15.9.08

EM CHEIO!
A dívida de Eduardo Lourenço


Na entrevista que deu à revista LER-Livros e Leitores, publicada no último número (Setembro 2008), Eduardo Lourenço refere-se à Obra de Maria Gabriela Llansol como aquela em relação à qual sente que tem uma grande dívida a saldar, por não ter escrito mais demoradamente sobre ela. Com a clarividência e a acuidade que lhe conhecemos, o ensaísta acerta em cheio ao reconhecer o lugar ímpar ocupado por esta Obra no século XX pós-pessoano, considerando-a, por paralelo com a do próprio Pessoa, «o próximo grande mito literário português». Lapidar e fulgurante, também ele, ao assinalar nestes termos o lugar de Llansol na literatura portuguesa do últimno século. Até mesmo quando, de forma apenas mais estranha para quem o não saiba ler, fala da «seita» de admiradores, e desta Obra como «desagradável». O que se esconde por detrás de tais termos, e o conjunto do depoimento de Eduardo Lourenço confirma, é que estamos perante uma Obra que se pode dizer, em duplo sentido, «de eleição»: são poucos os que a escolheram e escolhem (o que pode ser ilusório, neste momento em que nos chegam com frequência notícias de novos entusiastas), acabando inevitavelmente por ser escolhidos por ela; e perante uma forma de escrita que nunca abdicou dos princípios que um dia, ao ver-se «sem normas» no panorama que a rodeava, para si mesma traçou, à margem do conforto a-problemático da tradição realista, do nosso sentimentalismo lírico de sempre e também de alguma dureza, toda mental, da herança modernista. Um dos mais arriscados – mas também mais desafiantes e gratificantes – desses princípios, para aquele tipo de leitor que este Texto criou, e a que chamou «legente», é o do «pacto de inconforto» (de «des-agrado», diz Eduardo Lourenço) que a Obra de Llansol pressupõe. Um pacto que não é súbito, que exige persistência e que acaba por se transformar em fonte de prazer e descoberta constante. O «mistério» deste encontro e desta entrega, explica-o a própria autora em Lisboaleipzig - O encontro inesperado do diverso: «se o coração persiste em ler, é porque há nele um fulgor estético que ilumina o próximo passo, e o faz apoiar no detalhe justo e irrecusável.» É também isto o que quer dizer Eduardo Lourenço quando conclui: «Quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita.»
Reproduzimos a seguir as passagens sobre Llansol na grande entrevista de Eduardo Lourenço à LER.

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24.7.08

NOVO ANO, NOVA CASA

Esta página faz hoje um ano, exactamente no momento em que, ao cabo de quatro meses de trabalhos de toda a ordem, concluímos a remodelação da nova sede do Espaço Llansol em Sintra, que manteremos com o generoso apoio da Câmara Municipal.
Por enquanto, esta página continuará a ser a nossa janela para o mundo, meio de informação sobre todas as nossas actividades e iniciativas, e espaço de publicação, quer de textos inéditos de Maria Gabriela Llansol, quer de contributos que iluminem o seu universo.
Para assinalar a data e fazer a festa, abrimo-vos as portas da nova/nossa/vossa casa, e convidamo-vos a entrar.

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Esta casa, como as outras que acolheram Maria Gabriela Llansol desde pequena – na Rua Domingos Sequeira em Lisboa, em Alpedrinha, em Lovaina, em Jodoigne, em Herbais, em Colares – foi sobretudo uma casa de escrita. Agora passará a ser o lugar que tornará a escrita, os documentos, as imagens e os objectos que nos foram legados coisa viva e disponível, num processo que já começou e se prolongará por alguns anos. O espírito que nos anima é aquele que a Maria Gabriela deixou expresso em muitas páginas dos seus livros, e também dos Cadernos inéditos que estamos a tratar. Páginas como estas:

Mas uma casa sem ninguém é como um terreno sem cultura.
(
Contos do Mal Errante)

— Podeis utilizar esta casa — disse a Ibn’ Arabi —
como mundo aberto. Eu sentia-a em vias de dirigir-se para os seus fins, ou de retroceder às suas origens.

... quando tudo por
mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.
(
Finita)

Esta casa, nos meus olhos que recolhem o último detalhe com a consciência do primeiro momento mais além, fez-se sempre de uma totalidade, e muitíssimas parcelas; a totalidade era a luz, caminho envolvente quando eu descansava aqui; essa luz tinha uma individualidade física tão doce que eu não sentia nenhuma distância entre mim e o que a escrita louvava...
(
O Raio sobre o Lápis)

Na casa enorme,

O simultâneo cria sempre mais espaço...

(
O Começo de um Livro é Precioso)

Esta moradia de leitura foi edificada sobre a Casa da Saudação. Os tempos sucedem-se aos tempos, o tempo alimenta-se dos tempos..
.
(Os Cantores de Leitura)

Estou bem onde escrevi; estou melhor onde hei-de escrever; o presente é este movimento que se dirige para duas portas opostas e as abre, de escuro a claro, para o mesmo lugar onde já se acende a centelha que ondulará, finalmente, à mais ligeira aragem.

(Caderno 22, Praia Grande, 29 Julho 1986)


________
abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos.
A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte
_______
(Caderno 43, 1995)

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Destes excertos quero reter hoje o último, neste momento em que a Casa está pronta para acolher a preparação de tudo o que possa gerar movimento em torno do texto, o trabalho no espólio e todos aqueles que se interessam ou venham a interessar-se pela Obra de Llansol, a passada e a futura. Este Espaço nunca será um museu, apesar de termos mantido viva numa parte dele a atmosfera de vida e de escrita de Maria Gabriela Llansol. Esta Casa quer, acima de tudo, continuar a ser um pensamento, um projecto vivo, «audaciar-se» em novos voos a partir do Texto de Llansol.

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Como o daquele pássaro jovem que, há dias, quando nos ocupávamos dos retoques finais, me surpreendeu, dentro da casa, com o seu voo rasante e aparentemente sem norte. Mas nesse momento, sem que ele o soubesse, achei que o seu norte (que acabou por reencontrar, no ar de onde viera) era a nossa bússola. Eram 10 horas da manhã, e por isso o baptizei de «Falcão matutino». Constatei, ao tê-lo por algum tempo no punho, que não era falcão, muito menos o falcão peregrino que povoa alguns textos de Maria Gabriela Llansol, nomeadamente Lisboaleipzig, associado à Figura de Aossê/Pessoa. Ainda assim, mantenho o nome, e deixo aqui o registo desse incidente prodigioso e do seu rasto, agora que o Falcão que nos veio anunciar a continuidade do espírito da mutação já voa novamente, livre, nos céus de Sintra:


O «Falcão matutino» no punho

«Foi como uma seta despedida sobre a minha cabeça – a «consciência azul» da sala em devir –, para parar na ilusória transparência da janela. Deixou-se cair e ficou no chão, atrás do pote de porcelana azul e branco, à espera da minha mão, os olhos ainda semicerrados, ou abertos de medo e súplica, o antracite das penas brilhando, as garras casadas com a carne dos meus dedos, sem querer separar-se. Acolheu-o um punho que nunca conhecera falcão, e que subitamente passou a ser, por instantes, poiso e casa desta ave vinda não se sabe de que ovo, iluminando a sala para nela deixar o sinal, a certeza de que este lugar será de pensamento e criação e mutação. E voltou a partir para o azul de onde viera.
Que destino me ligava, nos ligava, a esta aparição acidental, marcada para o encontro inesperado? Que poderes a trouxeram, ave jovem em crescimento, a este lugar em transformação, a esta Casa crescendo?
Não há sentido para os sinais. O seu é apenas o do caminho que mostram.»

Dois dias antes dera num dos Cadernos do espólio com uma série de dezasseis cartas a Ana sobre «O sonho de ler ou de estar voando»:

1ª carta
Se o azul pertence ao céu, pertencia também à consciência azul de que ia voltar a ver voar a ave: escreveu-me Ana no instante em que se fechou no sonho de ler, ou de estar voando.

[...]
8ª carta
lerás quem é «a consciência azul».


9ª carta

Leste que a consciência azul é o falcão peregrino


10ª carta

… a prumo na tua mão. Que treme, por ser [uma] outra ave, que hei-de lançar no seu voo.
[...]
(Caderno 28, 1988)

J. B.


DOS LEGENTES


O TEMPO SOB A FORMA DE LUGAR

— São 365 dias, Gabriela, mas tu ensinaste-nos o tempo da simultaneidade.

Não posso ter a veleidade de imaginar o texto que a Maria Gabriela faria sair hoje do seu punho, para incluirmos aqui neste espaço, como marca da passagem destes dias ou ano, ou mesmo se acharia relevante registar esse acontecimento. Talvez nos dissesse que o importante era continuarmos a nossa presença aqui ou noutro lugar, desde que mantivessemos o diálogo e o fizessemos crescer e irradiar, com prudência mas decididamente. Sem concessões, mas como dádiva. Como troca verdadeira. Face ao tempo cronológico, penso que teria o desejo de evocar de novo o tempo da simultaneidade, o que permitiu o encontro de Bach e Aossê, o da aliança dos semelhantes, o que emerge de todo o contrato de mútua não-anulação. Provavelmente (quase adivinho o seu ar sereno de mulher de muitos anos, como já gostava de se ver), diria que o mais importante é que há muito, muito ainda para fazer até que à liberdade de consciência se venha juntar o dom poético, e que para isso não podemos pensar só no tempo de uma vida.
É assim que penso hoje quando penso em ti, Maria Gabriela, e no teu Texto. Nos milhares de páginas que nos deixaste nas mãos, para tomar conta e trazer à luz — «até que as letras brilhem». É por isso que, pensando no tempo cronológico de um ano de blog, o vejo como um ínfimo, e sinto vontade de convidar os que nos lêem a revisitar esse outro tempo da simultaneidade, e a olhá-lo sobreimpresso no novo Lugar que temos vindo a construir, lugar para o qual já não terias corpo físico, mas que nos deixaste antever n' Os Cantores de Leitura — seja a casa última da Reconstituição ou a primeira do Pinhal, ou agora a sem-nome, será a Casa, e dela aqui deixo uma imagem de leitura.


Maria Etelvina Santos



No primeiro aniversário do blogue Espaço Llansol, eu gostaria de pegar num dos textos da Maria Gabriela que mais gosto me dá a ler, e que é O Jogo da Liberdade da Alma. Porque creio que este blogue tem conseguido, além de toda a informação e atenção que dá ao que vai surgindo e acontecendo à volta do nome e da Obra de Maria Gabriela Llansol, acarinhar o Texto llansoliano, tal como este foi sendo moldado e reflectido pela Maria Gabriela.

O carvalho milenar de Mourilhe

Neste livro, sob o signo de Spinoza, vemos a expressão do desejo de textualizar como tornar o amor infinito (p.9), para além (diria Nietzsche) das fronteiras do visível e perecível, e à medida que vamos lendo, vamos encontrando um pensamento que se tece sobre a relação entre escrita e música, norteada pela mútua afecção de que os corpos são capazes (Spinoza), na construção humilde e desprendida, da noção de texto infinito e amante:

_____________ aprendi com a linguagem de Hallâj […]

que o invisível, quando se sensualiza, abre à linguagem caminhos que o narrativo obliterou com a tampa do piano, os muros baixos do real, as ténues paredes da vida

que, chegado a esse ponto, o por escrever tem uma visibilidade sem fim que, por isso, a nova linguagem é fácil, e se reproduz por si mesma, contendo em si o próprio princípio de existir

que é querer continuar a viver sem que o grau da vida degenere, […]
que o caderno não é o escrevente do texto
mas o lugar onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre.

No entanto, o texto é livre, e anterior a si mesmo, e posterior a si mesmo_______
a substância narrando-se,
diria Spinoza.
(JLA, pp. 11-12)

Cristiana Vasconcelos Rodrigues

8.7.08


LLANSOL EM FRANCÊS

A revista francesa online Poezibao – Le journal permanent de la poésie acaba de editar, com data de 7 de Julho, excertos de Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, juntamente com informação biográfica e bibliográfica sobre Maria Gabriela Llansol. A iniciativa e a tradução dos textos foi de Cristina Isabel de Melo, artista plástica e tradutora de Llansol.



A esta seguir-se-ão em breve uma série de outras publicações de inéditos dos Cadernos e textos sobre Llansol em revistas de Portugal (Mealibra, Índice e Foro das Letras), Espanha (Serta), Brasil (Polichinello) e Itália (Libretto). Neste momento estão ainda no prelo, ou em tradução para francês (por Guida Marquès e Cristina de Melo) e italiano (por Alessandro Granata), Onde Vais, Drama-Poesia?, O Raio sobre o Lápis, Cantileno, Hölder de Hölderlin, O Jogo da Liberdade da Alma e «O Espaço Edénico».

18.6.08


NOVA CASA PARA O ESPAÇO LLANSOL

O nosso esforço dos últimos meses foi finalmente recompensado: a Câmara Municipal de Sintra e a proprietária da casa onde viveu Maria Gabriela Llansol reconheceram a importância da Associação e do nosso trabalho futuro, e possibilitaram a manutenção da casa de Sintra como sede do Espaço Llansol. A partir de agora é aí que reuniremos, prepararemos as nossas actividades e trabalharemos no espólio.


A «Casa da Reconstituição» (como já lhe chamamos, inspirados em Os Cantores de Leitura) vai precisar de pequenas obras, que faremos nas próximas semanas. Depois continuará o trabalho no espólio. Estamos neste momento a digitalizar, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, o primeiro núcleo de 76 cadernos manuscritos e numerados pela Autora, a que se seguirá um segundo núcleo de 73 cadernos avulsos e, mais tarde, o tratamento do resto deste imenso legado (diários, correspondência, agendas, blocos, papéis avulsos, recortes de imprensa, juvenilia, marginalia, fotografias, diapositivos, iconografia, audiovideoteca, objectos). No fim do ano iniciaremos a indexação destes cadernos, sem o que o trabalho sobre eles será inviável, e daqui a pouco mais de um ano tencionamos disponibilizá-los em edição digital. Até lá, definiremos as normas e condições de utilização por investigadores interessados em trabalhar com este espólio.
A nossa proposta de um ciclo de vários dias e de uma grande exposição intitulada «Sobreimpressões - A dimensão europeia da Obra de M. G. Llansol» foi aceite pelo Centro Cultural de Belém, e deverá concretizar-se no Outono de 2009 ou na Primavera de 2010.
As nossas edições dos Cadernos Llansolianos (e outras publicações) continuarão, agora com a chancela da Editora Mariposa Azual, que regressa após um interregno de alguns anos.
Mais do que nunca, agradecemos o apoio de todos a esta «causa amante», e continuamos à vossa disposição.

J. B.


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9.6.08


LLANSOL EM FRANCÊS E CASTELHANO

Duas revistas editadas respectivamente em França e no Luxemburgo – Décharge e Abril –, em francês e em castelhano, incluiram nos seus últimos números textos de Maria Gabriela Llansol em tradução.


A Décharge publica um dossier organizado por Cristina de Melo, artista plástica e poeta portuguesa radicada na Bretanha, que inclui, para além da apresentação da Autora e de um excerto do texto de João Barrento publicado aqui depois da morte da Maria Gabriela, uma selecção de textos extraídos de
O Começo de um Livro é Precioso, Amigo e Amiga e Os Cantores de Leitura. Na apresentação de Maria Gabriela Llansol, Cristina de Melo justifica a sua inclusão num dossier de «Cinco poetas portugueses» (para além de Llansol, Nuno Júdice, Maria Andresen, Cristina de Melo e Fernando Pinto do Amaral, presentes num encontro recente em Dijon): «Se em Portugal o texto de Llansol continua a ser visto como inclassificável, ele tem uma tal força poética e plástica que, sem pretender etiquetá-lo, não hesitei em inclui-lo nesse campo particularmente amplo que é o da experiência poética.» No mesmo número, o crítico Luce Guilbaud escreve ainda sobre a obra de Llansol, a partir dos livros até agora editados em França, Un Faucon au Poing e Les Érrances du Mal.


O «conto» incluído
no nº 35/2008 da revista Abril (que se edita no Luxemburgo, e dedica este número à memória das escritoras José Ensch e Maria Gabriela Llansol) é o fragmento LXII de Contos do Mal Errante, e foi escolhido pelo responsável por este número dedicado ao conto de autores de língua portuguesa de todo o mundo, o tradutor António Gonçalves, que oferece estes textos aos leitores como «amostras, pontos de partida para a descoberta da Obra de cada um dos autores, dos mundos físicos e imaginários neles presentes. Como um convite à viagem, uma etapa – ou talves se possa dizer uma 'tapa' para ir abrindo o apetite.»
Em breve mais quatro revistas – duas que se editam em português, uma em todas as línguas neolatinas e outra em italiano – publicarão textos de Maria Gabriela Llansol, desta vez inéditos dos Cadernos do espólio (que continuamos a classificar e tratar).

15.5.08

LLANSOL NO REINO UNIDO

Pela mão de Claire Williams, professora do Departamento de Estudos Hispânicos e Portugueses da Universidade de Liverpool, o jornal inglês The Guardian insere hoje o texto que se segue:


Maria Gabriela Llansol

Portuguese writer who eschewed the literary conventions of her country

Claire Williams
Thursday May 15, 2008

The Portuguese writer Maria Gabriela Llansol, who has died of cancer aged 76, wrote prolifically (27 titles since 1962) and won many literary awards in her home country, including the illustrious APE best novel prize in 1990 and 2007. Yet she was an isolated figure in Portugese literature, partly because she lived abroad for many years but mostly because her idiosyncratic, highly creative texts reached beyond conventional "figurative" writing.

She was born in Lisbon, where her bibliophile father was chief accountant at a paper factory and her doting mother a housewife. She graduated with a degree in law from Lisbon University in 1955 and two years later obtained a degree in educational sciences. She then ran a nursery school before publishing her first short stories in 1962, inspired by her interaction with children.

In 1965 she and her husband Augusto Joaquim moved to Belgium, in voluntary exile from the repressive regime of António de Oliveira Salazar. The couple became part of a cooperative that ran an experimental school, and also made and sold furniture and food. While living in the hamlet of Herbais, Llansol immersed herself in literature, philosophy and theology, particularly the social history of Europe and medieval mystic poets.

The experience of educating children from a variety of backgrounds and nationalities - some with problems such as autism or Down's syndrome - influenced her work considerably. So did the perspective afforded by living and working in a foreign language, in an isolated community far from home.

In the mid-1980s she moved back to Portugal, to the historic hilltop town of Sintra, and from then on published almost one book a year, largely ignored by the general public but gradually gathering a loyal, diverse group of readers, including academics and even the current president of the European commission, José Manuel Barroso, who has called her writing "intense and sublime".

Llansol found the conventions of traditional literature too restrictive and the subject matter available to novelists exhausted. She was not interested in describing reality, but rather in using language as an organic, living process. Writing, for her, was reality. In her diary Um Falcão no Punho (A Falcon on the Wrist, 1985), she wrote: "Literature does not exist. When you are writing, the only thing you need to know is which reality you are entering and whether or not there is a suitable technique that can open up the way to others."

In particular, her narrators function almost as a medium, or channel, for a series of fluctuating identities and voices or visitors (figures) who inhabit her consciousness and engage in discussion among themselves. Llansol's text also creates spaces where conjecture and counterfactual accounts operate freely - granting a glimpse of an alternative reality. She created iconoclastic, anti-nationalist texts that deflated mythical figures and representations of the past. She stressed Europe's evolution through the growth of free will, free thought and flourishing artistic and scientific developments. Instead of following other writers from her country and describing the glories of the Portuguese discoveries of the 14th and 15th centuries, she focused on the contemporaneous social and religious disturbances between princes and peasants in central Europe.

Llansol's writing absorbed qualities and concepts from the eclectic collection of historical figures that inhabit her work. This took in the likes of the medieval mystic, philosopher and theologian Meister Eckhart, Thomas Müntzer from the 16th-century peasants' war in Germany, through Bach and Spinoza, to Emily Dickinson. She set out her philosophy and practice of writing in the O Livro das Comunidades (The Book of Communities, 1977).

After the death of her husband in 2004, she published two books, one of which, Amigo e Amiga (He and She, 2006), won the APE prize. She was always conscious that her writing would need time to become accepted, saying in The Lord of Herbais (2001): "I live what I have written (and what I have yet to write), as posthumous work. Its longevity will outlive mine. It will have to exist by itself."

Llansol was also an accomplished translator of French poetry, including Baudelaire, Apollinaire and Rimbaud, and a few of her works have been translated into Spanish and French.

She leaves a cat, and hundreds of handwritten notebooks and diaries.

· Maria Gabriela Llansol, writer, born November 24 1931; died March 3 2008

10.5.08


MARIA GABRIELA LLANSOL
Como uma pedra-pássaro que voa



1.

Dificilmente encontraremos palavras mais adequadas para falar de Llansol do que as escolhidas por Augusto Joaquim. Falava do texto, ao compará-lo a «uma pedra-pássaro que voa»; mas o mesmo poderia dizer de Maria Gabriela, esse «ser indómito e realista, sem traço de presunção no carácter e na escrita», como também testemunhava.
Era uma «rocha frágil», como diz João Barrento a propósito dessa mulher que se via com um raio de sol preso à borda da saia, como ela própria sugere no seu último livro Os Cantores de Leitura.
Caracterizam-na palavras como força, rectidão, persistência, dádiva. Era tudo menos vulgar. Nunca vi um ser mais livre nem mais necessitado de amor. Era improvável, no sentido em que Augusto Joaquim definia o seu texto — sem prova, mas abrindo ao gosto. Lembro-me da firmeza do seu andar, do modo determinado com que segurava o saco onde punha livros e cadernos, uma agenda grande, uma garrafa de água, óculos, lápis, canetas de usar e deitar fora. Era sólida. Tinha peso e era leve. Às vezes, parecia trazer o saco muito pesado e entregava-o a um de nós, assim que nos aproximavamos. Mas também me lembro de a ver andar muito ligeira, apenas com uma pequena mochila azul às costas. Nesses dias, quase saltitava. Tinha consigo tudo o que precisava para o passeio. Seria capaz de dançar. Caminhava à nossa frente, e parecia a mais leve, a mais nova, a mais decidida, a mais voluntariosa.
De uma inteligência arguta e instinto quase animal, podia ser repentina e brusca, quando o sofrimento, sem avisar, batia forte (lembro-me de a ver assim, no dia em que soubemos que o Augusto estava gravemente doente); mas também de uma inteligência sensível, serena e comedida, quando uma dor já anunciada, entrava porta dentro (como no dia da morte do Augusto, em que permaneceu, sem lágrimas, de pé firme, ao seu lado, durante toda a noite). O «inesperado» que ela valorizava era o que provocava o maravilhamento, não o repentino ou o imprevisto que a fazia alterar planos ou encontros marcados. Detestava não estar preparada para qualquer acontecimento.
Também nunca desmarcava um encontro ou o alterava para mais tarde, nem gostava que o fizéssemos — se éramos vários, como nos encontros do nosso grupo de estudos (o «GELL»), quem não podia, não vinha, e o encontro fazia-se com quem estava; encontrávamo-la quase sempre já na rua, à nossa espera — penso que saía de casa antes da hora marcada porque gostava de antecipar, visualizando, o dia a passar na companhia de outros, e de saborear sozinha o encontro (embora já o tivesse preparado cuidadosamente na véspera, anotando num caderno o que era preciso não esquecer); sentava-se num degrau do pequeno monumento do Largo, junto à Câmara Velha, em Sintra, a dois passos da sua casa, com um caderno nos joelhos, a escrever. Por isso, era para aí que dirigíamos o olhar, quando chegávamos, pois era quase certo que já lá estava. Não como quem espera, mas esperando-nos. Hoje tenho muita pena de nunca ter registado, em imagem, um desses momentos, mas era algo que não estava nos nossos hábitos — a Maria Gabriela não gostava que lhe tirassem fotografias, e todos respeitávamos isso com muita naturalidade. A excepção era, todos os anos, em Junho ou Julho, o piquenique que fazíamos na «Clareira de Parasceve», na Serra de Sintra, onde passávamos o dia rodeados de cestos de verga e toalhas coloridas abertas no chão. Era sempre um dia precioso para a Maria Gabriela, e gostava que o planeássemos com o mesmo cuidado com que preparávamos os textos a apresentar nos encontros de trabalho. Era um dia igualmente importante e sempre muito alegre. Despreocupado e cheio de ensinamentos, que cada um percebia, ao chegar a casa, ter recolhido sem saber como.
Se marcava encontro com uma só pessoa, para passear e conversar, e gostava muito de o fazer, sabíamos que a sua desilusão seria grande em caso de impedimento, mas não voltava para casa, esquecendo as horas que seriam do encontro, antes as transformava noutro acontecimento, usufruindo do lugar escolhido e do tempo disponível. Ainda há dias, ao passar por um dos Cadernos inéditos, pude confirmar isso numa anotação do dia 29 de Janeiro de 1995. Dizia assim:

«Tenho sempre um encontro aos domingos de manhã. Esse encontro não foi possível realizar hoje,
fiquei igualmente feliz com a fonte, o verde geral das árvores, o caminho».




2.

Acordava muito cedo, ainda de madrugada, entre as cinco e as seis da manhã, e escrevia durante uma ou duas horas, por vezes mais. Depois, voltava a deitar-se, dormia mais um pouco, mas nunca se levantava tarde. Gostava de ir para a rua usufruir da manhã, de comprar o jornal e alguns alimentos básicos, de preferência biológicos, de andar a pé se o tempo permitia, encontrar-se com alguém, se combinado, ou apanhar o comboio e ir a Lisboa — antes de adoecer, ia pelo menos uma vez por semana —, gostava muito de passear pelas ruas de Campo de Ourique, onde vivera, passar no Jardim da Parada, sentar-se debaixo de uma árvore, escrever. Por vezes ia ao cinema, encontrava-se com uma amiga, ia ver uma exposição. Mas escrevia sempre, em todos os caminhos, nos cadernos que levava sempre consigo. Regressava a casa ao final da tarde, de comboio, e não se importava de ir e vir sozinha.
Como dizia o Augusto, do que ela precisava era de «matéria figural» para transformar, embora ultimamente já não fosse assim. Não conseguiu lidar com a única coisa que nunca conhecera — a doença — e que surgiu como ela não gostava que nada acontecesse, de modo imprevisto e repentino.
Quando a fragilidade se começou a acentuar cada vez mais, passou a precisar de falar todos os dias ao telefone com alguém amigo, antes de se deitar, para poder dormir com alguma tranquilidade. Hábitos que, durante a vida de Augusto Joaquim, não se faziam sentir, já que ele estava sempre ali, «do outro lado do corredor».

3.

Se, por vezes, era impossível não reparar na Maria Gabriela quando passava na rua, pelo modo singular como combinava as cores e tecidos do seu vestuário, o que resultava numa sobriedade rara, ousada e nunca triste, ou pelo olhar longo e atento que levantava para as árvores, noutros momentos também podia passar despercebida, quase igual a toda a gente. De personalidade forte e determinada, seria incapaz de correr atrás de modas, mas não lhe era indiferente o modo como se penteava


— «eu hei-de envelhecer de cabelo branco e puxado para cima» — ou o vestuário que escolhia de modo diferente consoante ficava em casa ou ia para a rua (ela própria conta que, nos tempos da Bélgica, era quando ficava em casa a trabalhar /escrever, que escolhia com mais cuidado o que vestir, decidindo de véspera o que ia usar). Gostava de olhar os vestidos, pendurados no vão da janela, prontos para o corpo que os ia vestir no dia seguinte. Não sei o que acontecia no seu pensamento enquanto os olhava, mas imagino-o desdobrando-se em imagens, orientando-se para aquilo a que poderíamos chamar um pensamento imagético.


4.


Atenciosa com quem lhe dirigia a palavra, de trato simples com os mais simples, era, no entanto, intransigente com os que consideram plantas e animais como seres inferiores. Deixou-nos a certeza de ser absolutamente urgente rever o conceito de «humano».


5.

Recolhida no silêncio da sua casa, mas também disponível para o leitor desconhecido que lhe telefonava, ou escrevia, dizendo que gostaria de a conhecer (sei de alguns que chegaram até ela desse modo). Se estava na presença de alguém que tinha dificuldade em expressar o que sentia, era, nesses momentos, de uma generosidade surpreendente, emprestando as suas palavras a quem precisava delas.
De uma grande dádiva quando sentia que era amada; felina quando percebia que a abordavam com uma qualquer forma de interesse ou vulgaridade. Do mesmo modo, era de uma amizade profunda com os amigos, mas largava-os se a feriam nas suas convicções mais profundas ou se, mesmo inadvertidamente, tentavam afastá-la dos seus propósitos. O que, às vezes, podia parecer injusto, era um modo de preservar a sua força, não a deixando diminuir, para poder continuar no sentido da justeza, tal como escolhera. Como o seu mestre Spinoza (era assim que gostava de pronunciar o nome do filósofo, por isso usava a grafia francesa), fugia rapidamente do que pudesse diminuir a sua vontade de agir, invadindo-a de um sentimento de tristeza. Era a alegria que sempre procurava, porque sabia que era o júbilo que queria pôr na escrita e que era com ele que queria escrever. Do mesmo modo, deixava que se fossem afastando os que, por algum motivo pessoal, sentiam a sua presença como castradora — fazia-os perceber que deviam escolher o seu próprio caminho. Mas, quando isso acontecia, era como se ela própria não estivesse à espera, e sofria com esse afastamento. Era essa a sua maneira de pôr em prática a liberdade de consciência, que tanto prezava. Nessas situações, raramente voltava atrás, mas não por rigidez ou teimosia, antes por convicção — não era obstinada, pois sabia ouvir a opinião dos outros e, não raras vezes, mudava a sua. Só era intransigente com a falta de amor. Por isso, era capaz de ter amigos muito diferentes, desde que o afecto fosse uma constante nas suas vidas. Não fazia qualquer distinção entre eles, no sentido de valorizar mais uns do que outros; mas sabíamos que as conversas que, individualmente, tinha com cada um, eram bem diferentes — confidências, leituras, passeios, sabiam escolher os seus companheiros e interlocutores. E alguns ficaram para sempre.



6.

Acreditava, incondicionalmente, na força das palavras e na capacidade que elas têm de fazer repensar o mundo e de o orientar para uma forma esteticamente mais bela; mas não viveu criando utopias, conhecia bem o chão que pisava e sabia que o poder e a ambição encontram sempre maneira de corromper os mais puros. Quis apenas mostrar um modo de viver melhor; para cada um a sua escolha, mas sempre no sentido de fazer crescer, ainda que individualmente, a nossa capacidade de nos deslumbrarmos com a beleza das cores e das formas — a isso chamava santidade, e queria apenas dizer que era algo de muito luminoso e capaz de alegria. Exercitava na vida e na escrita essa prática, não como qualquer forma de misticismo, mas como uma prática quotidiana da atenção. Atenção a todos os pormenores, para transformar o mais ínfimo sinal de desolação num possível objecto estético: por isso os cacos de um vaso que se partia se transformavam, antes de ir para o lixo, no «pregueamento dos cacos» — e depois de juntar as palavras que o diziam e faziam ver desse modo, aquele incidente ganhava a capacidade de se metamorfosear de tristeza em alegria. É por isso que ainda continuo a achar estranho que alguns lhe chamem hermética, mística ou inacessível. Não sei do que andam à procura nos seus livros, que tanto lhes turva os olhos e não os deixa ver o mais simples.


7.


Penso que a Maria Gabriela, como pessoa e como escritora, seguiu os ensinamentos de Maria Amélia (a criada jovem, analfabeta mas sábia, que foi como que uma segunda mãe), o de ir à procura daquilo em que se acredita – a outra lição da Maria Amélia terá sido o Amor, incondicionalmente, sem ressentimentos, como dádiva –, um ensinamento que ela repetia pondo-o em prática: «Menina, não diga que não existe, procure onde está». Llansol agiu sempre desse modo, indo à procura, por isso foi capaz de repensar a noção de «invisível», que era para ela, não uma parte do visível, a oculta, que se procura desocultar, mas a sua dobra, um outro modo que também existe e cuja condição não é a de «ser visível» (o que é diferente de «ser invisível», sendo que este tem um carácter negativo que não existe se o virmos como «a dobra do visível»). São estes pensamentos que nos fazem ficar a olhar demoradamente o seu texto. Ao contrário, para quem procura ler rapidamente e clarificar tudo, encontrar informação escavando mais e mais, este texto não serve, porque ele não se constrói com informação mas com intensidades – mostra tudo, desde que se leia e veja intensamente; é só preciso olhar com atenção, ir «à procura», em busca (como fez Proust), sem pressas, movimentando-se no texto, em vez de (passe a expressão) o esburacar. Mas é isso que é difícil, saber prescindir do supérfluo, mudar de olhar, fazer um melhor uso do nosso tempo.
Alguns não perdoam que ela tenha tido a persistência de lutar contra «os mesmos lugares à mesa», o status quo do romance dito realista. E falam de «seita» em relação aos que a lêem. Dizem não saber o que é isso de ser «legente» (que ela preferia a «leitor»), porque nunca pensaram que, com certos textos, a melhor maneira de conjugar o verbo ler é usá-lo no gerúndio, sem cansaço de leitura. E isto é sério e grave, principalmente dentro das universidades. Mas não é por aí que quero continuar.


8.

Dou muita importância a uma frase, que aparece no começo de Parasceve, porque me parece ser a melhor maneira de anular a discórdia entre os que gostam e os que não gostam de Llansol (porque alguns não gostam logo à partida, mesmo antes de a lerem). O facto de Llansol incluir na sua obra alguns místicos por quem tem apreço, de fazer deles figuras, como tantas outras da sua obra (e isso ocorreu até mais nas primeiras trilogias), isso não significa que ela se veja como uma encarnação deles, como alguns gostam de insinuar; assim como o facto de gostar de acender uma vela (para iluminar o texto, como dizia, ou para ver nessa luz a presença dele, ou simplesmente porque gostava dessa forma de luz), não significa que se sentisse dentro de um templo ou em adoração a um qualquer deus. Muito teríamos, então, hoje, que dizer da «moda» das velas por tudo e por nada dentro das nossas casas, mercadoria que nos querem vender «porque se usa», que vai com l'air du temps, ainda que algumas surjam aos nossos olhos com formas inauditas, cheiros às vezes insuportáveis, cores que nunca saberemos como nomear. Será isso uma forma de misticismo na nossa sociedade de consumo? A frase a que me refiro atrás é a seguinte: «transpor para a consciência quotidiana o que, durante séculos, fora atribuído ao êxtase» – não encontro melhor para definição daquilo que esteve sempre no horizonte de Llansol e da sua escrita. Quem não quiser, que não veja. Foi sempre, e é, esse o seu fascínio, aquilo que afasta uns e agarra outros – a capacidade de falar do quotidiano, daquilo que todos conhecemos, de um modo desconhecido. Com ela, com a sua obra, não há meio termo, ou se ama ou se detesta, ou se fica, ou se foge (quase) para sempre. A escolha é nossa, claro.


9.

Mas, voltando à Maria Gabriela e ao seu modo de estar no mundo.
Há uma passagem no livro Um Beijo Dado Mais Tarde, que talvez seja das mais esclarecedoras relativamente ao modo como ela se via no mundo: diz-se [a Témia] que «uma lamparina de azeite nunca se apaga. É uma luz que realiza sempre a função da luz – extrair objectos iluminados dos objectos apagados». Associo sempre esta lamparina à importância da luz no seu texto e também a ela própria, talvez porque a Maria Gabriela me contou, uma vez, que se via, desde muito pequena, com uma candeia na mão, a abrir caminho na frente de outros. E isto acontecia como uma espécie de sonho recorrente (sonho que pode até ter acontecido). A importância que ela dava a este facto era enorme, mas não porque se sentisse superior aos outros; era, sim, com um grande sentido de responsabilidade que o recordava e que o aceitava como destinação. Se era isso que chamava por ela, o querer abrir caminho, era para isso que viveria e escreveria. E assim aconteceu. Não como missão, mas como um modo de vida igual a qualquer outro. Lastimava aqueles «a quem nada chama», que passam pela vida queimando os dias. Ao contrário, os que sentem um apelo e têm capacidade de decisão (qualidade que a Maria Gabriela muito apreciava), vão atrás do seu sonho, seguem o que consideram ser um «pensamento verdadeiro», acreditam nele incondicionalmente, definem-no como a sua «causa amante», agem com determinação, e vão em frente. Foi isso que ela fez. Com a imensa sorte de ter encontrado Augusto Joaquim, também ele de uma grande generosidade e determinado, se necessário, a abdicar da sua obra em favor da dela. E, infelizmente para ele e para todos nós, foi necessário abdicar. Salvou-se a dela. Os dois previram e aceitaram tudo, como um «ambo». Só não contaram com a decisão das Parcas, de o levar primeiro a ele, doze anos mais novo.


10.

Se me pedissem para escolher uma das suas figuras, para falar de Maria Gabriela Llansol, eu diria: o jardim triangular de Herbais. Esse, que o pensamento permite. São muitas as passagens, no seu texto, onde essa figura aparece. Aí confluem, e se põe em prática, a justiça e a desordem, o sossego e a inquietação, o húmus necessário para que a leitura faça crescer e o mundo avance.
Foi desse modo que a Maria Gabriela decidiu viver. Como deixou escrito em duas linhas de Lisboaleipzig1. O encontro inesperado do diverso:

«Post scriptum: Através de mim, os animais assumiram melhor a sua condição humana. Eu não fiz senão correr através do mundo, e assumi, como pude, a minha condição animal. Começou a vibrar um grande arco em que espalhei a justiça e a desordem __________»


**

Estas anotações foram escritas ao sabor das horas, de modo não sistemático, como quem liga fios que a memória vai tecendo. Surgiram como resposta à vontade de reconstituir uma imagem de Maria Gabriela Llansol, do seu universo e da sua vida, solicitado pela realizadora Cláudia Tomaz, neste momento a preparar um filme que dará a ver aspectos desse universo e da escrita-vida de Llansol.


Que dizer mais, se quase tudo ficará por dizer? O melhor será mesmo continuar a ler Llansol – talvez «pouco, mas infinitamente» – porque, não sendo o seu texto autobiográfico, toda a sua vida está lá.


8.5.08

DESENHOS A LÁPIS COM FALA
Tiragem especial


Fizémos no passado dia 5 de Maio a apresentação de dois últimos livros: Os Cantores de Leitura, apresentado por António Guerreiro, com participação de Nuno Atalaia (flauta de Biesel) e Mafalda Saloio (canto), e Desenhos a Lápis com Fala – Amar Um Cão, apresentado por José Tolentino Mendonça, com 20 desenhos de Augusto Joaquim.
Desta edição fez a Assírio & Alvim uma tiragem especial de 60 exemplares, numerados de I a LX, sendo cada um dos livros acompanhado por um dos desenhos de Augusto Joaquim (em três séries iguais, cada uma numerada de 0 a 19), em tamanho original, impressos em papel de algodão de 250 g/m2.
Reproduzimos aqui os vinte desenhos, numerados de 0 a 19, para orientação dos interessados (clique nas imagens para aumentar).



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Esta tiragem destina-se a uma subscrição especial, devendo os interessados na aquisição de um ou mais desenhos e respectivo livro solicitá-los através do e-mail do Espaço Llansol (espacollansol@gmail.com) ou da Assírio & Alvim (vasco.david@assirio.pt), ou adquiri-los directamente na livraria da Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67-B, em Lisboa). Os subscritores residentes no estrangeiro, ou fora de Lisboa, poderão pedir o seu exemplar através do nosso e-mail (o pagamento será depois feito para a conta do Espaço Llansol, a indicar). O preço de um desenho e livro com numeração especial é de €100,00 (Cem Euros).
Num gesto de generosidade que muito agradecemos, a Editora decidiu destinar à Associação Espaço Llansol o produto da venda desta tiragem especial.