5.3.09

«O JARDIM QUE A AUSÊNCIA PERMITE»

Llansol, um ano depois


Na evocação do passado dia 3, na galeria da Assírio & Alvim em Lisboa, cruzaram-se na intervenção de João Barrento dois textos que, de modos diferentes e afins, fazem um trabalho de luto muito particular por meio da escrita: Amigo e Amiga (A&A), de Llansol, e Journal de deuil, de Roland Barthes:


Cruzaram-se por estes dias, na nossa experiência de leitura – da Vina e minha –, duas figuras que nos levaram a reflectir sobre «a experiência abusiva da morte» (Amigo e Amiga, 16). Abusiva é a experiência da morte quando se sente que esta não existe (Llansol), ou quando se rejeita o chamado «trabalho de luto» como forma de a exorcisar e «resolver» (Roland Barthes). São estas as duas figuras que em nós se cruzaram: Roland Barthes, de quem acaba de sair um Diário de Luto (Journal de deuil) pela morte da mãe (que já suscitou polémica, e que eu trouxe de Paris, aonde fui para o lançamento de O Jogo da Liberdade da Alma + O Espaço Edénico em tradução francesa); e, naturalmente, Maria Gabriela Llansol, sobre cuja partida passa hoje um ano. Por um desses acasos que nos estão sempre a acontecer na casa e com os papéis que foram dela, ao procurarmos nos cadernos inéditos, a partir de 1974, registos deste dia 3 de Março, démos com uma anotação no caderno 8, datada de 26 de Março de 1980, o dia da morte de Barthes, e intitulada: «Minha homenagem a Roland Barthes».


Diz o seguinte (a nota, apesar de breve, é de peso pelo que significa para o despoletar de uma nova escrita em M. G. Llansol): «26 de Março, quinta. Morte de Roland Barthes [...] Minha homenagem a Roland Barthes: um dia, estava eu em Lovaina a ler Inácio de Loyola, Fourier, Sade [sic], mais precisamente Inácio de Loyola, quando senti que se reestruturava todo o meu aparelho de escrever, sem saber que iniciava o caminho de O Livro das Comunidades. Disse: 'Era uma vez uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre. Vivia numa grande casa...'».


Posteriormente, continuando a busca de textos escritos por Llansol em dias 3 de Março, salta-nos de um dos cadernos um daqueles longos fragmentos, tão frequentes nestas fontes inéditas, cuja fulgurância e pertinência era tal que esquecemos as datas de 3 de Março e decidimos que seriam essas páginas que vos daríamos a ouvir hoje. Páginas que, à semelhança de outras que conhecemos de M. G. Llansol, falam da «biografia» que ela não teve, se por isso se entender um espaço de vida mais ou menos cheio de acontecimentos e balizado por duas datas, e não, como neste caso mais importa, uma «signografia do Há», isto é a escrita dos sinais que marcam uma existência e lhe conferem sentido. Uma «relação amativa» com o mundo, e não uma mera «organização de vida», como escreve também Barthes no seu Diário. No caso de Llansol, as marcas de sentido da existência são essencialmente os sinais de escrita que totalmente a preenchem e absorvem, como uma «segunda natureza», e que deixou disseminados por qualquer coisa como quase trinta mil páginas manuscritas e dactiloscritas.
Durante este primeiro ano da sua ausência, também alguns de nós, depositários e continuadores da sua Obra, moradores do Lugar que a viu escrever nos últimos anos de vida, ocupámos em grande parte o nosso tempo com um «trabalho de luto» sem luto, mas preenchido pelo diálogo diário com a escrita e o mundo de Maria Gabriela Llansol. Trabalho não de luto, mas de mágoa (chagrin), porque não paralisante, mas estimulante, como o descreve Barthes:
Não preciso de solidão, preciso do anonimato (do trabalho). Transformo o «Trabalho» em sentido analítico (trabalho de luto, trabalho do sonho) em «Trabalho» real – de escrita. porque: O «Trabalho» pelo qual (como se diz) saímos das grandes crises (amor, luto) não deve ser resolvido à pressa; para mim, ele só se consuma na e pela escrita. (p. 143)


Este foi para nós um ano de permanente actividade, de grande intensidade, de muita persistência e alguma daquela «coragem», diferente da que foi preciso ter na fase da doença da Maria Gabriela, de que fala ainda Barthes numa das fichas do seu Diário de Luto:
As pessoas desejam-nos «coragem». Mas o tempo da coragem é aquele em que ela estava doente, em que eu tratava dela vendo o seu sofrimento, as suas tristezas, e quando era preciso esconder as lágrimas. A cada momento era preciso tomar decisões, assumir uma figura, e é isso a coragem. – Agora, coragem significaria vontade de viver, e isso não nos falta. (p. 51)
O nosso luto foi-se fazendo, faz-se, como aprendemos a fazê-lo com a mulher de Amigo e Amiga, o «Curso de silêncio» de Llansol em 2004 – como uma caminhada para a luz que continuará a vir desta escrita, ou, com Barthes, como uma predisposição para encontrar sentido na ausência:
Luto: não esmagamento, bloqueamento (o que pressuporia um «preenchimento» completo), mas sim uma disponibilidade dolorosa: estou alerta, expectante, à espera que chegue um «sentido de vida». [...] ... situação sem chantagem possível. (pp. 90-91)
Sem chantagem e sem cair na ilusão de que o tempo «atenua» ou «resolve» o luto. De facto – outra ideia central neste livro de Roland Barthes e em Amigo e Amiga –, ele apenas o transforma, fazendo-o «passar de um estado estático (de estase, obstrução, recorrência repetitiva do idêntico) a um estado fluido». Também nós, se tivéssemos «resolvido» o luto, nunca poderíamos dizer, como o diz Barthes, e Spinoza poderia ter escrito – sem qualquer masoquismo –: «Habito a minha dor, e isso faz-me feliz». Porque «a cada 'momento' de dor acredito que é então que, pela primeira vez, realizo o meu luto. E isso significa: totalidade da intensidade.» (p. 85)


Como fizémos então o nosso luto durante este primeiro ano, e como o faremos nos próximos? Fazendo florescer a dor, como Estere em Amigo e Amiga, negando a morte, como em Spinoza e Llansol. Mudando o Lugar, mantendo viva a Obra. Transformando a Casa, como fizémos, e preparando o advento de novos livros de Maria Gabriela Llansol, que em breve começaremos a tornar públicos com a colaboração desta casa, a Assírio & Alvim.
Como diz Barthes, o luto, existindo no tempo, não está sujeito ao tempo, é «contínuo e imóvel». É a vivência mutante de um misto de dor e júbilo em cada momento presente. Ou, como sugere Spinoza, «mestre de bondade» e do «conhecimento verdadeiro»: a morte é apenas a entrada de um corpo noutros modos de relação, e por isso não existe, se for entendida como o Nada com que quase sempre é estigmatizada. Nesse grande e belo breviário do luto que é Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, Llansol deixa também claro que esse trabalho de luto não é um processo de dor que um dia se apaga, mas uma incessante actividade que traz o outro, continuamente, a uma luz sempre diferente, que não se extingue, mas devém outra coisa, não opaca, mas transparente – no seu caso, como no de Roland Barthes, escrita: «Agora, mentalmente, estudo a morte que se apaga em escrita. Escrita nossa... [...]; é como um enleamento de alegria num lugar sombrio e húmido» (A&A, 36), na busca contínua dos modos de metamorfose desse «enigma sem nenhum mistério contundente» que a leva a concluir que «não há mortos e há incógnitas» (A&A, 102-03).


Nessa busca incessante e nessa disponibilidade permanente, que impede que o luto se transforme em recalcamento e em «cura» ilusória, gerando o fim da inquietação e do diálogo com a ausência, o seu «trabalho» acontece em momentos sucessivos de activação produtiva da dor (da memória), momentos de coincidência (e, para a mulher de Amigo e Amiga, de pacificação progressiva dessa dor) em que, compreendendo «a beleza mutante do silêncio» perante a ausência, quem vive o luto «veste o xaile da consolação da morte» (A&A, 150) e entrega-se à «causa amante da metamorfose». Lenta metamorfose, numa via progressiva, e sem fim, de encontro com a transparência no meio da noite obscura. Assim, a própria morte se submete à lei dessa «causa amante» (Llansol) ou «relação amativa» (Barthes), para se transformar numa «imagem inflorescente», fonte de um «devir maior» – lemos ainda em Amigo e Amiga.
O devir do texto de Maria Gabriela Llansol depois da sua passagem, a grande responsabilidade que neste momento temos entre mãos, não poderá ser «maior», mas cremos que virá a ser outro, como se poderá ver pela sequência de imagens que documentam as transformações da casa que foi de Llansol e o seu espólio. O nosso dia-a-dia nessa casa, com essa casa e a presença permanente de quem nela viveu e escreveu – Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim –, poderá entender-se bem à luz de um último fragmento de Roland Barthes em que se fala da «conversa» inacabada com os que partiram nos lugares que foram seus – no «jardim que a ausência permite», que também Llansol habitou em Amigo e Amiga:
Partilhar os valores do quotidiano silencioso (gerir a cozinha, a limpeza, as roupas, a estética e como que o passado dos objectos), era o meu [é o nosso] modo (silencioso) de conversar com ela____ (p. 205).


Maria Gabriela Llansol

Fragmentos dos cadernos inéditos



26 de Fevereiro 1985, terça-feira

Penso que se morre com a sua biografia _____
esta noite, apoio a mão na minha boca e penso, para brincar, nas espirais de liberdade da minha vida; entre mim e a morte esvoaça a minha biografia;
um exercício sobre temas remotos que um dia se elevaram um pouco acima de nossas cabeças. O que havia para ver nesse depósito de energia intensa não será susceptível de ser guardado em nenhuma fonte ou guardanapo dobrado de leitura.
Dispunha-me a ir jogar à bola no centro do pátio quando me introverti a pensar, intensamente, que um dia alguém se lembraria de não me deixar morrer. Morrer do modo simples das toalhas, ou lençóis, que pousam abertos na terra.
Há eus sucessivos, simultâneos, estáticos, em movimentos, postos de claridade, e de mistura incessante de pequenos vidros de ideias inteiras e partidas; composições que me apresentam para eu fazer, e que eu passo, porque sou livre,
a outro canto mais claro de mim mesmo;
há um rosto aparente
tempo vencido e mal aureolado por uma moldura;

Saio para o pátio, para tentar continuar a estar só antes de ir para a Escola ____ jogando com as diferentes janelas da casa, entre as quais a do meu quarto
que reflecte a da sala de jantar.
Aprender a desobedecer assenta-me como uma capa, diz o Mestre Escola; assenta-me como uma luz, diz o eu de um dos vícios que tenho.


[...]
Esta biografia que esvoaça, e que se apresenta à minha frente como uma veste necessária de destinos originais,
é ermo. Onde ela surge, desaparece o meu corpo humano. É tão absurda, melhor, cruel, como esta reflexão partindo da boca de uma criança.
Entrego ao Mestre-Escola, tal qual, este papel.
Ele lê-o duas vezes, e imediatamente deixa de saber quem é, e onde está. A sala de aula circula. Os rapazes gritam: — Mais uma vez chegaste atrasado. Nessa circulação, o Mestre-Escola é invadido pelo depósito de energia que havia em mim, o reverso, o medo depressivo.
Para se defender de mim, que sou o verdadeiro agressor, pega na régua estendida sobre a mesa e pára na minha frente para bater-me: — Um, dois, três — tudo o que tinha feito surgir do nada se desfaz a este ritmo, se integra perfeita e sonoramente n'Ele.

Biografia — uma imensa tristeza; aprender em vida a sentir-se morte.


2 de Março 1985, Sábado

Uma confidência

Que alegria eu teria se recebesse uma carta,
alguém dizendo-me
acabou-se a finitude.

[…]

É perigoso continuar aqui.
Chamam-me;
apanho do chão
as minhas reflexões,
e vou-me embora.

Tomar estas notas
para vós
é o meu caminho
por entre a morte.

(Caderno 1.17, pp. 289-301)


*****
25 de Maio 2002

Parti para muito longe daqui, e tão cedo não voltarei, salvo se o ruído do mar me trouxer; o verde terminou nos pinheiros, só há pinhas indigestas que os homens não comem, e quando olho para cima, deitada debaixo de outro pinheiro verde, acomete-me o enjoo do espaço como o balanço compassado de um navio __________
Que fazer ao mal de morrer?


27 de Setembro 2002

Apago o desenho que já fiz — e as cadeiras estão vazias à volta da mesa. Apaguei as árvores que desenhara sobre o texto, mas elas permanecem erguidas pelas raízes nas cadeiras. O vento derrubou um copo de vidro e de papel. A brisa, agora feita vento, sopra.
[…]
Brilha, perto, aqui, sobre aqui — e sobre tudo —
a luz da vida.

(Caderno 2.63, pp. 51 e 67)

3.3.09

DESDRAMATIZAR A MORTE



Quando, em Maio de 2006, saiu Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, esse livro magnífico em que Llansol subverte as noções correntes da psicanálise sobre o «trabalho de luto» desde Freud, dois legentes, com os nomes de código de Metanoite e Legente, mergulhados nesse livro, mas também dispersos por outras leituras, foram trocando durante três dias, no «Skype», impressões sobre o que estavam a ler, e sobre as vantagens e inconvenientes da dispersão. A troca de ideias lança aqui e ali alguma luz sobre esse grande «livro das transparências» e as perplexidades da sua leitura, um livro que faz um percurso admirável do luto para a luz – como aquele que, neste Espaço do Texto de Llansol, procuramos ir fazendo depois do seu desaparecimento, faz hoje um ano.
Talvez por isso se justifique a transcrição parcial dessas conversas neste dia: é mais uma forma de desdramatizar a morte, fazendo viver o texto, também ele disperso, fragmentário, bloco errático e coeso de pensamento e beleza.


13.5.2006

Metanoite: 19:09:40
Apanhas-me no meio desta conversa e do Amigo e Amiga [A&A]. Não estou a tomar notas sobre isto, não, estou a anotar o que A&A me diz, para além do que leio. Também aqui há dispersão: ler é dispersarmo-nos, escrever é reencontrar o obelisco orientador no meio do labirinto. Deixa-me concentrar agora um pouco no A&A. Também neste espaço do Skype, como no telefone, diz a escrevente do texto, pode haver «recolhimento» (acho que ela aprendeu isto quando A., ou o Nómada, estava no hospital). Respondendo agora ao teu «ensaia-te, perde-te»: seria muito bom se também tu encontrasses os teus obeliscos...

Legente: 19:12:36
Encontrarei o meu obelisco, mas agora vai para o A&A e não te disperses comigo (mas foste tu que vieste «desinquietar-me»)...

Metanoite: 19:15:34
Sim, sim, eu des-inquieto – outra bela contradictio in adiecto da línga portuguesa! Pronto, vamos à leitura-dispersão. Por enquanto, não tenho obeliscos à vista, mas eles virão, como sempre... Até mais logo. Acho que vou guardar este chat, nunca se sabe se daqui não nasce alguma coisa (é o vampirismo literário em acção!).


Legente: 22:25:18
Já vi o mail e já re respondi...

Metanoite: 22:51-02
Só agora vi a tua resposta. E já leste 40 páginas? Muito mais do que eu, que desta vez vou mais lento. Em parte, à cause das dis-persões, e também porque a cada página paro para anotar coisas. E hoje quase não li nada. Amanhã avançarei mais.

Legente: 22:53:56
Li a primeira parte, que vai até à pág. 46 – uma primeira leitura ainda.

Metanoite: 22:58:38
Primeira leitura? A minha vai ter de ser primeira e última – para já. Depois da primeira vem a escrita. Estou com algum temor, porque neste caso, como dizia o AJ na Causa Amante, posso identificar o referente inicial. E isso perturba mais a escrita. Apetece só ler e não dizer nada, mas, como sempre, cai-me a escrita em cima... É fadário, diz também o CCSC no Vedutismo!

Legente: 23:03:53
Hoje já não vou fazer mais nada – o A&A deixou-me «transparente» e demasiado (ou não) legente (é como dizes, desta vez torna-se mais difícil).

Metanoite: 23:11:41
Eu queria ler mais hoje, mas sinto o peso nos olhos, não sei se consigo, mas tentar vou... A ver no que dá a leitura...

Legente: 23:17:36
Talvez te siga e vá também ler mais um pouco.


Metanoite: 23:51:31
Afinal estou a ler, não o A&A, mas o teu Plotino – tinha começado, mas parei. E agora sinto que pode ter a ver com alguma forma de belo mais belo na MGL, apesar de o ponto de partida ser perfeitamente clássico... Veremos...
00:15:41
O teu caderninho do Plotino é muito jeitoso, porque do lado direito leio o texto e do lado esquerdo anoto e vou prolongando o que leio! Mas depois cais-me tu no meio da prosa... Ainda ia a dizer-te que não sei se a «suspensão que faz ver o infinito», que está no teu mail, é a différance do Derrida, podia também ser MGL neste livro: «saltando por cima dos diários e cursos para encontrar o que não vejo ainda»...


15.5.2006

Metanoite: 11:41 PM
Estou novamente no A&A, tenho de avançar rapidamente. Já recebi o convite para os poetas gregos, com a Hélia e o Frederico L., na sexta às 18,30 h, FNAC Chiado. Vamos ver se a MGL está disposta a mostar-nos as fotografias nesse dia à tarde. Sabes que acho que ela está a enredar-se nas suas obsessões e figuras, e a escrita está a ficar impenetrável nesta parte, 'Parasceve'? Já se torna difícil encontrar qualquer fio condutor, só se podem ler fragmentos... Não sei, vou continuar a ver onde nos leva a leitura...

Legente: 11:51 PM
Pois é, a MGL... Tenho de continuar amanhã, mas sabes que encontrei um fio que orienta? Vamos ver, ainda é cedo para falar...

Metanoite: 11:52 PM
Então diz-me que fio é esse! Eu também tenho os meus fios, na primeira parte, é claro, nesta é um enredamento a partir de certa altura. Até meio, o movimento gira entre dois lugares, o Parasceve, a cúpula da árvore, e o lugar de Nómada, o quarto dos ramos. E o que se passa é que a mulher, construtora de frases, etc., busca o seu lugar neste vaivém. Mas a certa altura parece que se perde o pé no paroxismo das imagens e de uma reflexão voltada para dentro, girando em torno de si mesma, abstracta no concreto, tudo fragmentado e espiralado... Bom, vou parar de pensar e continuar a ler...


16.5.2006

Metanoite: 12:04 AM
Olha, a resposta a estas perplexidades está no fragmento da pág. 102! É o «fulgor oscilante da leitura»!

Legente: 12:07 AM
... eu fiquei sem saber se ainda estavas a escrever. Quanto ao fio, amanhã mando-te um mail falando dele... Agora li-te e perdi o fio, isto é tudo muito rápido... dizia eu, ou queria dizer, que o abstracto/concreto (como te dizia ontem) é um dos meus fios... e já me perdi outra vez, porque voltei a ler-te, sou pouco versátil a skypar/pensar, não gosto disto para pensar a escrita!

Metanoite: 12:16 AM
Esquece o pensamento a voar, vai dormir... Eu ainda continuo a ler um pouco, preciso de terminar isto até quarta, o mais tardar. Essa do abstracto/concreto torna-se óbvia a partir de certa altura, mas é um fio apenas de processamento da escrita, não de substância...

Metanoite: 6:58 PM
Olha, quando abrires isto de novo já cá tens novidades... Mas antes te digo que vou avançado na leitura, e que o trabalho de luto da «estere» é impressionante! E talvez, depois de lermos esta parte – em especial págs. como as 159-161 –, tenhamos de rever posições quanto à «cura», pelo menos no que se refere ao papel da escrita nisso...
Vou continuar na leitura da ressuscitação, no trabalho da «beleza mutante do silêncio» neste livro da transparência (diz-me o que te fez chamar-lhe ontem livro da transparência, para ver se coincide com a minha ideia: pensei mesmo dar esse título ao que vou escrever, mas pode também ser outro, ainda não sei).



9:26 PM
Deves estar no jantar, e eu para aqui a massacrar-te! Depois de um dia com o A&A, estou arrasado e empolgado com mais este livro! Não há gente neste país para ler isto! E depois há o outro lado, que não aconteceu com nenhum dos outros: tudo isto nos toca de perto, na pele. Pode ser uma vantagem, mas é uma experiência de leitura estranha e perturbadora, para quem sabe que tem de falar disto por escrito e tem de ignorar os referentes em que estamos de corpo e alma! Já percebi por que é que a parte de Parasceve era tão difícil de atravessar: para o próprio processo da mulher que escreve tinha de ser assim, esta travessia dolorosa do deserto era necessária para depois, pouco a pouco, despertar de novo para a alegria. E de facto assim é: estere é a mulher-madeira, sólida e disposta a arder, pronta para a ressuscitação, porque percebeu que a morte é apenas uma imagem de inflorescência de onde cai uma pétala em que o mútuo se espelha sem se apagar. Estou já a delirar na escrita, tenho de guardar tudo isto para o que terei de escrever – e já sei que não posso escrever neste tom e deste modo, por isso me derramo... Sorry! Daqui a pouco conversaremos por aqui, talvez! Quero acabar de ler ainda hoje, para amanhã de manhã já poder arrumar ideias para a escrita. Precisava de ter três páginas de jornal à minha disposição, em vez de uma! Bom apetite, e até já!


Legente: 11:10 PM
Ainda estou sem palavras e não voltei a ler depois das cinco da tarde, tive de parar... O meu corpo não estava a aguentar tanta emoção. Não pelos acontecimentos, com isso já estava a contar, mas pela escrita – não sei como se pode chegar tão alto naquela fusão de pensar e sentir. E o texto transparente... pois é. Lembras-te de que lhe chamei assim no primeiro dia? E agora vejo que essa intuição era boa, porque este é o «texto transparente»! E como! Sinto a cabeça em confusão..., estou estranha, cheia de imagens (voltei a Ela – a imagem) e outras coisas que tento arrumar na cabeça, mas começa tudo a ser tão vertiginoso... Não quero interromper-te a leitura. Até já.

Metanoite: 11:13 PM
Pois, entendo... Mas quem escreve tem de saber controlar também essas catadupas de emoções. Não há inefáveis! Como, aliás, este livro prova à evidência! A dor não faz necessariamente emudecer, só emudece quem não tem voz. Também eu parei, porque sinto que hoje já não tenho cabeça para o resto – apesar de as últimas páginas não serem tão intensas, são mais uma deriva, com regressos a Bach/Aossê e às ruas, com os seus «transeuntes flutuantes». Amanhã acabo, e penso.


(Fotos de Legente e Metanoite)

2.3.09

LLANSOL, UM ANO DEPOIS

Amanhã, na galeria da editora Assírio & Alvim, às 18.30 h:

24.2.09

DESENHOS A LER NA CAS'A 'SCREVER



É este o título da exposição da artista brasileira Maria José Vargas Boaventura, inaugurada na passada sexta-feira, 20 de Fevereiro, e que continuará até 20 de Março na Casa-Museu Ferreira de Castro, em Sintra (Rua Consiglieri Pedroso 34 - Casal de Santo António, Vila Velha, entre o Turismo e o Hotel Lawrence's). Na ocasião, a Profª Lúcia Castello Branco, da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, traçou, com o texto que se segue, a ponte entre o universo de escrita de M. G. Llansol e os trabalhos expostos:



É a casa que ensina a ler


Apesar de ele ter decidido não compreender ela
Persistia em explicar-lhe porque lia a Gabriela Llansol _____

«É a casa que ensina a ler (pausa) imagina um extraordinário
Atractivo para o amor (pausa) o livro fala (pausa)
Procura a página que te fala (pausa) sentam-se à mesa

Num estético convívio são da substância

Dos beijos e da boca (pausa) a sua liberdade

É tal que, se as folhas se partem, regressam por si sós

Ao ponto de partida e juntam-se esperando (pausa) são

Pombas somente ligadas por uma fita de vôo (pausa)

Não vês?» (continua)



Começo por esse fragmento de Maria Gabriela Llansol, em O Começo de um Livro é Precioso (Est. 35), não só para marcar aqui um novo começo (neste momento em que já nos preparamos para o dia 3 de Março, ocasião em que se completa um ano do desaparecimento de Maria Gabriela Llansol deste mundo), mas para celebrar uma certa casa.
Nessa casa, situada à Rua Alfredo Costa, n. 3, aqui em Sintra, onde Llansol viveu durante os últimos catorze anos, de 1994 a 2008, funciona hoje o Espaço Llansol, que abriga o espólio da escritora.
Essa casa, que não é exatamente uma biblioteca, nem tão pouco se reduz a um centro de estudos (embora abrigue também esses espaços e essas atividades) é, mais que tudo isso, uma casa onde vivem, ainda hoje, os vivos no meio do vivo: os objetos de Gabriela, que habitavam sua vida e habitam para sempre sua obra, as plantas vindas da Bélgica, onde a escritora viveu e escreveu durante vários anos. Essas plantas, vivas há mais de vinte anos, ainda crescem e florescem, na cozinha da casa, ao lado de paninhos pequenos, onde alguns objetos repousam, e panos maiores, as mantas e os chales que a aqueciam e que hoje nos aquecem, no inverno de Sintra, quando ali estamos a trabalhar. Nessa casa encontram-se sempre os amigos que ali já estavam, antes de sua morte – João Barrento e Maria Etelvina Santos – e, às vezes, outros, já velhos amigos, mas que ali nem sempre podiam estar, como eu, e outros, que ela ainda não conhecia, mas imaginava, como Maria José Boaventura. É também nessa casa que vão chegando, pouco a pouco, os alunos, como Carolina Fenatti, João Rocha, Izabela D´Urso – os mais pequenos --, que já começam a pôr a mão no pensamento, como ela certa vez escreveu, com projetos que incluem digitalização de cadernos, anotações, seleção de livros, organização de papéis.
Esse método, tão próximo do método llansoliano e examinado por Maria Etelvina Santos, em sua tese de doutorado sobre a autora (Como uma Pedra-pássaro que Voa: Llansol e o improvável da leitura. Lisboa: Mariposa Azual, 2008), é inspirado na própria escritora, que entendia a escrita como uma «anotação progressiva da própria vida» (Llansol citada por M. E. Santos, p. 21). Tal método, como bem observa Etelvina Santos, distingue-se da representação e entende a arte como figuração, como uma «extensão da realidade, como o corpo é a extensão da mente» (p. 21). Assim, já se pode dizer que essa arte praticada por Llansol, encontrando-se fora da representação, no mundo da figuração, não se encontra, de maneira alguma, fora da vida e da existência. Trata-se, ao contrário, como bem formulou a escritora, de uma existência-não-real, que visa não exatamente o real factual, mas a realidade do possível, onde as palavras «forçam a pujança a manifestar-se no vivo». (Llansol, «O Espaço Edénico», Na Casa de Julho e Agosto, 2ª ed., p. 157).


Como é possível ler, então, essa outra arte – a de Maria José Boaventura – composta às vezes de outra matéria e de outra substância – já que não se trata propriamente da literatura, mas da arte do desenho, da pintura, do recorte, da colagem, da aquarela –, quando esta se constrói justamente a partir daquela que nega a representação?
Em primeiro lugar, é preciso pensá-la, também, como uma arte fora da representação. E isso, creio, não será muito difícil para aqueles que já acompanham o trabalho de Maria José Boaventura, e mesmo para aqueles que hoje começam a conhecê-lo, aqui nesta casa. Porque haveria de ser justamente numa casa que abriga o espólio de um escritor, como esta, que os desenhos seriam dados a ler. Pois trata-se, como o nome da exposição já o indica, de uma leitura. Mas de uma leitura de anotações, de fragmentos, de sobreimpressões, como propunha Llansol e como Maria José, já há tempos, vem praticando. Pois «ler é nunca chegar ao final de um livro, respeitando-lhe a sequência coercitiva das palavras, e das frases», ler é uma «alma crescendo» (Llansol, Amar um Cão, s.p.).
Para nossa alma crescendo, Maria José Boaventura nos oferece pedaços de escrita sobreimpressos em cores que desenham penas, que ao mesmo tempo são folhas de árvores, que ao mesmo tempo são letras, traços, arabescos, silêncios, jardins abismáticos do pensamento. E tudo é água que escorre – aguadas, aquarelas –, fazendo-nos ler, no silêncio de uma confidência, as palavras de Llansol: «e penetro na minha cena de criança – eu água –, a olhar o texto que assimilo a um vulto repartido por livros, páginas, imagens,/ histórias orais,/ pupila inquieta que vê/ o sofrimento de ler em toda a parte. 'Ainda não sei ler e quero ler', lembro-me.» (Llansol, Inquérito às Quatro Confidências, p. 107).


O sofrimento de ler em toda a parte. Este poderia ser o outro nome desta exposição e desse trabalho que se realiza agora, naquela casa da rua Alfredo Costa em que tudo escreve. Mas esta casa, sabemos, foi por ela mesma, Llansol, certa vez sonhada, em um texto precioso, publicado na revista Colóquio-Letras sob o título de «O sonho de que temos a linguagem». Ali, ao final do texto, podemos ler:

Regresso a casa através da serra em que plantas brilham_________ como não sendo casa numa cidade. Sou aturdida pela presença da vossa escrita, que me acompanha pelas vertentes e pelas ruas. Caminho, e o pensamento caminha a meu lado: «o medo torna os homens densos». Os poetas deixarão de submeter-se à poesia. Quem escreve irá além da mágoa. Os animais, fascinados pela benevolência do buda, sensata e moderadamente, indicam o pacto de bondade que a todos une. Os homens saem da sua identidade. E o texto arrasta-nos para os lugares da linguagem onde seremos seres de fulgor, indeléveis e diáfanos___________ última parede iluminada de uma casa que se apagou, numa das avenidas da cidade serrana onde reina ainda uma profusão amarga de sinais.

(Maria Gabriela Llansol e Vergílio Ferreira, Verão de 1991, e cadernos do espólio)

22.1.09

LLANSOL: A VIAGEM DO TEXTO

Maria Gabriela Llansol continua a ser editada no estrangeiro, desta vez em francês e italiano. Ao cabo de mais de uma década, e depois da publicação em França de Um Falcão no Punho (Gallimard, 1993) e Contos do Mal Errante (Metailié, 1991), é a vez de O Jogo da Liberdade da Alma (seguido de «O espaço edénico», a grande entrevista ao Público, de 1995, na sua versão integral) sair em francês (tradução de Cristina Isabel de Melo) e italiano (tradução de Alessandro Granata), na editora suíça Pagine d'arte, que se propõe editar mais títulos de Llansol. A tradução francesa inaugura nesta editora uma nova colecção («Ciel vague»), e a italiana insere-se numa outra («Sintomi»), onde já figuram nomes como Pascal Quignard, Valerio Adami, Jean Louis Schefer e J. Baudrillard, entre outros.
O lançamento da edição francesa terá lugar no Centro Cultural da Fundação Gulbenkian em Paris, no dia 10 de Fevereiro:

(Clique na imagem para aumentar)

APELO AOS LLANSOLIANOS DE TODO O MUNDO

Estamos a organizar no Espaço Llansol, entre outros sectores do espólio de M. G. Llansol, todo o arquivo de imprensa, nesta primeira fase em suporte físico, que será posteriormente classificado e digitalizado com vista à sua disponibilização online. Trata-se de um projecto parcial importante do nosso trabalho, que porá à disposição de investigadores, leitores e interessados tudo o que foi publicado por Llansol em jornais e revistas e ainda tudo o que sobre a sua Obra se escreveu (à excepção de publicações em livro). Cada artigo será arquivado em papel em pasta própria, e ficará também disponível para consulta no arquivo de imprensa da sede do Espaço Llansol em Sintra.

Para podermos levar a bom termo esta tarefa, pedimos a todos os leitores deste blogue que nos enviem, por via electrónica ou correio, artigos de que disponham, em original, cópia, formato PDF ou outro, com todas as indicações bibliográficas, para irmos progressivamente chegando a uma bibliografia exaustiva que a todos será útil.
(Endereço postal do Espaço Llansol:
Rua Dr. Alfredo Costa, 3-1º F – 2710-524 SINTRA - PORTUGAL)


4.1.09

Continuamos a fornecer informação sobre artigos e outros textos publicados em linha, sobre a Obra e o universo llansolianos. Hoje, as reflexões de Maria Etelvina Santos em Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura (editado em Novembro passado pela Mariposa Azual),


transcritas no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura sob o título «Escrever é o duplo de viver».
Pode lê-las em

11.12.08

LLANSOL: A LUZ DE LER #2


«Passar da fase de estar consciente à de escrever requer um papel sempre à mão, e uma interrupção voluntária da vida quotidiana...»

«... só sinto consolação no acto de escrever – o fio de luz por onde me escapo às linhas tecidas sobre mim...»

«A estas partes ligadas, sempre em deslocação, chamo a escrita...»

(Maria Gabriela Llansol, Um Falcão no Punho [1985])



(No vídeo, João Barrento lê fragmentos do Caderno 43 do espólio, Setembro-Outubro de 1995. A música de fundo é o andante com moto das «Seis Bagatelas», op. 126, de Beethoven, interpretado no pianoforte por Jos van Immerseel).

8.12.08

LLANSOL: A LUZ DE LER #1


«Será por termos aprendido a ler através de romances que acabamos por dar a primazia à leitura sob o signo do contínuo?», pergunta José Afonso Furtado no livro O Papel e o Pixel. Do impresso ao digital: continuidades e transformações (S. Paulo, Escritório do Livro, 2006). A questão é de extrema pertinência para os livros de M. G. Llansol, e por maioria de razões também para os fragmentos que enchem as mais de dezassete mil páginas dos primeiros cadernos do espólio, que acabámos de digitalizar. Não apenas no que se refere às novas formas de leitura descontínua, mas «orgânica», que este Texto desde sempre veio propor (o problema é tratado à exaustão no livro recentemente publicado de Maria Etelvina Santos Como uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura, Lisboa, Mariposa Azual). Trata-se também de reconhecer a necessidade de encontrar modos diversos de fazer chegar esta escrita a leitores-ouvintes que, através de uma nova porta de entrada, poderão chegar aos livros, os que estão aí e os que hão-de vir, para entender melhor o que significa escrever com «palavras que anunciam a realidade», em vez de redundantemente a dizerem, por que razão «nesta ordem de ler, ler é nunca chegar ao fim de um livro» e como «uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo».
O digital e, nele, a leitura em voz alta enquadrada e acompanhada por elementos visuais e musicais, permitem criar facilmente ambientes propícios à fruição mais plena deste Texto. Chega-se mais naturalmente a "cenas fulgor audíveis" (Da Sebe ao Ser, 62), percebe-se eventualmente melhor que «ler é trazer a si, mas não cenas e imaginação. Trazer o real de outra vida que nos chame humanos.» («O pensamento de algumas imagens», A Restante Vida, 2ª ed., Relógio d'Água, 2002, 113). Na oralidade, a voz empresta um corpo ao texto, que ganha uma dimensão acrescida de materialidade sensível, e transforma a audição num momento particularmente vivo da «arte de alargar o mundo» que é toda a escrita de Llansol.
O vídeo que se segue é o primeiro de uma série em que iremos dando a conhecer pequenos fragmentos dos cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol, lidos por membros do Espaço Llansol, antes da sua edição em livro.


26.11.08

LLANSOL ENTRE NÓS

Ainda algumas imagens da sessão de 24 de Novembro, que podem ver-se aqui:
(Fotos: Engº Fernando Santos, Sector Zero)