 21 de Março de 2008

3.12.09

LLANSOL: A LUZ DE LER # 5

A vocação do exílio



Num conjunto de sete pequenas folhas avulsas, inseridas num dos primeiros cadernos manuscritos (e agora também no Livro de Horas I - Uma Data em Cada Mão), Llansol reflecte, numa rápida visita a Lisboa, em 1976, sobre alguns dos seus temas de sempre: o exílio, a difícil relação com Portugal, a língua sem metáforas que se deposita, em sobreimpressão, sobre a paisagem belga, ou sobre o nosso grande mundo aquático, para os trasformar.

29.11.09

A CASA E O ESPÓLIO ENCANTADOS DE GABRIELA LLANSOL

A edição do Expresso deste fim-de-semana inclui, no suplemento «Actual», uma longa «reportagem» de António Guerreiro (com fotografias de Duarte Belo) sobre o que foi a última casa de Maria Gabriela Llansol, o que é hoje o Espaço Llansol e o espólio que continuamos a tratar e a disponibilizar.


O texto de António Guerreiro dá conta do que é esse imenso espólio, do que foi a vida de escrita e a muito particular escrita da vida de Llansol, reconstituindo-a desde o exílio na Bélgica até ao regresso a Portugal, para se fixar em Sintra, e à criação do Espaço LLansol em fins de 2006.


No mesmo suplemento, e ainda pela mão de António Guerreiro, pode ler-se a primeira recensão crítica do primeiro volume do Livro de Horas, que lançámos durante as Primeiras Jornadas Llansolianas de Sintra, em 3 e 4 de Outubro passado, e na qual se pode ler:


«... desengane-se quem, atraído por vulgares solicitações diarísticas, espera encontrar neste volume uma escrita diferente daquela dos livros da autora, que fosse voltada para um registo banal do quotidiano. Tudo isso está lá, mas não de maneira substancialmente diferente daquela a que os seus livros nos habituaram. Percebemos agora, melhor do que nunca, que a escritora viveu sempre na dimensão daquilo que escreveu, e por isso a sua escrita diarística contempla também um enorme grau de hospitalidade para as figuras e personagens dos seus livros.»

26.11.09

LLANSOL NA COLÓQUIO-LETRAS



O último número da revista Colóquio-Letras, o primeiro da nova série dirigida por Nuno Júdice (depois de dois números dedicados a Eduardo Lourenço), inclui um núcleo significativo de textos diarísticos e ensaios sobre o género – para além de muitas reproduções do «Diário com Perdiz», da pintora Graça Morais –, entre os quais algumas páginas de um dos diários inéditos de Maria Gabriela Llansol, datado de 1981. Como se lê no texto de apresentação de João Barrento («Entre o murmúrio e o ouvido. Llansol: o diário interminável»), os textos que aqui se dão a conhecer, «como centenas de outros não acolhidos nos Diários éditos, fornecem uma amostra de alguns dos temas que com mais frequência ocupam LLansol na sua escrita diária, centrada em matérias como 'o humano, o vegetal, o aéreo do mundo', mas também a própria escrita, o exílio e o processo de 'sobreimpressão' da língua para aí levada na paisagem do Brabante, o trabalho do sonho (muito frequente nos cadernos, até ao fim da vida), a literatura portuguesa contemporânea ou a gestação dos próprios livros da Autora».

19.11.09

PRÉMIOS DE POESIA E FICÇÃO PARA «LLANSOLIANOS»

Dois escritores muito próximos de Maria Gabriela Llansol ou da sua escrita vão receber no próximo dia 24 (às 18.30 horas, na Sociedade Portuguesa de Autores, Rua Gonçalves Crespo, em Lisboa) os Prémios de poesia e de ficção do PEN Clube Português referentes ao ano de 2008.


Manuel Gusmão, que por mais de uma vez escreveu sobre Llansol, recebe o prémio pelo livro de poesia A Terceira Mão (Caminho).

Maria Velho da Costa viu distinguido o seu romance Myra (Assírio & Alvim), onde se convoca expressamente Amar Um Cão. Mais informação sobre a entrega dos Prémios PEN de 2008 aqui.

18.11.09


LLANSOL E O NEO-BARROCO

O último número da revista online ABRIL, do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da Universidade Federal Fluminense, de Niterói, Rio de Janeiro,


dedicado ao tema «Estética (neo)barroca e crise do sujeito», inclui dois artigos que situam a Obra de M. G. Llansol nas encruzilhadas do Barroco:
– Aderaldo Ferreira de Sousa Filho, «A menor distância entre dois pontos...”» sobre o conceito de dobra enquanto componente da visão de mundo e da técnica de escrita em Maria Gabriela Llansol
(http://www.uff.br/revistaabril/revista-03/002_aderaldo%20ferreira.pdf)
e
– Jane Rodrigues dos Santos , O (neo)barroco no fulgor da escrita
de Contos do Mal Errante
(http://www.uff.br/revistaabril/revista-03/006_jane%20dos%20santos.pdf)

De Llansol se fala ainda no ensaio de João Barrento «A nova desordem narrativa: Sujeito, tempo e discurso acentrados no romance de mulheres em Portugal»
(http://www.uff.br/revistaabril/revista-03/008_joao%20barrento.pdf)

13.11.09


Mais uma dissertação de Mestrado, orientada na Universidade Federal de Minas Gerais pela Profª Lúcia Castello Branco:

Erick Gontijo da Costa
Curso de silêncio: Maria Gabriela Llansol e a escrita das imagens curativas (2009)

Do mesmo autor pode ler-se em linha o artigo «Escrever, dosar o amor», aqui.

29.9.09

PRIMEIRAS JORNADAS DE SINTRA

Alterações ao Programa e Informações

Algumas informações de última hora sobre as Jornadas do próximo fim de semana:

- A intervenção da Profª Silvina Rodrigues Lopes, que nos comunicou que não poderá comparecer, será substituída pela apresentação, por João Barrento, de uma montagem animada que recolhe e trata alguns dos muitos desenhos dos Cadernos de M. G. Llansol:

«A carne da cor e da imagem:
Desenhos dos cadernos de Maria Gabriela Llansol»

- No sábado à tarde estarão à venda (para além dos livros disponíveis de Llansol e sobre ela, e dos Cadernos Llansolianos) os novos livros que vamos apresentar nesse dia:

M. G. Llansol, Uma Data em Cada Mão. Livro de Horas I
e
AA.VV., O que é uma Figura?
Diálogos com M. G. Llansol na Casa da Saudação

Na ocasião passaremos gravações originais de intervenções de Llansol nas conversas de 2005-2006, transcritas neste livro.

Divulguem e participem!

24.9.09

LLANSOL: VIVA, NOVA, ACTUAL



Ao cabo de um ano e meio de trabalho intenso, múltiplo e gratificante na casa e no espólio de Maria Gabriela Llansol, com o apoio da Câmara Municipal de Sintra e da Fundação Calouste Gulbenkian, depois de termos digitalizado e tornado acessível o núcleo mais importante dos seus cadernos manuscritos, iniciado uma colecção de livros sobre a sua Obra («Rio da Escrita», na editora Mariposa Azual), promovido a saída da edição francesa Le jeu de la liberté de l'âme+L'Espace Édénique na editora suíça Pagine d'arte (que fará sair em breve a edição italiana), divulgado textos inéditos em várias revistas (Índice, Mealibra, Foro das Letras, Libretto, Colóquio-Letras), chegou o momento de concretizar um dos objectivos estabelecidos no protocolo assinado em 2008 entre a Câmara Municipal de Sintra e o Espaço Llansol: o de realizar anualmente em Sintra as Jornadas Llansolianas, que poderão constituir ocasião e pretexto para pensar e discutir esta Obra aberta e inacabada.


Cartaz e Programa (clique para aumentar)

Um dos momentos fulcrais do Encontro deste ano, cujo programa já divulgámos aqui, é certamente o da publicação, pela Assírio & Alvim, do primeiro volume dos Diários saídos dos cadernos inéditos de Llansol, o Livro de Horas, que continuaremos a transcrever e editar. Cremos que este primeiro volume – Uma Data em Cada Mão –, que cobre os anos de 1972 a 1977, será, a vários títulos, uma surpreendente novidade editorial.


Tal como, a outro nível, o testemunho vivo deixado por Llansol num outro livro que lançaremos também em 3 de Outubro, e que transcreve as discussões de grupo que com ela fizémos em 2005-2006 em torno da noção de «Figura» nos seus livros (O que é uma Figura? - Diálogos com M. G. Llansol na casa da Saudação, Mariposa Azual).


As Jornadas de Sintra reunirão em 3 e 4 de Outubro alguns llansolianos conhecidos, de dentro e de fora, com contributos que se prevêem originais e debates que gostaríamos de ver animados pela presença de muitos dos leitores de Llansol.
Por isso, aqui fica o «Quem me chama» do Texto, e o nosso apelo: divulguem e apareçam em Sintra! Até porque, para além dos já referidos, haverá outros motivos de interesse e outras revelações:
Ilda David' expõe um número considerável de pinturas feitas para a segunda edição de Contos do Mal Errante (Assírio & Alvim, 2004), mas não incluídas nesse livro, e nunca expostas.


Pinturas de Ilda David'

E haverá, no Domingo à tarde, leituras de textos dos cadernos inéditos de Llansol, num cenário que tem por fundo a Serra de Sintra e como eco a voz escrita e dita, distante e sempre presente, de Maria Gabriela Llansol.


17.9.09

PRIMEIRAS JORNADAS LLANSOLIANAS DE SINTRA

As primeiras Jornadas estão em marcha! Dentro de dias daremos informações mais pormenorizadas.



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