Texto já sintomático, se não de um estilo, pelo menos de uma atitude. Radical, e anunciando caminhos que os «pobres da História» e os «acentrados» da sociedade seguiriam mais tarde, nos livros posteriores a O Livro das Comunidades. Mas também a linguagem deixa já entrever a escolha inconfundível da via da imagem, e a recusa quase programática da metáfora — mesmo quando esta parece estar presente: «As groselhas são bagas vermelhas. O sumo desliza em gotas de volúpia pela boca, suja o pescoço e o vestido. As laranjeiras são redondas. Há sol dentro de cada groselha e dentro de cada laranja.» Como no dicionário de uma estirpe com olhos de ver na dobra do mundo.Ou como num desenho de Klee: o recorte nítido da coisa, trepassada por um olhar que vê o que vai lá dentro, e existe. E, aqui e ali, uma postura que evidencia já uma «crítica civilizacional» que se iria acentuar e transformar em marca inconfundível do modo llansoliano de ver o mundo:«As paredes do bar estavam pintadas de verde escuro. Mas nenhum desses verdes era igual ao dos plátanos que ladeavam a casa.» E a presença de uma cabeça que não pensa o que sente (o corpo), mas sente o que o corpo pensa (com pensamento já libidinal?). Aossê avant la lettre, intuição da sua bi-humanidade, talvez a maior das revoluções na hermenêutica pessoana? — «No bar, como na estrada, deslizaram ondas de ruídos, essências e cores. Ondas mortas, pensaria Isabel, se a sua cabeça pensasse o que sentia.»
29.7.07
O PRIMEIRO CONTO DE LLANSOL
O primeiro texto de ficção publicado por Maria Gabriela Llansol é o conto «Empregada», aparecido no Diário de Notícias de 12 de Setembro de 1957,e logo com uma gralha de palmatória no nome da autora: Gabriela «Lauzol»!
Texto já sintomático, se não de um estilo, pelo menos de uma atitude. Radical, e anunciando caminhos que os «pobres da História» e os «acentrados» da sociedade seguiriam mais tarde, nos livros posteriores a O Livro das Comunidades. Mas também a linguagem deixa já entrever a escolha inconfundível da via da imagem, e a recusa quase programática da metáfora — mesmo quando esta parece estar presente: «As groselhas são bagas vermelhas. O sumo desliza em gotas de volúpia pela boca, suja o pescoço e o vestido. As laranjeiras são redondas. Há sol dentro de cada groselha e dentro de cada laranja.» Como no dicionário de uma estirpe com olhos de ver na dobra do mundo.Ou como num desenho de Klee: o recorte nítido da coisa, trepassada por um olhar que vê o que vai lá dentro, e existe. E, aqui e ali, uma postura que evidencia já uma «crítica civilizacional» que se iria acentuar e transformar em marca inconfundível do modo llansoliano de ver o mundo:«As paredes do bar estavam pintadas de verde escuro. Mas nenhum desses verdes era igual ao dos plátanos que ladeavam a casa.» E a presença de uma cabeça que não pensa o que sente (o corpo), mas sente o que o corpo pensa (com pensamento já libidinal?). Aossê avant la lettre, intuição da sua bi-humanidade, talvez a maior das revoluções na hermenêutica pessoana? — «No bar, como na estrada, deslizaram ondas de ruídos, essências e cores. Ondas mortas, pensaria Isabel, se a sua cabeça pensasse o que sentia.»
Texto já sintomático, se não de um estilo, pelo menos de uma atitude. Radical, e anunciando caminhos que os «pobres da História» e os «acentrados» da sociedade seguiriam mais tarde, nos livros posteriores a O Livro das Comunidades. Mas também a linguagem deixa já entrever a escolha inconfundível da via da imagem, e a recusa quase programática da metáfora — mesmo quando esta parece estar presente: «As groselhas são bagas vermelhas. O sumo desliza em gotas de volúpia pela boca, suja o pescoço e o vestido. As laranjeiras são redondas. Há sol dentro de cada groselha e dentro de cada laranja.» Como no dicionário de uma estirpe com olhos de ver na dobra do mundo.Ou como num desenho de Klee: o recorte nítido da coisa, trepassada por um olhar que vê o que vai lá dentro, e existe. E, aqui e ali, uma postura que evidencia já uma «crítica civilizacional» que se iria acentuar e transformar em marca inconfundível do modo llansoliano de ver o mundo:«As paredes do bar estavam pintadas de verde escuro. Mas nenhum desses verdes era igual ao dos plátanos que ladeavam a casa.» E a presença de uma cabeça que não pensa o que sente (o corpo), mas sente o que o corpo pensa (com pensamento já libidinal?). Aossê avant la lettre, intuição da sua bi-humanidade, talvez a maior das revoluções na hermenêutica pessoana? — «No bar, como na estrada, deslizaram ondas de ruídos, essências e cores. Ondas mortas, pensaria Isabel, se a sua cabeça pensasse o que sentia.»
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18:40
28.7.07
HISTÓRIA DE UM SÍMBOLO

Foi pouco depois da partida definitiva de alguém que era o centro de um grupo de legentes, grande inventor de formas de vida, como disse Llansol, e o legente por excelência do seu Texto. Eixo que sustentava o feixe de leitores, afim e diverso, que à sua volta se congregara e formava já um ser de pensamento e de afecto, múltiplo e de vários corpos. Uma inflorescência humana.
Num passeio ao Cabo da Roca com uma amiga brasileira, em finais de 2003, lá estava ela, sozinha, seca e confiante, no meio das ervas e dos chorões verde-pálidos e invernais. Abandonada, mas bela e inteira, respirando aquela aura de belo-mais-belo que envolve as coisas que esperam o olhar que as faça viver. Exemplar único, com a configuração de uma flor umbelada.
Um olhar a descobriu, já no momento da retirada. Uma boca a nomeou e arvorou em símbolo: flor umbelada, emblema de um tronco de muitos ramos, todos igualmente importantes. E foi acolhida por um grupo que procurava entender o que significa ler o mundo e «evoluir para pobre», feito de matéria humana comum, como, afinal, comum era aquela flor que não identificámos logo. O tempo e os ventos ásperos haviam-lhe dado outro aspecto e consistência.
Só mais tarde, este ano, noutra visita ao mesmo lugar, lhe descobrimos o nome, o comum e o científico, a condição e as cores: é o «cravo romano», armeria pseudoarmeria, endémica na península de Lisboa. No seu novo estado de floração primaveril é uma inflorescência rasteira, corrente no litoral norte, planta humilde, mas que pode atingir o porte de um arbusto médio. De repente, começou a aparecer por todo o lado, modesta e exuberante, em gradações de cor que vão do branco ao verde-pálido e do rosa ao castanho claro.
Colhemos mais algumas. Mas é a primeira, a solitária, achado fortuito em estado de beleza austera e forte, que nos acompanha até hoje em todos os eventos acontecidos desde 2004. Evoluiu, com o cão Jade, para ícone identificativo dos Cadernos Llansolianos, e acabaria por se transformar na estrela que guiará os destinos do Espaço Llansol. Sofreu alguma coisa com o tempo, algumas hastes perderam-se, mas continua aí, resistente, a precisar de mais cuidados, mas ainda e sempre emblemática.

Como o selo de reis e imperadores, tem uma guardiã, mas não é insígnia de poder. Assume-se como imagem de igualdade e despossessão, rosa sustentável de um projecto de escrita, de vida, de leitura: «a rosa da inflorescência – o que a faz rodar – é o elo da cura e da beleza» (Amigo e Amiga, 159). Rosa de um jardim que o pensamento permite. Flor pobre de um bosque que a despossessão habita. Bela flor umbelada.
Num passeio ao Cabo da Roca com uma amiga brasileira, em finais de 2003, lá estava ela, sozinha, seca e confiante, no meio das ervas e dos chorões verde-pálidos e invernais. Abandonada, mas bela e inteira, respirando aquela aura de belo-mais-belo que envolve as coisas que esperam o olhar que as faça viver. Exemplar único, com a configuração de uma flor umbelada.
Um olhar a descobriu, já no momento da retirada. Uma boca a nomeou e arvorou em símbolo: flor umbelada, emblema de um tronco de muitos ramos, todos igualmente importantes. E foi acolhida por um grupo que procurava entender o que significa ler o mundo e «evoluir para pobre», feito de matéria humana comum, como, afinal, comum era aquela flor que não identificámos logo. O tempo e os ventos ásperos haviam-lhe dado outro aspecto e consistência.
Só mais tarde, este ano, noutra visita ao mesmo lugar, lhe descobrimos o nome, o comum e o científico, a condição e as cores: é o «cravo romano», armeria pseudoarmeria, endémica na península de Lisboa. No seu novo estado de floração primaveril é uma inflorescência rasteira, corrente no litoral norte, planta humilde, mas que pode atingir o porte de um arbusto médio. De repente, começou a aparecer por todo o lado, modesta e exuberante, em gradações de cor que vão do branco ao verde-pálido e do rosa ao castanho claro.
Colhemos mais algumas. Mas é a primeira, a solitária, achado fortuito em estado de beleza austera e forte, que nos acompanha até hoje em todos os eventos acontecidos desde 2004. Evoluiu, com o cão Jade, para ícone identificativo dos Cadernos Llansolianos, e acabaria por se transformar na estrela que guiará os destinos do Espaço Llansol. Sofreu alguma coisa com o tempo, algumas hastes perderam-se, mas continua aí, resistente, a precisar de mais cuidados, mas ainda e sempre emblemática.

Como o selo de reis e imperadores, tem uma guardiã, mas não é insígnia de poder. Assume-se como imagem de igualdade e despossessão, rosa sustentável de um projecto de escrita, de vida, de leitura: «a rosa da inflorescência – o que a faz rodar – é o elo da cura e da beleza» (Amigo e Amiga, 159). Rosa de um jardim que o pensamento permite. Flor pobre de um bosque que a despossessão habita. Bela flor umbelada.
J. B.
Publicado às
20:33
27.7.07
Teses sobre a Obra de Llansol
Duas teses de doutoramento recentes, uma da Universidade Federal de Minas Gerais e a outra da Universidade de Lisboa, debruçam-se sobre a Obra de Llansol, analisando-a na sua relação intertextual e figural respectivamente com os textos e as figuras de Thérèse Martin de Lisieux e de Hölderlin, Pessoa e Espinosa. A primeira intitula-se Luz Preferida: A pulsão da escrita em Maria Gabriela Llansol e Thérèse de Lisieux, e é da autoria de Vania Maria Baeta Andrade, psicanalista de Belo Horizonte:
A segunda foi defendida por Cristiana Vasconcelos Rodrigues, docente da Universidade Aberta, na Universidade de Lisboa em Junho passado, e intitula-se O Atrito do Mundo. Espinosa e Hölderlin pela mão de Llansol:
Publicado às
18:32
30 anos de
O Livro das Comunidades
Colóquio em Liverpool
e
nova edição ainda este ano
O Livro das Comunidades
Colóquio em Liverpool
e
nova edição ainda este ano

Claire Williams e Raquel Ribeiro organizam em Setembro na Universidade de Liverpool um Colóquio destinado a assinalar os trinta anos da publicação do «livro-fonte» da Obra de Llansol. Prevê-se ainda para este ano a reedição deste livro pela Assírio & Alvim, com imagens de quatro pintores portugueses.
Transcreve-se o «Call for papers» do Colóquio de Liverpool:
Portuguese Section, School of Cultures, Languages and Area Studies, University of Liverpool
Paulo de Medeiros (Utrecht)
Pedro Eiras (Porto)
– How far can O Livro das Comunidades be taken as a watershed in Llansol’s work, influencing the way we read her other texts?
– How could a re-reading of O Livro das Comunidades, 30 years since its publication, pave the way for unexpected encounters between literature and other artistic fields (such as music, film, art, architecture, theology)?
– How could one relate, cross or interweave other authors (who may or may not be the Llansolian figures of Musil, Kafka, Nietzsche, San Juan de la Cruz, Hadewijch, etc.) in the light of O Livro das Comunidades?
– How has Llansol’s work been received, before and after 1977;
– Can Llansol’s writing be translated out of Portuguese and into other languages?

Papers may be presented in English or Portuguese and must not exceed 20 minutes. Proposals may be individual or collective. Please submit an abstract of approx. 300 words and full contact details (including e-mail). We warmly encourage postgraduate submissions. Please send proposals by e-mail to:
Raquel Ribeiro (raquel.ribeiro@liverpool.ac.uk) or
Claire Williams (cleliwil@liverpool.ac.uk)
or by post to:
School of Cultures, Languages and Area Studies
University of Liverpool
Modern Languages Building
Chatham Street
Liverpool, L69 7ZR UK
Transcreve-se o «Call for papers» do Colóquio de Liverpool:
Portuguese Section, School of Cultures, Languages and Area Studies, University of Liverpool
Symposium
Maria Gabriela Llansol
30 years since O Livro das Comunidades
Wednesday, 5 September 2007
Blackburne House, Hope Street, Liverpool
Guest speakers:Maria Gabriela Llansol
30 years since O Livro das Comunidades
Wednesday, 5 September 2007
Blackburne House, Hope Street, Liverpool
Paulo de Medeiros (Utrecht)
Pedro Eiras (Porto)
Eu sei que, pouco a pouco,
passaremos a viver noutro fundo de livro e de linguagem.
E teremos, então, uma inquietação mais simples.
MGL, Um Beijo Dado Mais Tarde
The Portuguese Section of the School of Cultures, Languages and Area Studies at the University of Liverpool invites scholars and legentes (readers) to submit abstracts for the one-day Symposium to celebrate the thirtieth anniversary of the first edition of unique writer Maria Gabriela Llansol’s great work O Livro das Comunidades (1977). This book, the first in the Geografia dos Rebeldes trilogy, sets out Llansol’s philosophical and literary project for the future and paves the way for her following works. For the Symposium, we especially invite abstracts for papers, literary, philosophical or interdisciplinary, that address (but are not limited to) the following issues: passaremos a viver noutro fundo de livro e de linguagem.
E teremos, então, uma inquietação mais simples.
MGL, Um Beijo Dado Mais Tarde
– How far can O Livro das Comunidades be taken as a watershed in Llansol’s work, influencing the way we read her other texts?
– How could a re-reading of O Livro das Comunidades, 30 years since its publication, pave the way for unexpected encounters between literature and other artistic fields (such as music, film, art, architecture, theology)?
– How could one relate, cross or interweave other authors (who may or may not be the Llansolian figures of Musil, Kafka, Nietzsche, San Juan de la Cruz, Hadewijch, etc.) in the light of O Livro das Comunidades?
– How has Llansol’s work been received, before and after 1977;
– Can Llansol’s writing be translated out of Portuguese and into other languages?

Papers may be presented in English or Portuguese and must not exceed 20 minutes. Proposals may be individual or collective. Please submit an abstract of approx. 300 words and full contact details (including e-mail). We warmly encourage postgraduate submissions. Please send proposals by e-mail to:
Raquel Ribeiro (raquel.ribeiro@liverpool.ac.uk) or
Claire Williams (cleliwil@liverpool.ac.uk)
or by post to:
School of Cultures, Languages and Area Studies
University of Liverpool
Modern Languages Building
Chatham Street
Liverpool, L69 7ZR UK
Publicado às
18:29
26.7.07
LLANSOL E O GRANDE PRÉMIO
DE ROMANCE E NOVELA DA APE (II)
A atribuição do Grande Prémio de Romance a um livro como Amigo e Amiga (mas poderia ser qualquer outro de Maria Gabriela Llansol) suscitou, se não polémica, pelo menos comentários muito diversos e uma pequena troca de argumentos entre o porta-voz do júri, Luís Mourão, e Eduardo Pitta, nos respectivos blogues. Vale a pena fazer aqui uma resenha de alguns dos comentários e das posições assumidas, que, quando não são de adesão incondicional ou de rejeição in limine, elucidam bem sobre o lugar ímpar e não situável desta Obra. Romance? Não romance? Talvez apenas o pensamento de algumas imagens...

RTP – Rádio e Televisão de Portugal
Escritores destacam singularidade da escrita de Gabriela Llansol
A singularidade da obra de Maria Gabriela LLansol, distinguida com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, foi posta em relevo no testemunho pedido pela Lusa a três escritores. "É uma grande escritora, muito inovadora, sobretudo ao nível da língua", qualificou Vasco Graça Moura. Na opinião do escritor, depois corroborada por Rui Zink e Gonçalo M. Tavares, a escrita de Llansol não é de fácil acesso. Questionado sobre se a escritora tem seguidores, como ocorre por exemplo com Lobo Antunes, o poeta e ficcionista, também já premiado com o Grande Prémio da APE pelo romance Por detrás da magnólia, invocou precisamente a singularidade da escrita da autora para excluir essa possibilidade. "Ela é tão caracterizadamente pessoal - disse - que não se pode falar de continuadores". "Mas tem gerado - observou - um esforço de compreensão importante, da parte de homens como Eduardo Lourenço ou Eduardo Prado Coelho, que resulta em benefício da própria literatura". Na opinião de Rui Zink, Llansol é uma escritora "de difícil acesso", com "um lugar único" na literatura portuguesa, "nem acima nem abaixo dos nossos maiores". A escritora, disse, construiu um universo "pessoal e intransmissível", de algum modo "hermético no jogo de referências, mais do que no jogo formal". Para Gonçalo M. Tavares, os livros da autora de Amigo e Amiga, a obra premiada, "não têm valor como um todo mas pelo brilho de algumas frases, duas ou três frases que às vezes surgem e que valem o livro". O discurso por vezes flui "neutro", durante páginas e páginas a leitura faz-se sem sobressalto "e, de repente, há frases que se podem guardar", frases que a memória e a sensibilidade do leitor reterão por muito tempo. A escritora, disse ainda o autor de Jerusalém, escreve "fora de qualquer género literário" e os seus livros "não são para ser lidos como outros são". "Não se lê Thomas Mann - exemplificou - como se lê Maria Gabriela Llansol. E os seus livros devem ser lidos com muita atenção". Para ler Llansol, atendendo precisamente à singularidade do seu discurso, Gonçalo Tavares crê ser necessária "uma disposição prévia". "O leitor tem de se preparar", aconselhou.
Agência LUSA / 2007-05-18 18:25:01
RTP – Rádio e Televisão de Portugal
Escritores destacam singularidade da escrita de Gabriela Llansol
A singularidade da obra de Maria Gabriela LLansol, distinguida com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, foi posta em relevo no testemunho pedido pela Lusa a três escritores. "É uma grande escritora, muito inovadora, sobretudo ao nível da língua", qualificou Vasco Graça Moura. Na opinião do escritor, depois corroborada por Rui Zink e Gonçalo M. Tavares, a escrita de Llansol não é de fácil acesso. Questionado sobre se a escritora tem seguidores, como ocorre por exemplo com Lobo Antunes, o poeta e ficcionista, também já premiado com o Grande Prémio da APE pelo romance Por detrás da magnólia, invocou precisamente a singularidade da escrita da autora para excluir essa possibilidade. "Ela é tão caracterizadamente pessoal - disse - que não se pode falar de continuadores". "Mas tem gerado - observou - um esforço de compreensão importante, da parte de homens como Eduardo Lourenço ou Eduardo Prado Coelho, que resulta em benefício da própria literatura". Na opinião de Rui Zink, Llansol é uma escritora "de difícil acesso", com "um lugar único" na literatura portuguesa, "nem acima nem abaixo dos nossos maiores". A escritora, disse, construiu um universo "pessoal e intransmissível", de algum modo "hermético no jogo de referências, mais do que no jogo formal". Para Gonçalo M. Tavares, os livros da autora de Amigo e Amiga, a obra premiada, "não têm valor como um todo mas pelo brilho de algumas frases, duas ou três frases que às vezes surgem e que valem o livro". O discurso por vezes flui "neutro", durante páginas e páginas a leitura faz-se sem sobressalto "e, de repente, há frases que se podem guardar", frases que a memória e a sensibilidade do leitor reterão por muito tempo. A escritora, disse ainda o autor de Jerusalém, escreve "fora de qualquer género literário" e os seus livros "não são para ser lidos como outros são". "Não se lê Thomas Mann - exemplificou - como se lê Maria Gabriela Llansol. E os seus livros devem ser lidos com muita atenção". Para ler Llansol, atendendo precisamente à singularidade do seu discurso, Gonçalo Tavares crê ser necessária "uma disposição prévia". "O leitor tem de se preparar", aconselhou.
A CASA DOS SONHOS DO SONO [Blog, Carlos Vaz]
Parabéns Maria Gabriela Llansol! Amigo e Amiga, sem dúvida, uma obra ímpar na Literatura Portuguesa. Há já algum tempo que ando a trabalhar num pequeno texto sobre Amigo e Amiga de Maria Gabriela Llansol. Desde o ensaio Diários de um Real-Não-Existente (Ed. Labirinto) que não escrevia sobre os textos llansolianos, por ter sentido a necessidade, facilmente explicável, de me afastar da escrita da autora, para poder encontrar a minha. Precisei, sobretudo, de distanciar-me da experiência maravilhosa de ser um legente. Da autora não tenho "obras favoritas", pois todas são únicas e belas, mas se alguém me pedisse uma sugestão, apontaria as seguintes: os três diários (Finita, Um Falcão no Punho, Inquérito às Quatro Confidências), Causa Amante, Onde Vais Drama Poesia... e, por último, a obra Amigo e Amiga. Hoje, tive uma surpresa bem agradável, ao visualizar os blogs de Paulinho Assunção e de Luís Mourão (Manchas), descobri que M.G.L. foi a vencedora do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) 2006, com Amigo e Amiga. Para quem não sabe, não é a primeira vez que Maria Gabiela Llansol é galardoada com este prémio, uma vez que já em 1990 foi distinguida com o mesmo prémio, na obra Um Beijo Dado Mais Tarde.
***
De António Brito Santos, Leitor de Português em Heidelberg, para um amigo dele, «pouco literário»:
From: "Antonio de Brito Santos"
Date: June 17, 2007 3:19:50 PM GMT+01:00
To: "João Barrento"
Subject: Notas sobre Literatura
Meu caro João B.
Julguei que podiam despertar a curiosidade do HERR PROFESSOR estas notas sobre literatura, i.e., a propósito da pergunta do tal "amigo pouco literário" sobre M.G.Llansol. Neste campo, considero-me mais "Promenadenmischung" ("rafeiro" não diz o mesmo) do que "cão de raça". Sendo desplante — clique e já está! abraço ABS
Q: [o amigo] ... "Já tentei por várias vezes ler a Gabriela Llansol mas é extremamente penoso... pergunto-me sempre: para quê torturar assim os leitores???"
A: À laia de "conversa de compadres", subjectivo, a ciência de férias, a ver se consigo ilustrar-te:
— Quando um texto se encerra hermeticamente, negando-se-me, não me deixo torturar, ¡allá él!.
— Há textos, prosa poética, p.ex., que produzem uma espécie de encantamento - aí deixo-me embalar e entrego-me, sem pretender "entender" (será o caso da G.Llansol, 3 frases valem o erforço do livro todo).
— Qualquer texto, por mais elogiado que ele seja, que não consiga "chamar por mim", não merece o meu estatuto de leitor, recuso-me a colher seja o que seja.
— Autores famosos (Saramago O Homem Duplicado, Lídia Jorge A Última Dona...) ofendem-me com livros mal escritos e às primeiras páginas desisto e... adeus até ao meu regresso.
— J. Cardoso Pires, nada propenso à auto-reflexão das personagens ou ao psicologismo (que eu aprecio!), convenceu-me pela soberba capacidade arquitectónica, pela justeza das personagens, pela riqueza dos registos linguísticos, pela sua ascese que se nega a efeitos retóricos balofos, e last not least pela sua ética emancipatória. Dignas de nota as suas 3 figuras femininas: Maria das Mercês (Delfim), Mena, de quem até o Eduardo PC e um outro ainda "se enamoraram" como eu (Balada), Alexandra, a mais admirável figura feminina de toda a Literatura portuguesa - Antonius dicet (A. Alpha, com fracos na composição, é certo). JCP é o meu "mestre narrativo".
— A. Faria conseguiu ganhar-me para o acompanhar na sua sofrida aventura da "Tetralogia Lusitana".
— E há Franz Kafka sem adjectivos (a obra ficcional toda!): que me arrasta para regiões onde não são chamados nem o coração da razão nem a razão do coração, e me leva a sentir o mais profundo de "SER".
— E temos o Fernando António que, como mais ninguém, ousou por e para todos nós a amarga aventura do absurdo de existir — sem remissão! (Tenho para mim que todo o FP é suicidário e o Desassossego uma droga perigosa
— ou leva espíritos fortes a assumir heroicamente a humana conditio sem lenitivos). — E temos ainda o fabuloso Don Quijote para rirmos e chorarmos a todas as horas em todas as idades. "E pronto. Eis-me declarado (no orig.: nascido). Cheio de sede e fome. /António é o meu nome." (António Gedeão: "Poema de me chamar António" — Poesias Completas [1956-1967], poema final)

Manchas [Blog de Luís Mourão] From: "Antonio de Brito Santos"
Date: June 17, 2007 3:19:50 PM GMT+01:00
To: "João Barrento"
Subject: Notas sobre Literatura
Meu caro João B.
Julguei que podiam despertar a curiosidade do HERR PROFESSOR estas notas sobre literatura, i.e., a propósito da pergunta do tal "amigo pouco literário" sobre M.G.Llansol. Neste campo, considero-me mais "Promenadenmischung" ("rafeiro" não diz o mesmo) do que "cão de raça". Sendo desplante — clique e já está! abraço ABS
Q: [o amigo] ... "Já tentei por várias vezes ler a Gabriela Llansol mas é extremamente penoso... pergunto-me sempre: para quê torturar assim os leitores???"
A: À laia de "conversa de compadres", subjectivo, a ciência de férias, a ver se consigo ilustrar-te:
— Quando um texto se encerra hermeticamente, negando-se-me, não me deixo torturar, ¡allá él!.
— Há textos, prosa poética, p.ex., que produzem uma espécie de encantamento - aí deixo-me embalar e entrego-me, sem pretender "entender" (será o caso da G.Llansol, 3 frases valem o erforço do livro todo).
— Qualquer texto, por mais elogiado que ele seja, que não consiga "chamar por mim", não merece o meu estatuto de leitor, recuso-me a colher seja o que seja.
— Autores famosos (Saramago O Homem Duplicado, Lídia Jorge A Última Dona...) ofendem-me com livros mal escritos e às primeiras páginas desisto e... adeus até ao meu regresso.
— J. Cardoso Pires, nada propenso à auto-reflexão das personagens ou ao psicologismo (que eu aprecio!), convenceu-me pela soberba capacidade arquitectónica, pela justeza das personagens, pela riqueza dos registos linguísticos, pela sua ascese que se nega a efeitos retóricos balofos, e last not least pela sua ética emancipatória. Dignas de nota as suas 3 figuras femininas: Maria das Mercês (Delfim), Mena, de quem até o Eduardo PC e um outro ainda "se enamoraram" como eu (Balada), Alexandra, a mais admirável figura feminina de toda a Literatura portuguesa - Antonius dicet (A. Alpha, com fracos na composição, é certo). JCP é o meu "mestre narrativo".
— A. Faria conseguiu ganhar-me para o acompanhar na sua sofrida aventura da "Tetralogia Lusitana".
— E há Franz Kafka sem adjectivos (a obra ficcional toda!): que me arrasta para regiões onde não são chamados nem o coração da razão nem a razão do coração, e me leva a sentir o mais profundo de "SER".
— E temos o Fernando António que, como mais ninguém, ousou por e para todos nós a amarga aventura do absurdo de existir — sem remissão! (Tenho para mim que todo o FP é suicidário e o Desassossego uma droga perigosa
— ou leva espíritos fortes a assumir heroicamente a humana conditio sem lenitivos). — E temos ainda o fabuloso Don Quijote para rirmos e chorarmos a todas as horas em todas as idades. "E pronto. Eis-me declarado (no orig.: nascido). Cheio de sede e fome. /António é o meu nome." (António Gedeão: "Poema de me chamar António" — Poesias Completas [1956-1967], poema final)
Sexta-feira, Maio 18
Grande Prémio do Romance da APE – 2006
Para Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, de Maria Gabriela Llansol.
O júri foi constituído por Silvina Rodrigues Lopes, Ana Mafalda Leite, Luís Mourão, Cristina Robalo Cordeiro (que votou em Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto) e Fernando Pinto do Amaral (que votou em A Ronda da Noite, de Agustina Bessa-Luís).
posted by Luís Mourão @ 23:54Para Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, de Maria Gabriela Llansol.
O júri foi constituído por Silvina Rodrigues Lopes, Ana Mafalda Leite, Luís Mourão, Cristina Robalo Cordeiro (que votou em Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto) e Fernando Pinto do Amaral (que votou em A Ronda da Noite, de Agustina Bessa-Luís).
***
Manchas [Blog de Luís Mourão] Quinta-feira, Maio 24
Contra?
Eu sei que é uma pequena notícia, e que o essencial é dito: Maria Gabriela Llansol venceu o Grande Prémio APE 2006. Mas certos deslizes semânticos estragam o bom jornalismo, e são menos desculpáveis ainda num Jornal de Letras, Artes e Ideias. Depois de informar que o júri deliberou o prémio por maioria de três votos, a notícia não assinada acrescenta: “votaram CONTRA Cristina Robalo Cordeiro e Fernando Pinto do Amaral, que preferiram, respectivamente, Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto, e A Ronda da Noite, de Agustina Bessa-Luís” (sublinhado meu, JL nº 956, de 23 de Maio a 5 de Junho de 2007, pag. 5). Desde quando, e logo em literatura, preferir é ser contra aquilo que não se prefere tanto?
posted by Luís Mourão @ 21:08 A impossibilidade de negar
No mesmo JL, Mafalda Ivo Cruz assina um notável pequeno texto sobre a sua alegria pelo prémio atribuído a Llansol. Dois excertos:
Há obras que se podem ler até ao infinito pois não acabarão nunca de se explicar. São obras cujo corpo (a explicação) é um recomeçar a falar numa ordem que de cada vez se recria e se organiza, com uma disciplina sempre diferentes, mas sempre igualmente impositiva e luminosa. Exactamente como o falar das pessoas com quem vivemos, que faz parte do nosso labirinto pessoal. E são a nossa vida íntima mental. (...) Ouvindo, como já ouvi tantas vezes, outra versão da Oferenda Musical enquanto escrevo este texto não posso deixar de aproximar a leitura de um e da outra. Qual será a substância da força que se limita a elevar-se, a ficar sempre ao lado do agir e da clarificação que não cessa? O que define um grande autor é a impossibilidade de o negar. É que em nós não possamos fazer nada contra ele. (...)

Há obras que se podem ler até ao infinito pois não acabarão nunca de se explicar. São obras cujo corpo (a explicação) é um recomeçar a falar numa ordem que de cada vez se recria e se organiza, com uma disciplina sempre diferentes, mas sempre igualmente impositiva e luminosa. Exactamente como o falar das pessoas com quem vivemos, que faz parte do nosso labirinto pessoal. E são a nossa vida íntima mental. (...) Ouvindo, como já ouvi tantas vezes, outra versão da Oferenda Musical enquanto escrevo este texto não posso deixar de aproximar a leitura de um e da outra. Qual será a substância da força que se limita a elevar-se, a ficar sempre ao lado do agir e da clarificação que não cessa? O que define um grande autor é a impossibilidade de o negar. É que em nós não possamos fazer nada contra ele. (...)

PS: Precisamente: nada contra ele. O que não impede de se poder preferir outro. Ou de ter votado, no ano transacto, num romance cuja "ideia de literatura" é substancialmente diferente.
posted by Luís Mourão @ 21:40
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Manchas [Blog de Luís Mourão] Segunda-feira, Maio 28
Grande Prémio de Novela e Romance APE/IPLB 2006
A obra de Maria Gabriela Llansol marca um trajecto singular na literatura portuguesa contemporânea, pela forma consistente e intransigente como tem procurado novos caminhos para a escrita do romance. Como sempre na sua obra, o vivido comparece sem os traços vulgares dos decalques realistas. O que a sua escrita visa não é a restituição de um real reconhecível na sua legibilidade imediata, a falsidade de um conhecimento de apropriação, mas o encontro do fulgor que cada ser ou situação comporta, aquilo que o vivo tem como potência de sentido e que é a tarefa e a responsabilidade de existirmos. Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004 é um romance particularmente exigente face a esta responsabilidade, pois que parte do confronto com “O Golpe”, que é sempre a inscrição da morte no nosso existir. Sem qualquer pathos sentimental ou ilusão de transcendência, Amigo e Amiga cria a vida pós-dor. As suas múltiplas figuras, algumas vindas de romances anteriores, constroem a aliança entre o que perdura, o que muda subitamente de sentido e o que emerge para a restante vida. A todas acolhe o silêncio, aquilo que preserva o texto e o existir da banalidade sufocante, aquilo que reconduz a ética da literatura — ou de qualquer outra tarefa — ao seu lugar de invenção de uma realidade que se mede apenas pela capacidade de devirmos dentro dela aquilo que de nós próprios desconhecíamos.
posted by Luís Mourão @ 11:27***
Manchas [Blog de Luís Mourão]Sexta-feira, Junho 1
E Agustina?
Sim, um júri deve argumentar. Deve tornar o mais claro possível aquilo que juridicamente se chama o seu “itinerário cognoscitivo”. É por isso que quero aqui responder, em meu nome — um júri é sempre uma soma de nomes individuais, convém não esquecê-lo — à pergunta que algumas pessoas me fizeram por mail: que me levou a não preferir A Ronda da Noite? Desde logo, esta nota curiosa. A pergunta envolveu sempre A Ronda da Noite, e não Cemitério de Pianos. Provavelmente, mera coincidência. Mas acertada, no que me diz respeito. Considero José Luís Peixoto um autor de indiscutível talento, mas ainda à procura de poder “dizer qualquer coisa” com o talento que lhe calhou e que tem oficinalmente desenvolvido através de vários itinerários formais. Neste momento, José Luís Peixoto faz-me lembrar aqueles antigos patinadores de leste: potencial técnico irrepreensível, mas coreografia fria, com vida não vivida por dentro. O seu primeiro romance teve o sangue e nervos mastigados que nos romances seguintes como que se ausentou. O melhor que se pode desejar a um autor assim é que a vida não lhe seja fácil — sem que isto, naturalmente, seja desejar-lhe mal. O grande romance virá. Agora A Ronda da Noite. Muito simplesmente, é uma obra-prima. Provavelmente, é também o melhor romance de Agustina. Isto não é um juízo eufórico, é um juízo, digamos, histórico. Porque esta obra-prima poderia ter sido escrita há oitenta ou cem anos atrás. Pelo tipo de personagens, eventos, reflexão e linguagem — nada em A Ronda da Noite nos abre directa e flagrantemente a contemporaneidade. Agustina não é contemporânea, é como as tragédias gregas – está lá tudo, só temos de “traduzir” isso para o nosso tempo e os nossos termos. Com todos os riscos que isso envolve — e são muitos, e farão de nós, no futuro, críticos que erraram o seu tanto — um prémio de romance de 2006 deveria ler 2006 sem a mediação do “clássico”. É uma forma de dizer. Mas é a minha forma de dizer, e é a minha assinatura que está lá. E a assinatura, podendo ser entendida como vaidade (que também é) e como responsabilidade (que também), é mais radicalmente a marca da contingência.
Manchas [Blog de Luís Mourão]Sexta-feira, Junho 29
Quem é o autor? ou Arte & Contexto # 4
Com a turma de mestrado, falamos longamente acerca das possibilidades de autoria deste texto:
Alcançamos, seguindo uma via de silêncio mútuo, o cimo de uma ladeira onde, além de podermos ver, debruçados numa ponte, as linhas férreas por onde seguiam andorinhas, vislumbrávamos as linhas curvas da paisagem que ensinam os olhos e libertam, sem palavras, os soluços da garganta.
Ninguém acertou, o que foi bom, porque assim o debate foi muito produtivo. As hipóteses mais interessantes foram estas:
1. Algures entre um epígono de Eça e um Eça muito melhorado, ou que tivesse com a paisagem uma relação metafísica “naturalizada”, quer dizer, sem necessidade de sublinhar o sublime, incorporando-o apenas como reacção natural e quotidiana.
2. Neste sentido, poderia ser um texto de um Vergílio Ferreira com o pathos controlado, embora o encaixe sintáctico seja substancialmente diferente do seu modo nervoso de escrita.
3. A hipótese que mais agradou foi a de que se tratará de um texto recentemente encontrado na arca pessoana, atribuído a um novo heterónimo.
4. Finalmente, causou uma viva estranheza o facto de as ligações dentro do parágrafo terem o acerto pesado de uma redacção de quarta classe — aquele “onde” magoa mesmo o ritmo — e o que está a ser dito ter a gravidade da mais funda sabedoria. Publicarei de novo o texto amanhã, de um modo que tornará a sua identificação quase imediata.
posted by Luís Mourão @ 09:52Alcançamos, seguindo uma via de silêncio mútuo, o cimo de uma ladeira onde, além de podermos ver, debruçados numa ponte, as linhas férreas por onde seguiam andorinhas, vislumbrávamos as linhas curvas da paisagem que ensinam os olhos e libertam, sem palavras, os soluços da garganta.
Ninguém acertou, o que foi bom, porque assim o debate foi muito produtivo. As hipóteses mais interessantes foram estas:
1. Algures entre um epígono de Eça e um Eça muito melhorado, ou que tivesse com a paisagem uma relação metafísica “naturalizada”, quer dizer, sem necessidade de sublinhar o sublime, incorporando-o apenas como reacção natural e quotidiana.
2. Neste sentido, poderia ser um texto de um Vergílio Ferreira com o pathos controlado, embora o encaixe sintáctico seja substancialmente diferente do seu modo nervoso de escrita.
3. A hipótese que mais agradou foi a de que se tratará de um texto recentemente encontrado na arca pessoana, atribuído a um novo heterónimo.
4. Finalmente, causou uma viva estranheza o facto de as ligações dentro do parágrafo terem o acerto pesado de uma redacção de quarta classe — aquele “onde” magoa mesmo o ritmo — e o que está a ser dito ter a gravidade da mais funda sabedoria. Publicarei de novo o texto amanhã, de um modo que tornará a sua identificação quase imediata.
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Sexta-feira, Junho 29Quem é o autor? ou Arte & Contexto # 5
Três leitor@s devidamente identificados arriscam:
1. Torga, por causa das serranias, andorinhas e soluços da garganta.
2. Mário de Carvalho, por um certo sabor a pastiche, certamente de um dos seus romances “históricos”.
3. Miguel Real, porque parece a reconstituição de uma linguagem de época.
O meu muito obrigado aos três leitor@s. Ninguém acertou, mas a argumentação é boa, e obrigar-nos-á a conclusões ainda mais interessantes quando se desvendar a autoria.
posted by Luís Mourão @ 19:041. Torga, por causa das serranias, andorinhas e soluços da garganta.
2. Mário de Carvalho, por um certo sabor a pastiche, certamente de um dos seus romances “históricos”.
3. Miguel Real, porque parece a reconstituição de uma linguagem de época.
O meu muito obrigado aos três leitor@s. Ninguém acertou, mas a argumentação é boa, e obrigar-nos-á a conclusões ainda mais interessantes quando se desvendar a autoria.
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Quarta-feira, Julho 4 Quem é o autor? ou Arte & Contexto # 10
Pedro Eiras: hum... Ruy Belo?...
Excelente escolha! Mas não, ainda. O que naturalmente é irrelevante, como já se terá compreendido. Relevante será uma autoria suportar tantas supostas autorias. O que, não sendo novo, convém re-afirmar de quando em vez.
posted by Luís Mourão @ 00:07Excelente escolha! Mas não, ainda. O que naturalmente é irrelevante, como já se terá compreendido. Relevante será uma autoria suportar tantas supostas autorias. O que, não sendo novo, convém re-afirmar de quando em vez.
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Quinta-feira, Julho 5 Quem é o autor? ou Arte & Contexto # 11
Finalmente, a revelação. Os considerandos ficam para mais tarde.
Alcançamos, seguindo uma via de silêncio mútuo, o cimo de uma ladeira onde, além de podermos ver, debruçados numa ponte, as linhas férreas por onde seguiam andorinhas, vislumbrávamos as linhas curvas da paisagem que ensinam os olhos e libertam, sem palavras, os soluços da garganta.
Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004, p. 79
Faz pensar, não é?
posted by Luís Mourão @ 00:28Alcançamos, seguindo uma via de silêncio mútuo, o cimo de uma ladeira onde, além de podermos ver, debruçados numa ponte, as linhas férreas por onde seguiam andorinhas, vislumbrávamos as linhas curvas da paisagem que ensinam os olhos e libertam, sem palavras, os soluços da garganta.
Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004, p. 79
Faz pensar, não é?
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Quarta-feira, Julho 11 Quem é o autor? ou Arte & Contexto # 12
Há um lado fútil nestes exercícios de adivinhação — demo-lo por adquirido e passemos ao que se pode pensar. Há depois uma crítica justa: a questão do falso fragmento. Apresentar-se como podendo ser significativo de uma autoria um excerto descontextualizado e que, na sua formulação pontual, até não terá as características que geralmente tornam evidente aquela autoria em particular. Digamos em avanço que o excerto de Llansol não contém de facto as suas características particulares, aquilo que a torna diferente e imediatamente reconhecível. Mas isso não só não afecta em nada a qualidade evidente do excerto, como não obsta a que o excerto seja de facto “significativo” no contexto do livro de que provém. As várias hipóteses de autoria que foram sendo avançadas nada têm de estranho, por mais singular que seja o lugar e a linhagem de Llansol. Ruy Belo, Torga, Mário de Carvalho, Miguel Real, Eça, Vergílio Ferreira, novo heterónimo pessoano — tudo apenas quer dizer, neste ponto muito particular, que quando se trata de fazer falar o essencial do comum, os pontos de convergência são maiores do que os estilos individualizados. Não retiro daqui qualquer lição de essência humana, apenas a ideia de que, historicamente, somos atados pelos mesmos feixes comuns, que vamos desfiando conforme podemos. E quanto mais próximo da dor nua é esse feixe, mais um certo ar de comum se torna reconhecível. Precisamente isso que, em certos momentos radicais, para além da linguagem ou de qualquer outro entendimento prévio, permite que nos reconheçamos naqueles que nos são inteiramente desconhecidos. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo do mundo — o irredutível tem também a marca do comum. Sem que deixe de ser verdade que o comum se dá a ver através das diferenças que o constituem, como tentarei exemplificar a seguir com casos tão diferentes como Eric Clapton e Keith Jarrett.
posted by Luís Mourão @ 10:11Blog Da Literatura
Domingo, Julho 15, 2007
Alhos & bugalhos
Não, Carolina, a Maria Gabriela Llansol não faz parte do grupo de autoras que cito aqui (a título meramente indicativo) porque a Llansol, uma grande autora, uma excelente prosadora, não é romancista. Tão simples como isto. Convém não confundir as coisas.
posted by Eduardo Pitta at 12:10 PM***
Manchas [Blog de Luís Mourão] Terça-feira, Julho 17
Vamos lá então à argumentação...
... meu caro Eduardo Pitta. Estou disposto a enfiar o barrete: votei Llansol para um prémio de romance, certo? E o facto de não estar sozinho nisso, nem o facto de aqueles que não votaram em Llansol não a terem excluído por não ser romancista, não quer dizer nada mais do que aquilo que diz — que não estou sozinho no facto de considerar Llansol romancista. O que me parecia (me parece) pacífico. Mas argumente lá, até pode ser que eu concorde...
posted by Luís Mourão @ 00:27***
Blog Da Literatura Terça-feira, Julho 17, 2007
Atitude
Meu caro Luís Mourão Luís Mourão, pode crer que não me moveu qualquer intuito de remoque a quem quer que fosse, muito menos a si, e menos ainda por causa do prémio (embora, nesse particular, tivesse preferido ver atribuído à autora de Finita o Prémio Vida Literária). Sucede que, tendo eu citado aqui o nome de meia dúzia de autoras capazes de contar histórias (no sentido tradicional e formal do termo) sem com isso abdicarem da inteligência — e sendo certo que a minha lista não esgota os bons exemplos, pois poderia ter acrescentado Maria Judite de Carvalho, Fernanda Botelho, Luísa Dacosta e talvez mais duas ou três —, uma autora devidamente identificada, a quem, por reserva de privacidade, chamei Carolina (um nome bonito), me interpelou com «E então Maria Gabriela Llansol...?» Limitei-me a explicar à senhora o meu ponto de vista. Llansol grande autora? Verdade. Llansol prosadora excepcional? Verdade. Llansol romancista? Não. É a minha opinião, naturalmente falível. Não faço história literária, nem tenho responsabilidades de fixação do cânone. E a esta hora do campeonato Maria Gabriela Llansol dispensa bem o que sobre ela possam pensar os contemporâneos. Entendo que Llansol não faz ficção no sentido em que a fizeram Jane Austen, Virginia Woolf ou Carson McCullers (e as portuguesas citadas). O que ela faz, e muito bem, é algo que podemos situar entre a literatura de ideias — que no seu caso dispensam as aspas, sendo o contrário das frouxas e importadas que dei como características de muita da má “ficção” que entre nós se publica — e o ensaio de índole memorialística. Digamos que é mais uma atitude e menos um género. É justamente aí, nessa atitude, que ninguém lhe leva a palma.
posted by Eduardo Pitta at 11:35 AM***
Manchas [Blog de Luís Mourão] Quarta-feira, Julho 18
Do romance (também) como atitude
Subscrevo tudo tudo, meu caro Eduardo Pitta. Acrescentarei apenas que, nestas coisas, tudo depende de quem escolhemos para delimitar implicitamente um género. É certo que Llansol “não faz ficção no sentido em que a fizeram Jane Austen, Virginia Woolf ou Carson McCullers”. Mas talvez se pudesse dizer que faz ficção no sentido em que a fizeram Sterne, Musil ou Sebald, ainda que todos e cada um por si tenham atitudes bem diferentes face ao fazer ficção. Mas o que seria do género romance se não tivesse "costas largas"? Ou não permitisse as atitudes singulares que lhe alargam permanentemente as fronteiras? E pouco importa que o alargar de fronteiras se faça por acidente: um raio sobre o lápis — usando o título na sua falsa literalidade —, e logo se perde o caminho que talvez nunca se tivesse realmente traçado. Mas não se diz que o espírito sopra onde quer? Mas chegado aqui é melhor deter-me, ou ainda começo a falar dessa ideia altamente esquisita de o romance ter vida própria independentemente dos romancistas (que tem, que tem...).
posted by Luís Mourão @ 10:37
Publicado às
19:16
25.7.07
LLANSOL E O GRANDE PRÉMIO
DE ROMANCE E NOVELA DA APE
DE ROMANCE E NOVELA DA APE
No passado dia 7 de Julho foi entregue a Maria Gabriela Llansol (representada por João Barrento) o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído ao livro Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004.

Na ocasião, a Espaço Llansol organizou na Fundação Calouste Gulbenkian uma exposição e venda dos livros da autora e das suas próprias edições:







O porta-voz do Júri – constituído por Ana Mafalda Leite, Cristina Robalo Cordeiro (que votou em Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto), Fernando Pinto do Amaral (que votou em A Ronda da Noite, de Agustina Bessa-Luís), Luís Mourão (porta-voz do Júri, que também se tem pronunciado sobre o livro aqui) e Silvina Rodrigues Lopes – leu na cerimónia de entrega o seguinte texto:
Parei longos meses na fotografia que antecede o primeiro capítulo de Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004. É uma cena fulgor aberta no sorriso de Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim. Um sorriso andando, alheio à pose. Uma imagem que é já texto, não porque seja parte de qualquer álbum de memórias mas porque convoca o trajecto sem repouso de uma obra absolutamente singular. Nos enredos desse andamento, os posfácios de Augusto Joaquim tornaram mais clara uma espécie de dupla vertente da escrita de Llansol. Primeiro, a recolha e transfiguração de uma experiência do comum, mas em que o vivido comparece sem os traços vulgares dos decalques realistas. Não se pretende um real reconhecível na sua legibilidade imediata, a falsidade de um conhecimento de apropriação, mas o encontro do diverso ou da diferença que cada ser ou situação comporta, aquilo que o vivo tem como potência de sentido e que é a tarefa e a aventura de existirmos. As exigências colocadas por esta aventura inscrevem-se numa demanda filosófica que parte do quadro emancipatório da modernidade mas que recusa a entropia eco-sociocultural da modernidade tardia. Daí uma segunda vertente, que convoca para um mesmo plano de imanência, e como forças que o intensificam e fazem devir, nomes da convulsão e da abertura da história, nomes como Müntzer, Bach, João da Cruz, Pessoa, mas também a ervilha, a árvore, o cão, qualquer um, qualquer coisa, o movimento de qualquer um e qualquer coisa em cada momento de permanência do universo. Nos longos meses em que me demorei junto dessa fotografia, duas frases me atiraram para a leitura. Pertencem a um livro anterior, Inquérito às Quatro Confidências, e a sua força deriva da sua extrema exigência. "Escrevo sem romantismo, sem drama e sem consolação" (p. 69). Como pode sustentar-se uma escrita assim quando tem de enfrentar-se com o que este curso de silêncio virá a chamar de “a maior experiência de dor de uma mulher resistente” (p. 25)? E como pode uma tal experiência de dor deixar intacto esse outro pensamento de Inquérito às Quatro Confidências segundo o qual "o homem não dispõe de corpo para imaginar o universo, os fins últimos e as razões primeiras, mas (…) está aqui, // caminhando no há que há" (p. 60)? Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004 é um romance que, perante si mesmo, se coloca numa postura particularmente exigente face à responsabilidade de um percurso anterior de descoberta. É como que um teste involuntário, mas em todo o caso um teste, e radical, acerca das possibilidades de a escrita poder de facto colher “o que da dor advém como beleza” (p. 186). Ou se quisermos colocar as coisas num outro plano, é um teste acerca das possibilidades de a escrita poder continuar a ser vida fazendo-se mesmo “em certas circunstâncias de terrível abandono ao irremediável” (p. 55). O que desde logo se torna evidente ao lermos este Curso é que ele é a longa resposta a um golpe, a uma dor enunciada de formas diversas mas remetendo todas para um mesmo acontecimento, que é de ordem pessoal mas também textual: trata-se agora de “compor um texto sem a tua presença ao lado” (p. 16). Mas pessoa singular e texto convergem de forma não menos evidente na responsabilidade e autoridade de uma bio-grafia. Como sempre, aliás, na obra de Llansol, e sempre, também, segundo o mesmo princípio: “falo indirectamente do que seria menos inteligível se falasse directamente” (p. 23). Sem qualquer pathos sentimental ou pretensão de transcendência, Amigo e Amiga cria a vida pós-dor. Há um longo confronto com aquilo que nos processos de luto, e na própria existência humana enquanto luto, Deleuze chamou os “afectos tristes”. Mas a dimensão narcísica do sentimento da ofensa e da revolta sem projecto de devir cedem aos ensinamentos do Curso, à construção das “imagens curativas”, que não são cristalizações de um processo defensivo mas energia que permite “permanecer no inseguro” (p. 14), que é outra forma de dizer o “caminhar no há que há”. As múltiplas figuras deste Curso, algumas vindas de romances anteriores, constroem a aliança entre o que perdura, o que muda subitamente de sentido e o que emerge para a restante vida. A todas acolhe o silêncio, aquilo que preserva o texto e o existir da banalidade sufocante, aquilo que reconduz a ética da literatura — ou de qualquer outra tarefa — ao seu lugar de invenção de uma realidade que se mede apenas pela capacidade de devirmos dentro dela aquilo que de nós próprios desconhecíamos. O que também se pode dizer de um outro modo: “Que este seja o jardim que a ausência permite” (p. 177). Agora estou parado há longos dias sobre o livro fechado. Começo a perceber que há alguma coisa que devia começar a ser dita, mas não tenho ainda as palavras. Qualquer coisa que começasse a dizer que Amigo e Amiga é um romance de amor tal como o amor pode ser vivido por humanos que escrevem e lêem a vida assim. Segundo um curso de silêncio que, de alguma forma, permitiu toda a obra anterior de Llansol. Mas não tenho ainda as palavras. Não tenho.
Maria Gabriela LLansol enviou o seguinte texto de agradecimento, que foi lido por João Barrento:

Na ocasião, a Espaço Llansol organizou na Fundação Calouste Gulbenkian uma exposição e venda dos livros da autora e das suas próprias edições:





O porta-voz do Júri – constituído por Ana Mafalda Leite, Cristina Robalo Cordeiro (que votou em Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto), Fernando Pinto do Amaral (que votou em A Ronda da Noite, de Agustina Bessa-Luís), Luís Mourão (porta-voz do Júri, que também se tem pronunciado sobre o livro aqui) e Silvina Rodrigues Lopes – leu na cerimónia de entrega o seguinte texto:
Parei longos meses na fotografia que antecede o primeiro capítulo de Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004. É uma cena fulgor aberta no sorriso de Maria Gabriela Llansol e Augusto Joaquim. Um sorriso andando, alheio à pose. Uma imagem que é já texto, não porque seja parte de qualquer álbum de memórias mas porque convoca o trajecto sem repouso de uma obra absolutamente singular. Nos enredos desse andamento, os posfácios de Augusto Joaquim tornaram mais clara uma espécie de dupla vertente da escrita de Llansol. Primeiro, a recolha e transfiguração de uma experiência do comum, mas em que o vivido comparece sem os traços vulgares dos decalques realistas. Não se pretende um real reconhecível na sua legibilidade imediata, a falsidade de um conhecimento de apropriação, mas o encontro do diverso ou da diferença que cada ser ou situação comporta, aquilo que o vivo tem como potência de sentido e que é a tarefa e a aventura de existirmos. As exigências colocadas por esta aventura inscrevem-se numa demanda filosófica que parte do quadro emancipatório da modernidade mas que recusa a entropia eco-sociocultural da modernidade tardia. Daí uma segunda vertente, que convoca para um mesmo plano de imanência, e como forças que o intensificam e fazem devir, nomes da convulsão e da abertura da história, nomes como Müntzer, Bach, João da Cruz, Pessoa, mas também a ervilha, a árvore, o cão, qualquer um, qualquer coisa, o movimento de qualquer um e qualquer coisa em cada momento de permanência do universo. Nos longos meses em que me demorei junto dessa fotografia, duas frases me atiraram para a leitura. Pertencem a um livro anterior, Inquérito às Quatro Confidências, e a sua força deriva da sua extrema exigência. "Escrevo sem romantismo, sem drama e sem consolação" (p. 69). Como pode sustentar-se uma escrita assim quando tem de enfrentar-se com o que este curso de silêncio virá a chamar de “a maior experiência de dor de uma mulher resistente” (p. 25)? E como pode uma tal experiência de dor deixar intacto esse outro pensamento de Inquérito às Quatro Confidências segundo o qual "o homem não dispõe de corpo para imaginar o universo, os fins últimos e as razões primeiras, mas (…) está aqui, // caminhando no há que há" (p. 60)? Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004 é um romance que, perante si mesmo, se coloca numa postura particularmente exigente face à responsabilidade de um percurso anterior de descoberta. É como que um teste involuntário, mas em todo o caso um teste, e radical, acerca das possibilidades de a escrita poder de facto colher “o que da dor advém como beleza” (p. 186). Ou se quisermos colocar as coisas num outro plano, é um teste acerca das possibilidades de a escrita poder continuar a ser vida fazendo-se mesmo “em certas circunstâncias de terrível abandono ao irremediável” (p. 55). O que desde logo se torna evidente ao lermos este Curso é que ele é a longa resposta a um golpe, a uma dor enunciada de formas diversas mas remetendo todas para um mesmo acontecimento, que é de ordem pessoal mas também textual: trata-se agora de “compor um texto sem a tua presença ao lado” (p. 16). Mas pessoa singular e texto convergem de forma não menos evidente na responsabilidade e autoridade de uma bio-grafia. Como sempre, aliás, na obra de Llansol, e sempre, também, segundo o mesmo princípio: “falo indirectamente do que seria menos inteligível se falasse directamente” (p. 23). Sem qualquer pathos sentimental ou pretensão de transcendência, Amigo e Amiga cria a vida pós-dor. Há um longo confronto com aquilo que nos processos de luto, e na própria existência humana enquanto luto, Deleuze chamou os “afectos tristes”. Mas a dimensão narcísica do sentimento da ofensa e da revolta sem projecto de devir cedem aos ensinamentos do Curso, à construção das “imagens curativas”, que não são cristalizações de um processo defensivo mas energia que permite “permanecer no inseguro” (p. 14), que é outra forma de dizer o “caminhar no há que há”. As múltiplas figuras deste Curso, algumas vindas de romances anteriores, constroem a aliança entre o que perdura, o que muda subitamente de sentido e o que emerge para a restante vida. A todas acolhe o silêncio, aquilo que preserva o texto e o existir da banalidade sufocante, aquilo que reconduz a ética da literatura — ou de qualquer outra tarefa — ao seu lugar de invenção de uma realidade que se mede apenas pela capacidade de devirmos dentro dela aquilo que de nós próprios desconhecíamos. O que também se pode dizer de um outro modo: “Que este seja o jardim que a ausência permite” (p. 177). Agora estou parado há longos dias sobre o livro fechado. Começo a perceber que há alguma coisa que devia começar a ser dita, mas não tenho ainda as palavras. Qualquer coisa que começasse a dizer que Amigo e Amiga é um romance de amor tal como o amor pode ser vivido por humanos que escrevem e lêem a vida assim. Segundo um curso de silêncio que, de alguma forma, permitiu toda a obra anterior de Llansol. Mas não tenho ainda as palavras. Não tenho.
Maria Gabriela LLansol enviou o seguinte texto de agradecimento, que foi lido por João Barrento:
Queria falar-vos a partir do livro Amigo e Amiga, hoje aqui festejado. Queria contar-vos, com todo o afecto, que logo a seguir a este escrevi outro livro, ainda inédito, a que dei o nome Os Cantores de Leitura. Fala da entoação da leitura, do seu canto e da aprendizagem de ler e escrever como música. Entre o ler e o cantar o lido fica um espaço, algo enigmático, de meditação. Sei que tenho um dom – o humilde dom de escrever.
Ao saber que eu tinha recebido o vosso prémio – o que muito me regozija –, um dos cantores voltou-se para mim dentro do livro e interrogou-me:
– Porquê um prémio? Uma recompensa não é resposta para um dom.
– Porque eu sou humana e os humanos tendem para a prática de actos visíveis. Eles são visíveis. Eu sou visível.
Ele insistiu:
– “A Rosa é sem Porquê.”
A todos os amigos, a todos os companheiros: a minha ausência foi forçada e causa-me uma grande pena.
Por isso, vou transcrever dois fragmentos de Os Cantores de Leitura que, neste momento, me ligarão estreitamente a vós. De mim, ficará bem presente o seu eco.
A ética de bolso
____________________ as cenas fluem sem dono servidas à mesa, em pratos simples, fundos _______ de barro, ou estanho. Quem está sentado à mesa é um rosto ausente, vários. E eu verifico que, pela primeira vez, entro naquele livro tão fácil de trazer junto à pele e ao vestuário. Atravessei uma ponte, de algumas páginas que eu queria ordenar sequencialmente segundo um projecto, mas,
mal eu atravessei, essa ponte caiu à água,
e eu encontrei-me naquela vasta sala de refeições pensando que antes de comer ia dormir,
chegar devagarinho
à minha colher,
ao meu garfo, à minha faca de lâmina que corta.
Mas de faca não preciso pois deixei de comer animais e aqui anda-se a ver se é possível restituir à sua imagem de vida os existentes não reais. É esse o conteúdo da leitura feita em voz alta. Quem lê está apoiado na secção do tronco de uma arbúscula que o eleva do chão, dando proeminência às folhas volvidas de leitura. Evoca trechos do pequeno volume de bolso chegado à pele, principalmente os referentes à servidão da sensibilidade humana,
e eu pergunto, sem obter resposta,
a quem está sentado no topo da mesa:
– Quem autorizou esses ramos frementes de inspiração a serem mortos?
Agora, os outros animais cobertos por um murmúrio de resposta intitulam-se, no novo espaço abobadado aberto _______ os existentes. Comovo-me a olhar seus rostos – e procuro o meu,
ainda com os olhos do meu corpo. Há uma campainha que toca atravessando a espessura das paredes,
e o luar, reunido à inspiração dos idiomas
aureola teus pés.
És tu quem chega, o novo conviva, de quem nem sequer simulámos a espera. Substituiu quem lê, com lentos grunhidos de animal perdido em tempo de matança e ninguém se surpreende com aquela perda de sentido da voz que se tornou apenas um som plangente e mal articulado; no entanto, os suínos não uivam, são os lobos que uivam,
mas este, elevado pela sensibilidade dos cantores às palavras,
de suíno para os sons graves de porco,
que acompanham a refeição,
tenta ler,
e nenhum olhar pestaneja,
pelo contrário,
fica-se emocionado da cabeça aos pés.
Eu própria procuro ler no grunhido contínuo, e acho este animal um princípio de beleza singular. Apalpo, no interior do pequeno livro que trago no bolso, uma intuição escrita:
Medito, diz-me o coração, que coisas exteriores pode ser o texto.
Acolho, por o pressentir há muito, que
Ela repousa no mesmo silêncio em que as imagens são criadas.
E há um cânone que se esvaece.
É na realidade crua que estou entrando e subo, sem comer,
para o leito de aplicação que me pertence,
onde ainda não se deitou ninguém,
no cimo das escadas,
e no vão de outra escada que sobe ainda mais, enrolada ao tronco do sonho que é duro, que é tenaz, que está erguido.
E sentados em torno desse berço, cada um com todo o sol nas mãos, fazemos circular a verdade da nossa história, a que chamais o mito.
Não houve antepassado. Houve, sim, a vontade nascente de um corpo vivo ao qual desejamos um reino sem fim. Na nossa linhagem, não transmitimos nem riqueza, nem a memória de feitos heróicos, transmitimos apenas a pergunta sobre o nosso filomenón. O primeiro de nós foi de um sítio longínquo a outro. Escolhera o material definitivo que levaria consigo – trastes e haveres. Deixou para trás uma planta de água – uma filomenón –, composta, em quantidades iguais, de verde e de bálsamo curativo da dor das distâncias.
Voltou ao ponto de origem, onde a deixara, com a vontade firme de a transplantar. Leva-a agora sobre os joelhos, na companhia de homens e mulheres emigrantes (“Ei-los que partem.”). Um vasinho de barro que nem chega a oito centímetros de diâmetro, e doze de altura. Contém terra estrangeira, e três folhas _____ uma planta da nossa natureza. Quando chegar, recolhê-la-á na Casa da saudação, junto à sombra de uma janela quase fechada para que o seu encontro com o sol, a ocorrer, seja intencional e definitivo. Encontro que nos vai surpreender agora aqui, reunidos em torno deste berço, olhando como o sol se vai aproximando dela – a veio procurar na penumbra para que venham a confundir-se um com o outro, numa só pergunta:
“Qual o poder do corpo de afectos?”
“Oxalá essa união”, reza Hölderlin, que Gratuita ama, “seja a imagem dos deuses reflectida na relva, e todos nós à imagem dessa imagem.”
Para a leitura subir na aragem,
eu,
Idílio,
simplifiquei a minha caligrafia. Quem escreve muito bem à mão, conhece a electricidade das palavras, o seu poder temporal e espiritual acima de qualquer livro. Este calor abranda as dores e as excitações nervosas e eu pressenti que este Angelikos acalmaria a inteligência e o afecto _______
seria o sol mandado de todos nós.
Como o outro, era depravador de imagens feitas ___ e qualquer coisa mais. Quando guardo memórias dentro desta Casa, deveis compreender que há qualquer coisa mais
que faz mais história da história
da nossa vida quotidiana deixada
no vazio que ficou aqui depois da nossa
partida simulada. Foi apenas um espaço
dispensável que nos deixou. Não deploramos
sobre o corpo dela – a caligrafia.
Sobe na aragem a leitura, a acuidade e o sentido do arabesco.
Todas as anotações terminam em guirlandas
e parecem sempre jovens.
contraluz é fria, e não há suor na sua fronte;
quando vislumbramos o textuador desta Casa, e do nosso corpo,
a luz salta sempre noutro lugar,
na borda das camas,
nas mesas onde trabalhamos,
nas toalhas,
mesmo sob a porta, entre o chão e a descida para o jardim.
É uma verdade que nos serena, sabermos que somos variações da luz. Sabermos que esta frase é uma imagem não sendo um metáfora, e que o nosso tempo corre entre uma e outra, por ignorância nossa.
Há, de facto, aqui um novo habitante.
Ao saber que eu tinha recebido o vosso prémio – o que muito me regozija –, um dos cantores voltou-se para mim dentro do livro e interrogou-me:
– Porquê um prémio? Uma recompensa não é resposta para um dom.
– Porque eu sou humana e os humanos tendem para a prática de actos visíveis. Eles são visíveis. Eu sou visível.
Ele insistiu:
– “A Rosa é sem Porquê.”
A todos os amigos, a todos os companheiros: a minha ausência foi forçada e causa-me uma grande pena.
Por isso, vou transcrever dois fragmentos de Os Cantores de Leitura que, neste momento, me ligarão estreitamente a vós. De mim, ficará bem presente o seu eco.
A ética de bolso
____________________ as cenas fluem sem dono servidas à mesa, em pratos simples, fundos _______ de barro, ou estanho. Quem está sentado à mesa é um rosto ausente, vários. E eu verifico que, pela primeira vez, entro naquele livro tão fácil de trazer junto à pele e ao vestuário. Atravessei uma ponte, de algumas páginas que eu queria ordenar sequencialmente segundo um projecto, mas,
mal eu atravessei, essa ponte caiu à água,
e eu encontrei-me naquela vasta sala de refeições pensando que antes de comer ia dormir,
chegar devagarinho
à minha colher,
ao meu garfo, à minha faca de lâmina que corta.
Mas de faca não preciso pois deixei de comer animais e aqui anda-se a ver se é possível restituir à sua imagem de vida os existentes não reais. É esse o conteúdo da leitura feita em voz alta. Quem lê está apoiado na secção do tronco de uma arbúscula que o eleva do chão, dando proeminência às folhas volvidas de leitura. Evoca trechos do pequeno volume de bolso chegado à pele, principalmente os referentes à servidão da sensibilidade humana,
e eu pergunto, sem obter resposta,
a quem está sentado no topo da mesa:
– Quem autorizou esses ramos frementes de inspiração a serem mortos?
Agora, os outros animais cobertos por um murmúrio de resposta intitulam-se, no novo espaço abobadado aberto _______ os existentes. Comovo-me a olhar seus rostos – e procuro o meu,
ainda com os olhos do meu corpo. Há uma campainha que toca atravessando a espessura das paredes,
e o luar, reunido à inspiração dos idiomas
aureola teus pés.
És tu quem chega, o novo conviva, de quem nem sequer simulámos a espera. Substituiu quem lê, com lentos grunhidos de animal perdido em tempo de matança e ninguém se surpreende com aquela perda de sentido da voz que se tornou apenas um som plangente e mal articulado; no entanto, os suínos não uivam, são os lobos que uivam,
mas este, elevado pela sensibilidade dos cantores às palavras,
de suíno para os sons graves de porco,
que acompanham a refeição,
tenta ler,
e nenhum olhar pestaneja,
pelo contrário,
fica-se emocionado da cabeça aos pés.
Eu própria procuro ler no grunhido contínuo, e acho este animal um princípio de beleza singular. Apalpo, no interior do pequeno livro que trago no bolso, uma intuição escrita:
“a Alma esforça-se, tanto quanto pode, por imaginar as coisas exteriores que aumentam ou facilitam a potência de agir do Corpo.”
Medito, diz-me o coração, que coisas exteriores pode ser o texto.
Acolho, por o pressentir há muito, que
“toda a coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser.”
Ela repousa no mesmo silêncio em que as imagens são criadas.
E há um cânone que se esvaece.
É na realidade crua que estou entrando e subo, sem comer,
para o leito de aplicação que me pertence,
onde ainda não se deitou ninguém,
no cimo das escadas,
e no vão de outra escada que sobe ainda mais, enrolada ao tronco do sonho que é duro, que é tenaz, que está erguido.
***
O caminho do solE sentados em torno desse berço, cada um com todo o sol nas mãos, fazemos circular a verdade da nossa história, a que chamais o mito.
Não houve antepassado. Houve, sim, a vontade nascente de um corpo vivo ao qual desejamos um reino sem fim. Na nossa linhagem, não transmitimos nem riqueza, nem a memória de feitos heróicos, transmitimos apenas a pergunta sobre o nosso filomenón. O primeiro de nós foi de um sítio longínquo a outro. Escolhera o material definitivo que levaria consigo – trastes e haveres. Deixou para trás uma planta de água – uma filomenón –, composta, em quantidades iguais, de verde e de bálsamo curativo da dor das distâncias.
Voltou ao ponto de origem, onde a deixara, com a vontade firme de a transplantar. Leva-a agora sobre os joelhos, na companhia de homens e mulheres emigrantes (“Ei-los que partem.”). Um vasinho de barro que nem chega a oito centímetros de diâmetro, e doze de altura. Contém terra estrangeira, e três folhas _____ uma planta da nossa natureza. Quando chegar, recolhê-la-á na Casa da saudação, junto à sombra de uma janela quase fechada para que o seu encontro com o sol, a ocorrer, seja intencional e definitivo. Encontro que nos vai surpreender agora aqui, reunidos em torno deste berço, olhando como o sol se vai aproximando dela – a veio procurar na penumbra para que venham a confundir-se um com o outro, numa só pergunta:
“Qual o poder do corpo de afectos?”
“Oxalá essa união”, reza Hölderlin, que Gratuita ama, “seja a imagem dos deuses reflectida na relva, e todos nós à imagem dessa imagem.”
***
Não deploremos... Para a leitura subir na aragem,
eu,
Idílio,
simplifiquei a minha caligrafia. Quem escreve muito bem à mão, conhece a electricidade das palavras, o seu poder temporal e espiritual acima de qualquer livro. Este calor abranda as dores e as excitações nervosas e eu pressenti que este Angelikos acalmaria a inteligência e o afecto _______
seria o sol mandado de todos nós.
Como o outro, era depravador de imagens feitas ___ e qualquer coisa mais. Quando guardo memórias dentro desta Casa, deveis compreender que há qualquer coisa mais
que faz mais história da história
da nossa vida quotidiana deixada
no vazio que ficou aqui depois da nossa
partida simulada. Foi apenas um espaço
dispensável que nos deixou. Não deploramos
sobre o corpo dela – a caligrafia.
Sobe na aragem a leitura, a acuidade e o sentido do arabesco.
Todas as anotações terminam em guirlandas
e parecem sempre jovens.
*
Quando dissermos sol, diremos Lós, porque a sua contraluz é fria, e não há suor na sua fronte;
quando vislumbramos o textuador desta Casa, e do nosso corpo,
a luz salta sempre noutro lugar,
na borda das camas,
nas mesas onde trabalhamos,
nas toalhas,
mesmo sob a porta, entre o chão e a descida para o jardim.
É uma verdade que nos serena, sabermos que somos variações da luz. Sabermos que esta frase é uma imagem não sendo um metáfora, e que o nosso tempo corre entre uma e outra, por ignorância nossa.
Há, de facto, aqui um novo habitante.
Publicado às
20:40
«SAPO DE FORA NÃO RONCA»?
Querida Inês, conheces bem o espírito que nos anima para saberes que neste Espaço sapo de fora ronca, e deve roncar sempre, para usar essa forte expressão do vosso Brasil profundo. Todas as sugestões são bem-vindas nesta fase de arranque e definição, sobretudo quando fazem sentido, como algumas das tuas, e vindas daqueles que sabemos que estão connosco há anos nesta «troca verdadeira». Obrigado pelos conselhos! Acabámos por deixar o cabeçalho, porque o espírito do Texto pede substância imagética, e reformulámos um pouco a «umbela» que nos identifica. O Literaterras já está nas «Outras casas» da nossa convivência, e com o tempo novas virão.
Publicado às
18:06
24.7.07
ABRINDO AS PORTAS
Somos uma Associação nascida de um grupo de estudos criado em 2000, e cujos objectivos estatutários são os de «prosseguir por todos os meios ao seu alcance o caminho iniciado pela Obra de Maria Gabriela Llansol, empenhando-se na preservação e vivência concreta dos valores nela presentes».
Para o primeiro triénio, iniciado este ano, os órgãos da Associação foram escolhidos de entre os sócios fundadores, e têm a seguinte constituição:
Direcção:
João Barrento, Hélia Correia, Maria Etelvina Santos (Universidade Nova de Lisboa), Cristiana Vasconcelos Rodrigues (Universidade Aberta) e José Félix Duque.
Mesa da Assembleia Geral:
Manuel Gusmão, José Augusto Mourão (Universidade Nova de Lisboa) e Daniela J. Oliveira (Professora).
Conselho Fiscal:
Sandra Santos (Distribuidora Nova Optimapress), Albertina Pena (Professora) e Mafalda Saloio (Actriz e professora).
Se navega nestas águas, junte-se a nós — basta pedir uma ficha de inscrição através do nosso e-mail, que figura nesta página.

Resolvemos abrir um Lugar na Internet. Um Lugar, e não um mero espaço de comunicação ou depósito de informação — que, no entanto, aqui terá um lugar de destaque, para dar a conhecer tudo o que vai acontecendo em torno desta Obra.
Como todos os Lugares llansolianos, este tem uma origem e uma referência primeira: o Texto, «lugar que viaja» e casa de encontro. Esta será uma casa aberta a toda a comunidade llansoliana, um espaço de possibilidades, com nome e vibração próprios. Mas não personalizado, antes lugar-sem-eu que vive da substância, única, que é o próprio Texto llansoliano. Lugar que procurará ser o reflexo de outros lugares de escrita e de leitura, terreno onde recolheremos o rasto das sementes que o Texto espalhou e continua a lançar, e que vão germinando pelo mundo fora.
O espírito deste Lugar é o que informa a nossa
Carta de Princípios
1. O Espaço Llansol não é apenas um lugar físico, mas também o lugar real, visível e invisível, disseminado pelo Texto de Maria Gabriela Llansol.
2. O Espaço Llansol é o lugar onde cada ser se desenvolve para o seu fim específico, espaço comum do encontro inesperado do diverso e do contrato que une todos os seres com a sua pujança própria, sem hierarquias.
3. O Espaço Llansol é o lugar do princípio de bondade e do eterno retorno do mútuo, onde não há comunidade, não há grupo, não há clube, não há seita, não há «nós»: apenas semelhantes na diferença.
4. O Espaço Llansol é o lugar onde não se pergunta «Quem sou eu?» (a pergunta do escravo), mas «Quem/o quê me chama?» (a pergunta do homem livre).
5. O Espaço Llansol é o lugar onde não há resignação nem morte, lugar de vida sob o signo dos afectos, no seu triplo registo: o Belo, o Pensamento e o Vivo.
6. O Espaço Llansol é o lugar onde escrever é o duplo de viver, e vice-versa.
7. O Espaço Llansol é o lugar onde se busca o dom poético (o potencial de beleza à espera de ser descoberto em todas as coisas e nas suas relações) e se exerce a liberdade de consciência (que permite a cada um reconhecer-se direito e ser inteiro).
8. O Espaço Llansol é o lugar da língua sem impostura.
9. O Espaço Llansol é um lugar de fascínio (o que está do lado do luminoso), não de sedução (o dispositivo de submissão de todas as vozes a uma única voz).
10. O Espaço Llansol é o lugar onde aquilo que o Texto tece advirá ao homem como destino. Esse destino é o de um humano-mais-humano, o de uma mais-paisagem do humano.
11. O Espaço Llansol é o lugar onde o homem será, arriscando a sua identidade por um desejo de metamorfose. A esse lugar o Texto chama «espaço edénico» – não o mítico, das origens, mas o que é criado no meio da coisa, não fixo, mas elaborável por cada um de nós.
12. O Espaço Llansol é o jardim que o pensamento permite.
Nos próximos dias falaremos
— da entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores a Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, e de algumas reacções
— da ópera Metanoite, apresentada na Fundação Gulbenkian (fórum «O estado do mundo») em finais de Junho
— de duas teses de doutoramento recentes sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol
— de um colóquio em Liverpool, assinalando os trinta anos de O Livro das Comunidades
— do último Encontro llansoliano (em Mourilhe, Trás-os-Montes), da publicação que daí resultou e
— da série «Jade. Cadernos Llansolianos», de que acabamos de editar cinco novos números.
E iniciaremos uma secção intitulada «o elo da escrita e da leitura», com textos desconhecidos ou inéditos de Maria Gabriela Llansol.

Publicado às
18:33
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