10.5.08


MARIA GABRIELA LLANSOL
Como uma pedra-pássaro que voa



1.

Dificilmente encontraremos palavras mais adequadas para falar de Llansol do que as escolhidas por Augusto Joaquim. Falava do texto, ao compará-lo a «uma pedra-pássaro que voa»; mas o mesmo poderia dizer de Maria Gabriela, esse «ser indómito e realista, sem traço de presunção no carácter e na escrita», como também testemunhava.
Era uma «rocha frágil», como diz João Barrento a propósito dessa mulher que se via com um raio de sol preso à borda da saia, como ela própria sugere no seu último livro Os Cantores de Leitura.
Caracterizam-na palavras como força, rectidão, persistência, dádiva. Era tudo menos vulgar. Nunca vi um ser mais livre nem mais necessitado de amor. Era improvável, no sentido em que Augusto Joaquim definia o seu texto — sem prova, mas abrindo ao gosto. Lembro-me da firmeza do seu andar, do modo determinado com que segurava o saco onde punha livros e cadernos, uma agenda grande, uma garrafa de água, óculos, lápis, canetas de usar e deitar fora. Era sólida. Tinha peso e era leve. Às vezes, parecia trazer o saco muito pesado e entregava-o a um de nós, assim que nos aproximavamos. Mas também me lembro de a ver andar muito ligeira, apenas com uma pequena mochila azul às costas. Nesses dias, quase saltitava. Tinha consigo tudo o que precisava para o passeio. Seria capaz de dançar. Caminhava à nossa frente, e parecia a mais leve, a mais nova, a mais decidida, a mais voluntariosa.
De uma inteligência arguta e instinto quase animal, podia ser repentina e brusca, quando o sofrimento, sem avisar, batia forte (lembro-me de a ver assim, no dia em que soubemos que o Augusto estava gravemente doente); mas também de uma inteligência sensível, serena e comedida, quando uma dor já anunciada, entrava porta dentro (como no dia da morte do Augusto, em que permaneceu, sem lágrimas, de pé firme, ao seu lado, durante toda a noite). O «inesperado» que ela valorizava era o que provocava o maravilhamento, não o repentino ou o imprevisto que a fazia alterar planos ou encontros marcados. Detestava não estar preparada para qualquer acontecimento.
Também nunca desmarcava um encontro ou o alterava para mais tarde, nem gostava que o fizéssemos — se éramos vários, como nos encontros do nosso grupo de estudos (o «GELL»), quem não podia, não vinha, e o encontro fazia-se com quem estava; encontrávamo-la quase sempre já na rua, à nossa espera — penso que saía de casa antes da hora marcada porque gostava de antecipar, visualizando, o dia a passar na companhia de outros, e de saborear sozinha o encontro (embora já o tivesse preparado cuidadosamente na véspera, anotando num caderno o que era preciso não esquecer); sentava-se num degrau do pequeno monumento do Largo, junto à Câmara Velha, em Sintra, a dois passos da sua casa, com um caderno nos joelhos, a escrever. Por isso, era para aí que dirigíamos o olhar, quando chegávamos, pois era quase certo que já lá estava. Não como quem espera, mas esperando-nos. Hoje tenho muita pena de nunca ter registado, em imagem, um desses momentos, mas era algo que não estava nos nossos hábitos — a Maria Gabriela não gostava que lhe tirassem fotografias, e todos respeitávamos isso com muita naturalidade. A excepção era, todos os anos, em Junho ou Julho, o piquenique que fazíamos na «Clareira de Parasceve», na Serra de Sintra, onde passávamos o dia rodeados de cestos de verga e toalhas coloridas abertas no chão. Era sempre um dia precioso para a Maria Gabriela, e gostava que o planeássemos com o mesmo cuidado com que preparávamos os textos a apresentar nos encontros de trabalho. Era um dia igualmente importante e sempre muito alegre. Despreocupado e cheio de ensinamentos, que cada um percebia, ao chegar a casa, ter recolhido sem saber como.
Se marcava encontro com uma só pessoa, para passear e conversar, e gostava muito de o fazer, sabíamos que a sua desilusão seria grande em caso de impedimento, mas não voltava para casa, esquecendo as horas que seriam do encontro, antes as transformava noutro acontecimento, usufruindo do lugar escolhido e do tempo disponível. Ainda há dias, ao passar por um dos Cadernos inéditos, pude confirmar isso numa anotação do dia 29 de Janeiro de 1995. Dizia assim:

«Tenho sempre um encontro aos domingos de manhã. Esse encontro não foi possível realizar hoje,
fiquei igualmente feliz com a fonte, o verde geral das árvores, o caminho».




2.

Acordava muito cedo, ainda de madrugada, entre as cinco e as seis da manhã, e escrevia durante uma ou duas horas, por vezes mais. Depois, voltava a deitar-se, dormia mais um pouco, mas nunca se levantava tarde. Gostava de ir para a rua usufruir da manhã, de comprar o jornal e alguns alimentos básicos, de preferência biológicos, de andar a pé se o tempo permitia, encontrar-se com alguém, se combinado, ou apanhar o comboio e ir a Lisboa — antes de adoecer, ia pelo menos uma vez por semana —, gostava muito de passear pelas ruas de Campo de Ourique, onde vivera, passar no Jardim da Parada, sentar-se debaixo de uma árvore, escrever. Por vezes ia ao cinema, encontrava-se com uma amiga, ia ver uma exposição. Mas escrevia sempre, em todos os caminhos, nos cadernos que levava sempre consigo. Regressava a casa ao final da tarde, de comboio, e não se importava de ir e vir sozinha.
Como dizia o Augusto, do que ela precisava era de «matéria figural» para transformar, embora ultimamente já não fosse assim. Não conseguiu lidar com a única coisa que nunca conhecera — a doença — e que surgiu como ela não gostava que nada acontecesse, de modo imprevisto e repentino.
Quando a fragilidade se começou a acentuar cada vez mais, passou a precisar de falar todos os dias ao telefone com alguém amigo, antes de se deitar, para poder dormir com alguma tranquilidade. Hábitos que, durante a vida de Augusto Joaquim, não se faziam sentir, já que ele estava sempre ali, «do outro lado do corredor».

3.

Se, por vezes, era impossível não reparar na Maria Gabriela quando passava na rua, pelo modo singular como combinava as cores e tecidos do seu vestuário, o que resultava numa sobriedade rara, ousada e nunca triste, ou pelo olhar longo e atento que levantava para as árvores, noutros momentos também podia passar despercebida, quase igual a toda a gente. De personalidade forte e determinada, seria incapaz de correr atrás de modas, mas não lhe era indiferente o modo como se penteava


— «eu hei-de envelhecer de cabelo branco e puxado para cima» — ou o vestuário que escolhia de modo diferente consoante ficava em casa ou ia para a rua (ela própria conta que, nos tempos da Bélgica, era quando ficava em casa a trabalhar /escrever, que escolhia com mais cuidado o que vestir, decidindo de véspera o que ia usar). Gostava de olhar os vestidos, pendurados no vão da janela, prontos para o corpo que os ia vestir no dia seguinte. Não sei o que acontecia no seu pensamento enquanto os olhava, mas imagino-o desdobrando-se em imagens, orientando-se para aquilo a que poderíamos chamar um pensamento imagético.


4.


Atenciosa com quem lhe dirigia a palavra, de trato simples com os mais simples, era, no entanto, intransigente com os que consideram plantas e animais como seres inferiores. Deixou-nos a certeza de ser absolutamente urgente rever o conceito de «humano».


5.

Recolhida no silêncio da sua casa, mas também disponível para o leitor desconhecido que lhe telefonava, ou escrevia, dizendo que gostaria de a conhecer (sei de alguns que chegaram até ela desse modo). Se estava na presença de alguém que tinha dificuldade em expressar o que sentia, era, nesses momentos, de uma generosidade surpreendente, emprestando as suas palavras a quem precisava delas.
De uma grande dádiva quando sentia que era amada; felina quando percebia que a abordavam com uma qualquer forma de interesse ou vulgaridade. Do mesmo modo, era de uma amizade profunda com os amigos, mas largava-os se a feriam nas suas convicções mais profundas ou se, mesmo inadvertidamente, tentavam afastá-la dos seus propósitos. O que, às vezes, podia parecer injusto, era um modo de preservar a sua força, não a deixando diminuir, para poder continuar no sentido da justeza, tal como escolhera. Como o seu mestre Spinoza (era assim que gostava de pronunciar o nome do filósofo, por isso usava a grafia francesa), fugia rapidamente do que pudesse diminuir a sua vontade de agir, invadindo-a de um sentimento de tristeza. Era a alegria que sempre procurava, porque sabia que era o júbilo que queria pôr na escrita e que era com ele que queria escrever. Do mesmo modo, deixava que se fossem afastando os que, por algum motivo pessoal, sentiam a sua presença como castradora — fazia-os perceber que deviam escolher o seu próprio caminho. Mas, quando isso acontecia, era como se ela própria não estivesse à espera, e sofria com esse afastamento. Era essa a sua maneira de pôr em prática a liberdade de consciência, que tanto prezava. Nessas situações, raramente voltava atrás, mas não por rigidez ou teimosia, antes por convicção — não era obstinada, pois sabia ouvir a opinião dos outros e, não raras vezes, mudava a sua. Só era intransigente com a falta de amor. Por isso, era capaz de ter amigos muito diferentes, desde que o afecto fosse uma constante nas suas vidas. Não fazia qualquer distinção entre eles, no sentido de valorizar mais uns do que outros; mas sabíamos que as conversas que, individualmente, tinha com cada um, eram bem diferentes — confidências, leituras, passeios, sabiam escolher os seus companheiros e interlocutores. E alguns ficaram para sempre.



6.

Acreditava, incondicionalmente, na força das palavras e na capacidade que elas têm de fazer repensar o mundo e de o orientar para uma forma esteticamente mais bela; mas não viveu criando utopias, conhecia bem o chão que pisava e sabia que o poder e a ambição encontram sempre maneira de corromper os mais puros. Quis apenas mostrar um modo de viver melhor; para cada um a sua escolha, mas sempre no sentido de fazer crescer, ainda que individualmente, a nossa capacidade de nos deslumbrarmos com a beleza das cores e das formas — a isso chamava santidade, e queria apenas dizer que era algo de muito luminoso e capaz de alegria. Exercitava na vida e na escrita essa prática, não como qualquer forma de misticismo, mas como uma prática quotidiana da atenção. Atenção a todos os pormenores, para transformar o mais ínfimo sinal de desolação num possível objecto estético: por isso os cacos de um vaso que se partia se transformavam, antes de ir para o lixo, no «pregueamento dos cacos» — e depois de juntar as palavras que o diziam e faziam ver desse modo, aquele incidente ganhava a capacidade de se metamorfosear de tristeza em alegria. É por isso que ainda continuo a achar estranho que alguns lhe chamem hermética, mística ou inacessível. Não sei do que andam à procura nos seus livros, que tanto lhes turva os olhos e não os deixa ver o mais simples.


7.


Penso que a Maria Gabriela, como pessoa e como escritora, seguiu os ensinamentos de Maria Amélia (a criada jovem, analfabeta mas sábia, que foi como que uma segunda mãe), o de ir à procura daquilo em que se acredita – a outra lição da Maria Amélia terá sido o Amor, incondicionalmente, sem ressentimentos, como dádiva –, um ensinamento que ela repetia pondo-o em prática: «Menina, não diga que não existe, procure onde está». Llansol agiu sempre desse modo, indo à procura, por isso foi capaz de repensar a noção de «invisível», que era para ela, não uma parte do visível, a oculta, que se procura desocultar, mas a sua dobra, um outro modo que também existe e cuja condição não é a de «ser visível» (o que é diferente de «ser invisível», sendo que este tem um carácter negativo que não existe se o virmos como «a dobra do visível»). São estes pensamentos que nos fazem ficar a olhar demoradamente o seu texto. Ao contrário, para quem procura ler rapidamente e clarificar tudo, encontrar informação escavando mais e mais, este texto não serve, porque ele não se constrói com informação mas com intensidades – mostra tudo, desde que se leia e veja intensamente; é só preciso olhar com atenção, ir «à procura», em busca (como fez Proust), sem pressas, movimentando-se no texto, em vez de (passe a expressão) o esburacar. Mas é isso que é difícil, saber prescindir do supérfluo, mudar de olhar, fazer um melhor uso do nosso tempo.
Alguns não perdoam que ela tenha tido a persistência de lutar contra «os mesmos lugares à mesa», o status quo do romance dito realista. E falam de «seita» em relação aos que a lêem. Dizem não saber o que é isso de ser «legente» (que ela preferia a «leitor»), porque nunca pensaram que, com certos textos, a melhor maneira de conjugar o verbo ler é usá-lo no gerúndio, sem cansaço de leitura. E isto é sério e grave, principalmente dentro das universidades. Mas não é por aí que quero continuar.


8.

Dou muita importância a uma frase, que aparece no começo de Parasceve, porque me parece ser a melhor maneira de anular a discórdia entre os que gostam e os que não gostam de Llansol (porque alguns não gostam logo à partida, mesmo antes de a lerem). O facto de Llansol incluir na sua obra alguns místicos por quem tem apreço, de fazer deles figuras, como tantas outras da sua obra (e isso ocorreu até mais nas primeiras trilogias), isso não significa que ela se veja como uma encarnação deles, como alguns gostam de insinuar; assim como o facto de gostar de acender uma vela (para iluminar o texto, como dizia, ou para ver nessa luz a presença dele, ou simplesmente porque gostava dessa forma de luz), não significa que se sentisse dentro de um templo ou em adoração a um qualquer deus. Muito teríamos, então, hoje, que dizer da «moda» das velas por tudo e por nada dentro das nossas casas, mercadoria que nos querem vender «porque se usa», que vai com l'air du temps, ainda que algumas surjam aos nossos olhos com formas inauditas, cheiros às vezes insuportáveis, cores que nunca saberemos como nomear. Será isso uma forma de misticismo na nossa sociedade de consumo? A frase a que me refiro atrás é a seguinte: «transpor para a consciência quotidiana o que, durante séculos, fora atribuído ao êxtase» – não encontro melhor para definição daquilo que esteve sempre no horizonte de Llansol e da sua escrita. Quem não quiser, que não veja. Foi sempre, e é, esse o seu fascínio, aquilo que afasta uns e agarra outros – a capacidade de falar do quotidiano, daquilo que todos conhecemos, de um modo desconhecido. Com ela, com a sua obra, não há meio termo, ou se ama ou se detesta, ou se fica, ou se foge (quase) para sempre. A escolha é nossa, claro.


9.

Mas, voltando à Maria Gabriela e ao seu modo de estar no mundo.
Há uma passagem no livro Um Beijo Dado Mais Tarde, que talvez seja das mais esclarecedoras relativamente ao modo como ela se via no mundo: diz-se [a Témia] que «uma lamparina de azeite nunca se apaga. É uma luz que realiza sempre a função da luz – extrair objectos iluminados dos objectos apagados». Associo sempre esta lamparina à importância da luz no seu texto e também a ela própria, talvez porque a Maria Gabriela me contou, uma vez, que se via, desde muito pequena, com uma candeia na mão, a abrir caminho na frente de outros. E isto acontecia como uma espécie de sonho recorrente (sonho que pode até ter acontecido). A importância que ela dava a este facto era enorme, mas não porque se sentisse superior aos outros; era, sim, com um grande sentido de responsabilidade que o recordava e que o aceitava como destinação. Se era isso que chamava por ela, o querer abrir caminho, era para isso que viveria e escreveria. E assim aconteceu. Não como missão, mas como um modo de vida igual a qualquer outro. Lastimava aqueles «a quem nada chama», que passam pela vida queimando os dias. Ao contrário, os que sentem um apelo e têm capacidade de decisão (qualidade que a Maria Gabriela muito apreciava), vão atrás do seu sonho, seguem o que consideram ser um «pensamento verdadeiro», acreditam nele incondicionalmente, definem-no como a sua «causa amante», agem com determinação, e vão em frente. Foi isso que ela fez. Com a imensa sorte de ter encontrado Augusto Joaquim, também ele de uma grande generosidade e determinado, se necessário, a abdicar da sua obra em favor da dela. E, infelizmente para ele e para todos nós, foi necessário abdicar. Salvou-se a dela. Os dois previram e aceitaram tudo, como um «ambo». Só não contaram com a decisão das Parcas, de o levar primeiro a ele, doze anos mais novo.


10.

Se me pedissem para escolher uma das suas figuras, para falar de Maria Gabriela Llansol, eu diria: o jardim triangular de Herbais. Esse, que o pensamento permite. São muitas as passagens, no seu texto, onde essa figura aparece. Aí confluem, e se põe em prática, a justiça e a desordem, o sossego e a inquietação, o húmus necessário para que a leitura faça crescer e o mundo avance.
Foi desse modo que a Maria Gabriela decidiu viver. Como deixou escrito em duas linhas de Lisboaleipzig1. O encontro inesperado do diverso:

«Post scriptum: Através de mim, os animais assumiram melhor a sua condição humana. Eu não fiz senão correr através do mundo, e assumi, como pude, a minha condição animal. Começou a vibrar um grande arco em que espalhei a justiça e a desordem __________»


**

Estas anotações foram escritas ao sabor das horas, de modo não sistemático, como quem liga fios que a memória vai tecendo. Surgiram como resposta à vontade de reconstituir uma imagem de Maria Gabriela Llansol, do seu universo e da sua vida, solicitado pela realizadora Cláudia Tomaz, neste momento a preparar um filme que dará a ver aspectos desse universo e da escrita-vida de Llansol.


Que dizer mais, se quase tudo ficará por dizer? O melhor será mesmo continuar a ler Llansol – talvez «pouco, mas infinitamente» – porque, não sendo o seu texto autobiográfico, toda a sua vida está lá.


8.5.08

DESENHOS A LÁPIS COM FALA
Tiragem especial


Fizémos no passado dia 5 de Maio a apresentação de dois últimos livros: Os Cantores de Leitura, apresentado por António Guerreiro, com participação de Nuno Atalaia (flauta de Biesel) e Mafalda Saloio (canto), e Desenhos a Lápis com Fala – Amar Um Cão, apresentado por José Tolentino Mendonça, com 20 desenhos de Augusto Joaquim.
Desta edição fez a Assírio & Alvim uma tiragem especial de 60 exemplares, numerados de I a LX, sendo cada um dos livros acompanhado por um dos desenhos de Augusto Joaquim (em três séries iguais, cada uma numerada de 0 a 19), em tamanho original, impressos em papel de algodão de 250 g/m2.
Reproduzimos aqui os vinte desenhos, numerados de 0 a 19, para orientação dos interessados (clique nas imagens para aumentar).



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Esta tiragem destina-se a uma subscrição especial, devendo os interessados na aquisição de um ou mais desenhos e respectivo livro solicitá-los através do e-mail do Espaço Llansol (espacollansol@gmail.com) ou da Assírio & Alvim (vasco.david@assirio.pt), ou adquiri-los directamente na livraria da Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67-B, em Lisboa). Os subscritores residentes no estrangeiro, ou fora de Lisboa, poderão pedir o seu exemplar através do nosso e-mail (o pagamento será depois feito para a conta do Espaço Llansol, a indicar). O preço de um desenho e livro com numeração especial é de €100,00 (Cem Euros).
Num gesto de generosidade que muito agradecemos, a Editora decidiu destinar à Associação Espaço Llansol o produto da venda desta tiragem especial.

30.4.08

7.4.08

DEPOIS DA PARTIDA
Balanço do primeiro mês




Passou um mês e alguns dias sobre a deslocação da Maria Gabriela para um lugar onde haverá Cantores de Leitura, e do qual com certeza poderá confirmar que a sua ausência foi preenchida por um forte sentimento de Presença em todos nós, e sobretudo naqueles que diariamente conviveram e convivem com a casa, os objectos, os papéis, as fotos, os livros.


A casa de Sintra entrou em processo acelerado de mudança, e sentimos que tudo o que foi está sendo de novo, sob nova forma e com novos sentidos. Lembramo-nos da página de
Finita que nos conforta e confirma no sentimento de que houve uma passagem de testemunho que temos de merecer: «Sim, as coisas são veículo de conhecimento, à medida que se dispõem experimentam o nosso pensamento e submetem à prova a nossa maneira de agir; disponho-as de certa maneira e já outras percepções surgem, mudo-as de lugar, estabeleço entre elas outras recíprocas relações, e já novos seres estão presentes e começam a exprimir-se (a mim) para que eu não os abandone, os descreva, os mantenha, os reforce na sua realidade nascente; quando tudo por mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino» (2ª ed., p. 220).


Essse chamamento foi ouvido. Durante este primeiro mês o Texto não deixou de estar em movimento, os eventos, as evocações, as entrevistas, os esforços para o manter vivo não pararam de acontecer. Houve um eco enorme, na comunicação social, na blogosfera e a nível oficial e privado, que repercutiu o desaparecimento da Maria Gabriela com uma chuva de manifestações de afecto e de reconhecimento de que já demos notícia aqui. No dia 14 de Março falámos dos
Desenhos a Lápis com Fala, o último livro, com as colagens do Augusto e o texto de Amar um Cão, na livraria Byblos, em Lisboa, com a presença de muitos leitores e legentes que a lembraram e falaram da sua obra. No dia 16, Maria Gabriela Llansol teve presença significativa na televisão, pela voz de João Barrento (no programa Câmara Clara, ainda visonável aqui). No dia 31 a Rádio Clube de Sintra dedicou uma hora de programação à figura de Llansol, que foi evocada e lida por Maria Etelvina Santos e João Barrento, com a participação da activista sintrense Adriana Jones, da Associação de Defesa do Património de Sintra (disponível aqui). No trigésimo dia da passagem, em 3 de Abril, João Barrento voltou a falar de Maria Gabriela Llansol no programa da Antena 2 «O império dos sentidos», de Paulo Alves Guerra, com audição de dois excertos da música de João Madureira para a ópera Metanoite.
A editora Mariposa Azual (actualmente dirigida por Helena Vieira), que vai renascer das cinzas na próxima Feira do Livro (22 de Maio a 10 de Junho), publicará nessa ocasião dois livros sobre a Obra de Llansol:
Na Dobra do Mundo. Escritos llansolianos, de João Barrento, e Maria Gabriela Llansol: O improvável da leitura, de Maria Etelvina Santos.


A grande prioridade neste momento é a da organização do imenso espólio deixado pela Maria Gabriela, indissociável do nosso grande desejo de manter a casa onde viveu como sede do Espaço Llansol e lugar de trabalho e acolhimento. Neste sentido fizémos várias diligências junto da Câmara Municipal de Sintra, mas o vento que sopra destas paragens é muito desencorajante: apresentámos em 26 de Março uma moção à Assembleia Municipal, lembrando a necessidade de um espaço para preservar e tratar o espólio, e tivémos uma entrevista com o vereador da Cultura no dia 3 de Abril, da qual pudémos concluir que não existe em Sintra nem «vontade política» nem a mínima percepção da importância desta autora e desta obra, o que não nos permite ter grandes esperanças de sermos ouvidos.
Há, no entanto, alguma esperança na sequência de outras diligências feitas junto do Ministro da Cultura.


Entretanto, continua o trabalho de arrumação, limpeza e metamorfose da casa da Maria Gabriela em Sintra. Ficaram para trás os difíceis tempos da doença, e uma nova era começa a despontar aí com a luz extraordinária, vinda de fora e de dentro, que invade aquela casa nos nossos fins de tarde de trabalho. O fotógrafo Duarte Belo (que antes já esteve presente no Colóquio da Arrábida e fez as fotos que acompanham a segunda edição de
Finita) passou lá connosco um dia e fixou, em quase mil fotografias, os ambientes, os objectos e os lugares de escrita e de vida da Maria Gabriela.


Nós próprios fomos registando a transformação por que passa a casa em fotografias que documentam o nosso trabalho de descoberta e ordenação do infindável espólio de textos e objectos. E durante este processo percebemos definitivamente que o único lugar com sentido para a associação-comunidade que deles se irá ocupar é esta casa, e que temos de fazer os possíveis e os impossíveis para que este sonho se possa concretizar.


De facto, o volume de textos manuscritos e dactilografados que encontrámos, em cadernos, agendas, dossiers, blocos, folhas soltas, é absolutamente esmagador. A correspondência e o arquivo fotográfico, que cobre mais de um século, vão exigir um longo período de classificação e eventual digitalização. Só agora começamos verdadeiramente a tomar consciência do que foi uma vida-de-escrita vertiginosa e obsessiva, desde as primeiras redacções escolares, em contos, poesia e teatro juvenis, nos diários inéditos dos anos 50, 60 e 80, nas variantes e versões múltiplas de livros editados, e sobretudo no repositório imenso de cadernos manuscritos e papéis soltos, que já começámos a digitalizar.


Acabámos de fazer um primeiro inventário, ainda provisório e pouco pormenorizado, mas que deixamos já aqui para que se possa fazer uma ideia, ainda que pálida, deste mar de escrita e da grande responsabilidade que recaiu sobre nós, uma tarefa que acolhemos e aceitamos com determinação e alegria.



ESPÓLIO LITERÁRIO DE MARIA GABRIELA LLANSOL

Inventário preliminar



1. Cadernos de escrita

a) Núcleo principal (numerado pela Autora):
74 cadernos, de formato A5 ou próximo, cobrindo o período de 1974 a 2006, e contendo o essencial do pensamento, do processo genético da maior parte dos livros editados, sonhos e vivência diária da Autora.
Total estimado de cerca de vinte mil páginas.


b) Segundo núcleo de cadernos (não numerados):
73 cadernos de formatos diversos (de pequenos cadernos de bolso a formato A5) e com preenchimento irregular (de apenas algumas páginas ou do caderno completo). Cobrem o período de 1969 a 2007.


2. Agendas

50 agendas de formatos diversos, de 1963 a 2006 (vários anos com mais do que uma agenda), todas com textos da Autora.

3. Blocos de notas

12 blocos de notas, de 1968 a 2005, com anotações.


4. Dossiers

a) Dactiloscritos (por vezes também provas tipográficas) com os originais de todos os livros editados, alguns em mais do que uma versão e incluindo textos que não entraram nas versões finais. Total de 81 dossiers de formato A4.

b) Dossiers que documentam fases intermédias da escrita de alguns livros: total de 17 dossiers de formato A4.


5. Diários

a) Diários dos anos oitenta: 5 dossiers A4 com diários dactilografados, entre 1981 e 1989.

b) Primeiros diários: 5 cadernos ou dossiers, manuscritos e dactilografados, com diários de 1953, 1958, 1960, 1965 (dois).

6. Textos soltos

a) 8 pastas (A4) com textos soltos inéditos.

b) Uma caixa com textos soltos inéditos (algumas centenas papéis de vária natureza).


7. Primeiras obras (infantis, juvenis e anteriores ao primeiro livro publicado)

a) Contos:
- «Destinos ciganos» (1942: 11 anos), manuscrito
- Conto sem título (1944 ou 1945), manuscrito
- Histórias ao Acaso (1951-52): conjunto de 19 contos, manuscrito
- Prelúdio (1952): conjunto de 27 contos manuscritos (em parte incluídos já em Histórias ao
Acaso
)
- 5 contos de 1962 («O Deus novo», «O conferencista», «A mãe», «O doido», «O prego»),

b) Teatro:
- Duas pequenas peças manuscritas: «Os candeeiros, o gato, a Velha e o Natal» e «Parábola do
moderno Filho Pródigo»
- Os Quatro Pobres de Natal, peça em 1 acto (1952)
- O Absurdo. Teatro radiofónico com 3 personagens (1959)
- A Cordeira. Fantasia em 1 acto e 2 quadros (1959?)

c) Poesia:
- 24 poemas manuscritos (1948-50)


8. Cadernos escolares

- Caderno de caligrafia, 4ª classe
- Caderninho de orações, feito à mão e ilustrado, de 1939 (8 anos). referido e parcialmente
transcrito no início de Finita.
- Cadernos de várias disciplinas, do Liceu Pedro Nunes:
- Português (1945-48)
- Inglês (1945-48)
- História (1945-48)
- Literatura Portuguesa (1948-49)
- Caderneta escolar do Liceu Pedro Nunes
- Caderno de apontamentos da cadeira de História da Educação (Prof. Delfim Santos),
Faculdade de Letras de Lisboa, 1955-56.

9. Correspondência

Milhares de cartas e postais (não inventariado).

10. Arquivo fotográfico

Milhares de fotografias, negativos e slides, incluindo álbuns familiares muito completos, desde inícios do século XX, todo o período de exílio na Bélgica (1965-1985) e o período posterior, em Colares-Sintra (não inventariado).

11. Arquivo de imagens

Reproduções de pintura e outras imagens coleccionadas por M. G. Llansol, em 2 caixas.

12. Documentos pessoais e de família

Muita documentação pessoal e familiar, do lado paterno e materno, importante para reconstituir momentos de escrita dos diários e dos próprios livros da Autora (não inventariado).


13. Objectos

Todos os objectos literariamente relevantes, com ligações explícitas aos livros, para além de muitos outros do ambiente de escrita e de vida da Autora.

14. Biblioteca

Todos os livros de Maria Gabriela Llansol (e também os de Augusto Joaquim), com particular destaque para as obras das figuras históricas dos seus livros, ou sobre elas, que contêm importante marginalia e anotações soltas (não inventariado).

15. Espólio de Augusto Joaquim

O espólio deixado por A. J., em papel e suportes digitais, contém muitos textos inéditos importantes para o estudo da Obra de Llansol, para além de outras matérias (não inventariado).

Neste primeiro levantamento, o espólio estritamente literário corresponde a um total inventariado de cerca de 350 objectos.

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29.3.08


DO URSO PEREGRINO

... um poema oferecido a Maria Gabriela Llansol por paulo de andrade, legente e poeta baiano-mineiro em tempo de nomadismo (tours-lisboa-sintra-estoril). Llansol respondeu, já da distância, com uma frase de Causa Amante:
«Estamos sós, só nós – disse Coração do Urso (...) – pois, por direito,
nós herdámos as margens...»