16.11.08

UM LUGAR E UM LEGADO

M. G. Llansol, Casa Fernando Pessoa, 1994

Maria Gabriela Llansol partiu e continua entre nós. No lugar que foi sua morada em Sintra, na Obra editada e agora sobretudo nos muitos cadernos, textos, objectos que nos legou e que, no dia a dia do nosso trabalho, enchem esse lugar da sua presença.
No próximo dia 24, o do seu aniversário, iremos evocar a sua figura humana e a sua dimensão literária numa sessão na Biblioteca Municipal de Sintra – a nossa primeira actividade ao abrigo do protocolo assinado com a Câmara Municipal –, durante a qual leremos textos dos seus cadernos inéditos, mostraremos em pormenor o que é hoje o Espaço Llansol e faremos uma viagem virtual pelos principais núcleos do imenso espólio que herdámos.

Llansol na Bélgica, anos 70


(Clique na imagem para ler o programa da sessão)

Ao mesmo tempo serão apresentados os dois primeiros títulos de uma nova colecção da renascida editora Mariposa Azual («Rio da Escrita»): uma recolha dos principais escritos llansolianos de João Barrento e um ensaio sobre «o improvável da leitura» em Llansol, de Maria Etelvina Santos.



(Clique nos índices para aumentar)

Contamos, para esta sessão, com a participação dos escritores Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, e ainda de Helena Vieira, a editora da Mariposa Azual.

6.11.08

FRAGMENTOS INÉDITOS DE LLANSOL NA »MEALIBRA»


A revista Mealibra, publicada pelo Centro Cultural do Alto Minho sob a direcção de Fernando Canedo, abre o seu número 22 (Outono 2008) com três fragmentos inéditos dos Cadernos de Maria Gabriela Llansol, introduzidos por um texto de João Barrento com o título «O lugar das estrelas múltiplas».


Nos fragmentos de Llansol, extraídos de cadernos manuscritos de 1995 e 1998, pode ler-se:
«Eu olhava por olhar, quero dizer – intensamente.»
«O que sulca o ar é o desconhecido, privado do poder de fazer mal.»
«Estou atenta às mutações da luz _________ como se fossem pérolas. Abriu, desce, muda, nunca se oculta mudando de lugar, pois sigo a sua trajectória de planta a planta. Cada planta está aqui no seu lugar exacto, na sua flor exacta – e bebe água exactamente.»
«______ esse mundo alinhado que está por detrás da beleza – perturba-me infinitamente...»
«Uma mão escrevendo é como a árvore dourada que vimos ontem à beira da estrada...»
«Decorrido o fluxo da noite – e já amanhece – sinto com a mão a madressilva que plantei junto ao muro exterior da casa, e que mil vezes há-de morrer sem que, de facto, morra, enquanto estas páginas forem vivas...»
«O meu corpo conflui de lugares longínquos...»

2.11.08

CANTAR O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA

A actriz Mafalda Saloio, membro do Espaço Llansol e voz do texto de Maria Gabriela Llansol em alguns dos nossos encontros – nomeadamente no Colóquio da Arrábida em 2003 e no lançamento de Os Cantores de Leitura em 2008 – irá orientar, durante o mês de Novembro, um workshop de improvisção de canto em Belo Horizonte, no Brasil, tomando como base de trabalho o livro de Llansol O Jogo da Liberdade da Alma.


A Mafalda, que conheceu a Maria Gabriela em 1996, ainda estudante, lembra os encontros entre as duas como momentos em que «atravessámos paisagens, entre conversas, roteiros gastronómicos e emotivos, na contemplação de rio e mar, terra e céu», e que propiciaram o nascimento de uma grande amizade. «Neste rasgar de paisagens acontecia por vezes o canto, trauteávemos e improvisávamos canções, com palavras inventadas no momento, ou sonoridades, como se o som, que acompanhava a viagem, a tornasse ainda mais emotiva.»

(Foto de Maria Etelvina Santos: o xaile de luz na parede da casa de Sintra)

Agora, na Universidade Federal de Minas Gerais, o workshop criará, segundo diz o programa da Mafalda, «espaços de criatividade, improviso e composição musical, explorando a musicalidade das palavras, percorrendo os caminhos do canto sonoro ao canto do texto, cruzando esses cantos através de solos, duetos e coros e explorando essa leitura cantada deixando o texto atravessar o corpo.»

15.10.08

Sob esta rubrica dar-lhe-emos de futuro a possibilidade de aceder a artigos e outros textos em linha sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol, que poderá descarregar ou imprimir. Antigos e recentes, ensaios e recensões, comunicações e leituras de aspectos particulares do texto de Llansol.
Para começar, os seguintes:

Maria Etelvina Santos
Site da Assírio & Alvim
http://www.assirio.com/autor.php?i=M&id=3061

Pedro Eiras
Recensão de Os Cantores de Leitura, in: Colóquio-Letras
http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/news?i=31

António Guerreiro
M. G. Llansol: A imperdoável (Expresso, 8.3.08)
http://www.agencia.ecclesia.pt/ecclesiaout/snpcultura/impressao_digital_maria_gabriela_llansol.html

Ricardo Gil Soeiro
Amanhecendo com Maria Gabriela Llansol (Revista Autor)
http://www.revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=215&Itemid=38

Maria João Cantinho
Imagem e tempo na obra de M. G. Llansol, Revista Especulo (Madrid)
http://www.ucm.es/info/especulo/numero26/llansol.html

Nilson Oliveira
M. G. LLansol: a escrita como vontade
http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id_usuario=63

Fernando Pinto do Amaral
A escrita fulgurante de M. G. Llansol (Colóquio/Letras)
http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=132&p=196&o=p

Luís Maffei
Llansolmúsica
Revista Escrita (PUC, Rio de Janeiro), 2005-06, secção «Ensaios»
http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/cgi-bin/db2www/PRG_1065.D2W/input?CdLinPrg=pt

Eloísa Porto Corrêa (UERJ)
Um beijo dado mais tarde.
(Re)lendo e (re)escrevendo o mundo
http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno04-15.html

P(aulo) C(arvalho)
Finais-felizes,3
http://www.lacoctelera.com/artedoperigo

Matilde Gonçalves
Perspectivas linguístico-textuais da escrita fragmentária na literatura portuguesa contemporânea
http://www.clunl.edu.pt/resources/docs/Grupos/Gramatica/equipa/matildegoncalves/matildeji_1.pdf

Erick Gontijo Costa
Escrever, dosar o amor
http://www.abralic.org.br/enc2007/anais/42/1171.pdf

Pedro Mexia
Sobre Finita
http://dn.sapo.pt/2005/08/12/artes/um_texto_como_tecido.html

Patrícia Riberto Lopes
O caminho e a pedra
http://www.revistaipotesi.ufjf.br/volumes/5/cap11.pdf

Tatiana Salem Levy
Deslize na linguagem
http://www.polichinello2004.blogger.com.br/2006_05_01_archive.html

Maria de Lourdes Soares
Perfil
http://www.editonweb.com/noticias/Noticias.aspx?did=54&type=pas

Maria de Lourdes Soares
Lídia Jorge e Llansol: Casas de escrita
http://64.233.183.104/search?q=cache:Aa_LSH-jOkEJ:www.letras.ufrj.br/ciencialit/encontro/Maria%2520de%2520Lourdes%2520Soares.doc+Maria+Gabriela+Llansol&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=63&gl=pt

Maria de Lourdes Soares
Página de informação bibliográfica
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4767333U6

11.10.08

SINTRA DISTINGUE MARIA GABRIELA LLANSOL

No acto de assinatura do protocolo entre o Espaço LLansol e a Câmara Municipal de Sintra, realizado ontem (dia em que esta Associação assinala dois anos de existência), foi atribuída a Maria Gabriela Llansol, a título póstumo, a Medalha Municipal (1º grau, ouro), entregue ao presidente da Direcção pelo Vereador da Cultura, Dr. Luís Patrício.


A decisão, tomada já em reunião camarária de 9 de Abril passado, constituiu uma agradável surpresa para todos os presentes. Na ocasião, o presidente da Direcção do Espaço LLansol agradeceu o apoio concedido pelo município de Sintra, e evocou, através de dois excertos dos Cadernos inéditos, Maria Gabriela Llansol, a sua ligação à casa onde agora trabalhamos e ao espaço envolvente, e o seu desejo de que este Lugar não cristalizasse sob a forma de um «museu», mas se «audaciasse» em pensamento:

A CASA DA ESCRITA E A ESTANTE DAS ÁRVORES

Este momento, a que o Sr. Presidente Fernando Seara em boa hora quis dar um cunho simbólico, é hora de agradecimento e de evocação. De agradecimento ao Presidente e à Vereação desta Câmara, que souberam compreender a importância da manutenção em Sintra, e na casa que foi a última de Maria Gabriela Llansol, do imenso legado que a escritora nos deixou. E souberam compreendê-la com uma hoje cada vez mais rara consciência dos valores culturais e com uma intuição que Llansol – pouco dada a namoros com os poderes, como sabemos – certamente teria apreciado e sabido reconhecer.
Quando se conhece a Obra e o modo de estar no mundo e de o amplificar de uma escritora tão singular e tão comum como Maria Gabriela Llansol, percebe-se melhor como tudo nela convergia para um centro e para uma periferia (próxima desse centro), focos vitais da sua vida e da sua escrita nos últimos anos, e como o seu olhar e a sua palavra conferiam dimensões universais a esse microuniverso: o centro é esta casa de Sintra, onde agora continuaremos a manter viva, a habitar e a divulgar a sua Obra; a periferia é a envolvência mais próxima, particularmente este Largo da Câmara Velha (onde por nós esperava quando o grupo se reunia em Colares, naquela que baptizou de «Casa da Saudação», sentada ali fora nos degraus da coluna com a esfera armilar, a olhar o Parque da Liberdade e o Castelo dos Mouros, ou inventando sabe-se lá que viagens para o seu texto, sempre de caderno no regaço); e essa periferia do mundo prolongava-se depois pela Volta do Duche, a serpentina verde debruada de grandes árvores por onde tantas vezes ia à Vila Velha, e que lhe oferecia matéria de escrita, de que adiante darei testemunho.

A casa e a Câmara Velha (foto J.B.)

A Volta do Duche no Outono (foto de Augusto Joaquim)

Casa e árvores são, desde os primeiros livros, dois motivos centrais na Obra de Llansol, e duas referências maiores, quer dos livros, quer dos cadernos inéditos, que continuou a escrever desde que, em finais de 1984, se fixou no concelho de Sintra. É deles que, pela voz da escritora, vos quero dar neste momento um breve testemunho, com fragmentos retirados dos cadernos do espólio referentes aos primeiros meses na vila de Sintra, com ligação directa a esta casa da antiga Estalagem da Raposa, que o Município generosamente nos permite manter como lugar de tratamento da herança de Llansol, e à Volta do Duche, que viu nascer, a partir de uma das suas árvores mais majestosas – a que a Maria Gabriela chamou o Grande Maior – um livro-chave do seu percurso, Parasceve. Puzzles e ironias, aquele em que definitivamente se opera a viragem da grande História humana ou da pequena história familiar para o que ela designava de «ordem figural do quotidiano» de uma «geração sem nome».

O Grande Maior, a «cidade-árvore» de Parasceve (foto J.B.)

Nessa ordem, que é afinal a do dia-a-dia de cada um de nós, viveu também ela, entre «casas de escrita» – em Lisboa, Lovaina, Jodoigne, Herbais, Colares, Sintra – cujo futuro, que é este nosso presente, Llansol não desejava que fosse a de mero museu, e aquilo a que chama num dos Cadernos os «Estudos Gerais das Árvores», uma das escolas da grande comunidade dos Vivos com que dialogava e que colocava à altura da do humano.
Permitam-me então que, neste espírito, vos leia dois pequenos excertos dos seus Cadernos, indelevelmente ligados a esta casa e a esta terra, e escritos poucos meses depois da mudança para a Estalagem da Raposa, onde no dia 3 de Março se despediu de nós. E peço-vos, caro Dr. Luís Patrício, amigos, que os entendam como sinal de gratidão, por interposta voz, da própria escritora cuja Obra a vossa decisão ajuda a perpetuar com o gesto de assinatura deste protocolo.

1.


Vila de Sintra
29 Janeiro 1995

A estante das árvores olha para mim. Estou sentada na Volta do Duche, próximo do monumento a Gregório Rafael Silva d'Almeida _____ foi o Amigo Maior e mais desinteressado dos pobres — diz o livro em que uma mulher ensina a ler.
Procuro não ver os automóveis — somente a estante das árvores, que coincide com o bosque dos livros. Que deleitosa serenidade em ser mais velha, e poder tratar com bondade e disciplina as emoções [!].

Tenho sempre um encontro aos domingos de manhã. Esse encontro não foi possível realizar hoje,

fiquei igualmente feliz com a fonte, o verde geral das árvores, o caminho.

Fui aos Estudos Gerais das Árvores, e encontrei o todo resplandecente em cada uma delas,

nem lhes propus que mudassem de lugar

porque elas não quereriam. Preferem que o pensamento venha a elas — o pensamento filosófico — nesse instante ——— porque é esse o olhar com que as olho. Transmito-lhes o que penso, o que sei, o que li, ofereço-lhes a minha Casa — a minha casa de Sintra muito se parece com a de Herbais.

Uma única diferença [:]

não é a memória, o corte vertical no tempo, que a faz resplender _______ ela já resplende aqui _____ será um lugar para ser habitado para sempre pela alegria que sinto hoje _____ a alegria do mundo

com que me introduzi neste texto.


(do Caderno 41, 1995)


2.


arrumo bem a estante do meu quarto________ e recebo a energia dos livros que estão nela__________
Gostaria de ter uma casa imensa_______ para expor meus pensamentos e objectos_______ o meu olhar sobre a realidade que se transforma: este é o meu quarto de Sintra, o meu quarto velado à luz da vela ________ e hoje arrumei melhor a estante dos livros_______ e parti dela.

Olho e volto a olhar, consigo um olhar novo – o sentido dos livros vivos desperta em mim a partir da estante. Trabalhasse eu mil horas por dia, e reteria sempre mais trabalho _______ deve ser de haver múltiplos seres em mim com o desejo de continuar-me e acabar-me...
________ abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos. As casas estavam gastas por nascerem sempre umas dentro das outras como crianças surdas. A Casa da Saudação estava mais além, na fímbria do bosque, fora deste jogo exemplar de casas dentro de casas, olhos dentro de olhos olhando sempre para o mesmo lugar desabitado.
[...]

A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte _______

(Do Caderno 43, 1995)

Também nós faremos tudo o que pudermos e soubermos para corresponder a este apelo e ao generoso apoio da C. M. de Sintra, através das actividades que desenvolveremos no concelho com vista a manter vivo o nome de Maria Gabriela Llansol e o espírito da sua Obra.
Muito obrigado, Dr. Luís Patrício.
Obrigado a quantos nos quiseram acompanhar neste dia simbólico em que se completam exactamente dois anos sobre o registo de baptismo do Espaço Llansol. E agora convidamos todos os que o desejem a visitar a nossa «casa de escrita» e de trabalho, aqui mesmo ao lado.

7.10.08

PROTOCOLO ENTRE O ESPAÇO LLANSOL
E A CÂMARA MUNICIPAL DE SINTRA

(Clique na imagem para aumentar)

29.9.08

JADE – CADERNOS LLANSOLIANOS

Durante os últimos anos, antes da constituição do Espaço Llansol, o então denominado GELL-Grupo de Estudos Llansolianos foi editando numa série de cadernos («Jade-Cadernos Llansolianos») os resultados da reflexão e da discussão produzidas no Grupo em torno da Obra de Maria Gabriela Llansol. Desse trabalho resultou um total de 13 cadernos, quase todos ainda disponíveis, e que poderão ser encomendados através do nosso e-mail ou por correio. A lista dos disponíveis está aqui ao lado, na barra lateral, e as capas são estas (clique na imagem para aumentar):


A partir de agora, os trabalhos produzidos por membros do Espaço Llansol, e outras edições relacionadas com a Obra de Llansol, serão editados pela Mariposa Azual, em estreita colaboração com a nossa Associação. A Obra inédita de Maria Gabriela, derivada dos cadernos manuscritos e outros materiais do espólio, sairá naquela que já era a última editora das suas obras em vida, a Assírio & Alvim, a partir de 2009.

26.9.08

A RESTANTE VIDA, LA VIDA RESTANTE, TRILOGIA E GEOGRAFIA...


O Espaço Llansol – neste caso eu – errou! Obrigado à Ana Maria Pereirinha e ao blog Frenesi por terem assinalado o dislate!
É claro que a primeira trilogia de M. G. Llansol se chama «Geografia de Rebeldes», é claro que o título do livro que em Espanha se chama La Vida Restante é em português A Restante Vida. Quanto à «Trilogia de Rebeldes», fui levado, sabe-se lá por que perversidades do inconsciente, pela indicação da segunda badana da edição espanhola, onde se apresenta a «Trilogía Geografía de Rebeldes».
Mea culpa!

João Barrento

24.9.08

A RESTANTE VIDA SAI EM ESPANHA


Acaba de sair a tradução castelhana do segundo volume da Trilogia «Geografia de Rebeldes». A edição – que se segue a El Libro de las Comunidades, publicado em 2005 em Madrid – aparece desta vez na colecção de ficção da editora Cultiva Comunicación, também de Madrid.


A tradução deve-se à dedicação ímpar de Mario e Mercedes Atalaire na divulgação da Obra de Maria Gabriela Llansol em Espanha. Numa entrega que é uma verdadeira «causa amante», os Atalaire ocupam-se há anos, com empenho e saber, da tradução, da edição, da apresentação dos livros de Llansol em Espanha. Seguir-se-á o terceiro volume da primeira trilogia, Na Casa de Julho e Agosto, e está já traduzida parte da segunda trilogia, «O Litoral do Mundo».
A badana deste volume faz uma excelente síntese de «Geografia de Rebeldes», uma leitura única dos destinos da Europa (e da Ibéria) à sombra da grande figura tutelar de Ana de Peñalosa, a grande mãe dos rebeldes e iconoclastas, figuras «de rara presença», de que se alimentam estes primeiros livros.

(Clique na imagem para ler)

E em breve virão outras edições de textos éditos e inéditos, em revistas e em livro, em Portugal, Espanha, França, Suíça e Itália, confirmando, depois da morte, o que Llansol deixou escrito em vida: que o texto é «um lugar que viaja».

20.9.08

MELISSA MODERNA – E DE SEMPRE

No exílio da Bélgica, em Jodoigne e Herbais, Maria Gabriela Llansol tinha muitos gatos.


Em Sintra, nos últimos anos, era só Melissa, a gata de pêlo macio e farto, branco-e-amarelo, olhar doce, que a Maria Gabriela sempre viu e tratou como ser inteligente e superior. Nunca se aproximou muito do comum dos mortais, quero dizer, daqueles que, a partir de um certo momento, visitavam a casa e acompanhavam a Maria Gabriela. O primeiro dia – melhor, noite – em que senti que Melissa me aceitou e falou foi na noite em que Augusto Joaquim nos morreu. Nos morreu é a expressão certa, porque o Augusto já era nosso havia algum tempo, e porque, literalmente, nos morreu ali, na cama nova que eu montara, serenamente, sem dramas – a mim, à Maria Gabriela, à Vina e à gata. Melissa, que até aí disparava como uma seta pelo corredor fora assim que entrávamos, para se refugiar na cozinha ou mesmo no telhado, nessa noite chegou-se, mansa, e deixou que lhe tocasse pela primeira vez.

(Se as quiser ver melhor, clique na imagem)

Mas só se tornaria verdadeiramente sociável na fase de doença da Maria Gabriela, e sobretudo nos meses que se seguiram à sua passagem, quando nos esgotávamos a desarrumar- arrumar-desarrumar a casa e nos espantávamos com a descoberta progressiva do espólio. Aí, Melissa rondava, olhava, falava, conversava mesmo, oferecia-se, exigia atenção. Que de todos recebia, até mais do que quando estava sozinha com a dona. Agora vive em feliz relação de facto com Emily Duncan, pequena dama arisca, vestida de preto-e-branco, e que já deve ter aprendido com a mais circunspecta Melissa alguma sabedoria de vida.
Um destes dias, Melissa e Emily D. receberam visitas, três de uma vez, no seu novo domicílio de Janas. Todos pequenos, todos curiosos, todos atenção.


E um deles, o Leonardo, de 3 anos, sem que ninguém lho pedisse, pediu lápis de cor e deixou no papel um redemoinho, formas dinâmicas e cores justas, o olhar de Melissa, o corpo-novelo de Melissa, o registo pictórico intuitivo e centrifugado de Melissa, a evocar a escrita das essências e o movimento do olhar que transforma imagens reais em figuras potenciadas e vibráteis nos textos de Llansol. Chamou-lhe simplesmente «Melissa», e o resultado foi este:


Uma Melissa «moderna» — estatuto que Llansol não reclamava para si, mas que um dia descobriu que se ajustava a Melissa, e fixou-o nesta «estância» de O Começo de Um Livro é Precioso (Assírio & Alvim, 2003):

59
Os olhos que se lhe abrem de manhã saem

Rapidamente para o telhado e para os sons

Que, imagino, escuta pela abertura das pupilas.

Os extremos da rua, onde nunca foi, dizem-lhe,

Todavia, que alguém passa para ela, Melissa,

Não para mim, para ela, com o som cadenciado

Dos sinos actuais, já modernos. E tropeço.

Moderno é um termo que me intriga, que briga

Comigo, que não se torna compreensível,

Nem no limiar dos sinos. Tomo-o por uma

Abstracção indecisa, um prazo que trai um

Evento futuro sem, contudo, o espelhar. Em suma,

Pouco se distingue das extremidades da rua

Onde nunca foi. É uma palavra irresponsável,

Sem resposta para o antes, o decurso e o depois.

E, quando assim concluo, Melissa é moderna,

Actualiza, obriga-me a descer à rua inquirir

De visu o que, desde então, se alterou.


J.B.