Como uma pedra-pássaro que voa

Era uma «rocha frágil», como diz João Barrento a propósito dessa mulher que se via com um raio de sol preso à borda da saia, como ela própria sugere no seu último livro Os Cantores de Leitura.
Caracterizam-na palavras como força, rectidão, persistência, dádiva. Era tudo menos vulgar. Nunca vi um ser mais livre nem mais necessitado de amor. Era improvável, no sentido em que Augusto Joaquim definia o seu texto — sem prova, mas abrindo ao gosto. Lembro-me da firmeza do seu andar, do modo determinado com que segurava o saco onde punha livros e cadernos, uma agenda grande, uma garrafa de água, óculos, lápis, canetas de usar e deitar fora. Era sólida. Tinha peso e era leve. Às vezes, parecia trazer o saco muito pesado e entregava-o a um de nós, assim que nos aproximavamos. Mas também me lembro de a ver andar muito ligeira, apenas com uma pequena mochila azul às costas. Nesses dias, quase saltitava. Tinha consigo tudo o que precisava para o passeio. Seria capaz de dançar. Caminhava à nossa frente, e parecia a mais leve, a mais nova, a mais decidida, a mais voluntariosa.
De uma inteligência arguta e instinto quase animal, podia ser repentina e brusca, quando o sofrimento, sem avisar, batia forte (lembro-me de a ver assim, no dia em que soubemos que o Augusto estava gravemente doente); mas também de uma inteligência sensível, serena e comedida, quando uma dor já anunciada, entrava porta dentro (como no dia da morte do Augusto, em que permaneceu, sem lágrimas, de pé firme, ao seu lado, durante toda a noite). O «inesperado» que ela valorizava era o que provocava o maravilhamento, não o repentino ou o imprevisto que a fazia alterar planos ou encontros marcados. Detestava não estar preparada para qualquer acontecimento.
Também nunca desmarcava um encontro ou o alterava para mais tarde, nem gostava que o fizéssemos — se éramos vários, como nos encontros do nosso grupo de estudos (o «GELL»), quem não podia, não vinha, e o encontro fazia-se com quem estava; encontrávamo-la quase sempre já na rua, à nossa espera — penso que saía de casa antes da hora marcada porque gostava de antecipar, visualizando, o dia a passar na companhia de outros, e de saborear sozinha o encontro (embora já o tivesse preparado cuidadosamente na véspera, anotando num caderno o que era preciso não esquecer); sentava-se num degrau do pequeno monumento do Largo, junto à Câmara Velha, em Sintra, a dois passos da sua casa, com um caderno nos joelhos, a escrever. Por isso, era para aí que dirigíamos o olhar, quando chegávamos, pois era quase certo que já lá estava. Não como quem espera, mas esperando-nos. Hoje tenho muita pena de nunca ter registado, em imagem, um desses momentos, mas era algo que não estava nos nossos hábitos — a Maria Gabriela não gostava que lhe tirassem fotografias, e todos respeitávamos isso com muita naturalidade. A excepção era, todos os anos, em Junho ou Julho, o piquenique que fazíamos na «Clareira de Parasceve», na Serra de Sintra, onde passávamos o dia rodeados de cestos de verga e toalhas coloridas abertas no chão. Era sempre um dia precioso para a Maria Gabriela, e gostava que o planeássemos com o mesmo cuidado com que preparávamos os textos a apresentar nos encontros de trabalho. Era um dia igualmente importante e sempre muito alegre. Despreocupado e cheio de ensinamentos, que cada um percebia, ao chegar a casa, ter recolhido sem saber como.
Se marcava encontro com uma só pessoa, para passear e conversar, e gostava muito de o fazer, sabíamos que a sua desilusão seria grande em caso de impedimento, mas não voltava para casa, esquecendo as horas que seriam do encontro, antes as transformava noutro acontecimento, usufruindo do lugar escolhido e do tempo disponível. Ainda há dias, ao passar por um dos Cadernos inéditos, pude confirmar isso numa anotação do dia 29 de Janeiro de 1995. Dizia assim:
«Tenho sempre um encontro aos domingos de manhã. Esse encontro não foi possível realizar hoje,
fiquei igualmente feliz com a fonte, o verde geral das árvores, o caminho».




2.
Como dizia o Augusto, do que ela precisava era de «matéria figural» para transformar, embora ultimamente já não fosse assim. Não conseguiu lidar com a única coisa que nunca conhecera — a doença — e que surgiu como ela não gostava que nada acontecesse, de modo imprevisto e repentino.
Quando a fragilidade se começou a acentuar cada vez mais, passou a precisar de falar todos os dias ao telefone com alguém amigo, antes de se deitar, para poder dormir com alguma tranquilidade. Hábitos que, durante a vida de Augusto Joaquim, não se faziam sentir, já que ele estava sempre ali, «do outro lado do corredor».
3. 4.

5.
De uma grande dádiva quando sentia que era amada; felina quando percebia que a abordavam com uma qualquer forma de interesse ou vulgaridade. Do mesmo modo, era de uma amizade profunda com os amigos, mas largava-os se a feriam nas suas convicções mais profundas ou se, mesmo inadvertidamente, tentavam afastá-la dos seus propósitos. O que, às vezes, podia parecer injusto, era um modo de preservar a sua força, não a deixando diminuir, para poder continuar no sentido da justeza, tal como escolhera. Como o seu mestre Spinoza (era assim que gostava de pronunciar o nome do filósofo, por isso usava a grafia francesa), fugia rapidamente do que pudesse diminuir a sua vontade de agir, invadindo-a de um sentimento de tristeza. Era a alegria que sempre procurava, porque sabia que era o júbilo que queria pôr na escrita e que era com ele que queria escrever. Do mesmo modo, deixava que se fossem afastando os que, por algum motivo pessoal, sentiam a sua presença como castradora — fazia-os perceber que deviam escolher o seu próprio caminho. Mas, quando isso acontecia, era como se ela própria não estivesse à espera, e sofria com esse afastamento. Era essa a sua maneira de pôr em prática a liberdade de consciência, que tanto prezava. Nessas situações, raramente voltava atrás, mas não por rigidez ou teimosia, antes por convicção — não era obstinada, pois sabia ouvir a opinião dos outros e, não raras vezes, mudava a sua. Só era intransigente com a falta de amor. Por isso, era capaz de ter amigos muito diferentes, desde que o afecto fosse uma constante nas suas vidas. Não fazia qualquer distinção entre eles, no sentido de valorizar mais uns do que outros; mas sabíamos que as conversas que, individualmente, tinha com cada um, eram bem diferentes — confidências, leituras, passeios, sabiam escolher os seus companheiros e interlocutores. E alguns ficaram para sempre.


6.

7.
Alguns não perdoam que ela tenha tido a persistência de lutar contra «os mesmos lugares à mesa», o status quo do romance dito realista. E falam de «seita» em relação aos que a lêem. Dizem não saber o que é isso de ser «legente» (que ela preferia a «leitor»), porque nunca pensaram que, com certos textos, a melhor maneira de conjugar o verbo ler é usá-lo no gerúndio, sem cansaço de leitura. E isto é sério e grave, principalmente dentro das universidades. Mas não é por aí que quero continuar.

8.

9.
Há uma passagem no livro Um Beijo Dado Mais Tarde, que talvez seja das mais esclarecedoras relativamente ao modo como ela se via no mundo: diz-se [a Témia] que «uma lamparina de azeite nunca se apaga. É uma luz que realiza sempre a função da luz – extrair objectos iluminados dos objectos apagados». Associo sempre esta lamparina à importância da luz no seu texto e também a ela própria, talvez porque a Maria Gabriela me contou, uma vez, que se via, desde muito pequena, com uma candeia na mão, a abrir caminho na frente de outros. E isto acontecia como uma espécie de sonho recorrente (sonho que pode até ter acontecido). A importância que ela dava a este facto era enorme, mas não porque se sentisse superior aos outros; era, sim, com um grande sentido de responsabilidade que o recordava e que o aceitava como destinação. Se era isso que chamava por ela, o querer abrir caminho, era para isso que viveria e escreveria. E assim aconteceu. Não como missão, mas como um modo de vida igual a qualquer outro. Lastimava aqueles «a quem nada chama», que passam pela vida queimando os dias. Ao contrário, os que sentem um apelo e têm capacidade de decisão (qualidade que a Maria Gabriela muito apreciava), vão atrás do seu sonho, seguem o que consideram ser um «pensamento verdadeiro», acreditam nele incondicionalmente, definem-no como a sua «causa amante», agem com determinação, e vão em frente. Foi isso que ela fez. Com a imensa sorte de ter encontrado Augusto Joaquim, também ele de uma grande generosidade e determinado, se necessário, a abdicar da sua obra em favor da dela. E, infelizmente para ele e para todos nós, foi necessário abdicar. Salvou-se a dela. Os dois previram e aceitaram tudo, como um «ambo». Só não contaram com a decisão das Parcas, de o levar primeiro a ele, doze anos mais novo.

10.
Foi desse modo que a Maria Gabriela decidiu viver. Como deixou escrito em duas linhas de Lisboaleipzig1. O encontro inesperado do diverso:
«Post scriptum: Através de mim, os animais assumiram melhor a sua condição humana. Eu não fiz senão correr através do mundo, e assumi, como pude, a minha condição animal. Começou a vibrar um grande arco em que espalhei a justiça e a desordem __________»


















































