AD LOCA LLANSOLIANA (2)
1 - A Bélgica
(…)
il y avait une ombre,
dont il était impossible de faire le portrait;
quand il n’y avait plus de lumière,
l’ombre tombait par terre.
(Finita)
Trabalhar a dura matéria, move a língua; viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós.
(Finita)
O extremo ocidental do Brabante
I
(…)
Sei hoje que é nessa sobreimpressão que eu habito o mundo, e vejo, com nitidez, que outros vieram ter comigo:
«concebe um mundo humano que aqui viva, nestas paragens onde não há raízes.»
III
Desses primeiros anos na Bélgica guardo uma imagem difusa, e ligeiramente irreal: as planuras do Brabante e o vale do Mosela; as fachadas góticas da Flandres; a vida de estudante, em Lovaina; o direito efectivo à informação. As particularidades, múltiplas e incontáveis, de um país conservador, percorrido por pessoas livres e trabalhadoras que, embora achando muito original a imaginação das gentes vindas de outras terras, não podiam deixar de marcá-la com os indícios de uma espécie de bom senso degenerado…
(Lisboaleipzig 1)
2 - Bruges, béguinage
Há muitos anos, quando comecei a viver na Bélgica, sempressentir que seria por tantos, esta nossa longa ausência fez-me uma profunda impressão. Estava eu no béguinage de Bruges, com o sentimento fortíssimo de que já ali teríamos estado. Nós, não era eu. (…)
Data de então a presença constante, invasora e quase exclusiva, de certas figuras europeias nos meus livros. (…)
Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto. Comecei nas beguinas; destas, passei a Hadewijch, a Ruysbroeck. Destes, a João da Cruz e a Ana de Peñalosa. Fui conduzida por todos eles a Müntzer, à batalha de Frankenhausen e à cidade utópica de Münster, na Vestefália. Nos restos fracassados destes homens encontrei Eckhart, Suso, Espinosa, Camões e Isabel de Portugal. E foi por sua mão que fui até Copérnico, Giordano Bruno, Hölderlin, que todos eles anunciavem Bach, Nietzsche, Pessoa, e outros que a nossa memória ora esquece, ora lembra tão intensamente que me parece outra forma de os esquecer.
De esquecer tudo isso.
(Lisboaleipzig 1)
3 - Lovaina
expor, e um certo relento de Universalidade. (…)
O que me choca é a vastidão dos textos que não ficarão e que, hoje, no espaço fechado da livraria, fazem um ruído ensurdecedor de «papotage» que quase tornou inaudível o diálogo entre os livros que falam e mantêm entre si a arte da conversação infindável sobre o entresser.
(Finita)
4 - Jodoigne
Casa de Jodoigne, 23 de Abril de 1977(…) dou finalmente posse à minha verdadeira figura, e as composições de imagens e ideias que se tinham formado durante a noite refazem-se naquele instante: estou em baixo, na cozinha ampla e branca, a preparar uma refeição, voltada para a mesa redonda, e de costas para o armário mural. A cozinha mergulha numa luz que vem do fulgor. A janela, que tem por cortinado uma colcha das ilhas é, atraentemente, uma fonte.
(Finita)
Jodoigne, 6 de Agosto de 1977,
em que acabei de escrever A Restante Vida
O ano de 74, ano da libertação política de Portugal, ainda decorreu em Lovaina. Só partimos para Jodoigne em Abril de 75, embora já durante todo o mês de Março, tivéssemos preparado a casa. A casa pareceu-me grande, o jardim um terreno vago no meio de muros bem calculados e envelhecidos; nessa altura, o portão ainda não era uma chave no espaço apesar de ter a presciência de que, vindo para esta casa, me daria a uma escrita mais segura, feita da experiência dos silenciados e de outras realidades por hábito abandonadas, ou não penetradas. Não me lembro do primeiro verão, devia ser um verão intermédio, embora já nele tivesse plantado, para meu sossego, Spirea e Prunus Triloba. Fui buscá-las a território flamengo, a Tienen, e elas cresceram com acessos de doçura e de força; com inteligência visionária se alongariam meus dias, em noites obscuras e horas fecundas, quase intermináveis…
(Finita)
5 - Herbais
Lugar mítico, paisagem que avistei durante anos do meu quarto minúsculo de Herbais. Paisagem nem urbana, nem rural, com essa faixa que ainda hoje a atravessa e que sempre me dava a vontade de a seguir. Sem saber como, eu sabia que no fim dessa estrada estava um mar. A este processo chamei a convicção íntima, e foi nela e suspensa da janela desse quarto que escrevi, dias a fio, Contos do Mal Errante.Herbais,
é a paisagem que Herbais guarda como lhe pertencendo verdadeiramente. Vejo nela o Jade correndo, os carreiros uma grande explosão de fundo. Nada explode. Tudo é isto, campos imensos de variedades de cereais, ou então só matizes de verde e, próximo, raros arbustos e árvores que não foram abatidas.
Herbais,
uma ilha humana, ao longe, na crista da paisagem. Para ela se orientam naturalmente os passos humanos. Mas, para a compreender para além da sua pequenez, precisámos de deixar partir de nossas mentes a imagem de cidade, aglomeração humana densa.
(«O pensamento de algumas imagens», in: A Restante Vida, 2ª ed.)


















.jpg)







Meus sentimentos tocam as trombetas da alvorada _______ é amanhecer. Uma brisa provoca-os e eles aglomeram-se junto de mim, e eu procuro um cão amestrado e fiel para os guardar. Esse cão chama-se JuÁ. Ju, de Júbilo, A, de Alegria.












